Mostrando postagens com marcador Polêmicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Polêmicas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de março de 2016

Multiplicidade de gêneros e um nó na cabeça

Amiguë agênerë: Você viu a página "Trans Boy" no Facebook? A descrição é: "Pensamentos de um garoto trans não binário.". Eu fiquei sem entender... Como assim a pessoa se diz um homem trans não-binário? Se é homem, como pode ser não-binário?

Cara Comum: Confesso que eu também fiquei sem entender...

Amiguë Agênerë: Pois é... Vou continuar acompanhando a página pra entender melhor...

Cara Comum: As possibilidades de gênero são difíceis até pra gente que tenta ajudar o mundo a quebrar a visão cristalizada e restrita sobre a diversidade sexual, imagina pra população em geral entender... Pra você ter ideia do desconhecimento da população em geral sobre a sexualidade, no Dia do Orgulho e da Visibilidade Bissexual do ano passado, participei de uma ação em que afixamos um banner na Praça 7 aqui em BH [Nota para quem nunca esteve em terras belo horizontinas: é a Praça mais movimentada da cidade, ficando no Centro. Está para BH como a Praça da Sé está para Sampa] que dizia apenas: "Dia 23 de setembro: Dia do Orgulho e da Visibilidade Bissexual". Quando eu estava retirando o tal banner, passou um cara que leu o que estava escrito e, provavelmente vendo que eu estava retirando e não entendendo que eu tinha participação naquela manifestação, me disse com o sorriso malicioso: "É bom que sobra mais mulher pra gente, né?"...

Amiguë Agênerë: Sério??? Hahahahahahahahaahahahahahahaha... Como se bissexuais não sentissem atração por mulher, né?

Cara Comum: Bem, na verdade algumas pessoas bissexuais não se sentem atraídas por mulheres... Afinal, bissexuais sentem atração por mais de um gênero, diferentemente das pessoas monossexuais (que são os heterossexuais e homossexuais). Como temos praticamente infinitas possibilidades de gêneros, uma pessoa bissexual pode sentir atração por pessoas de dois ou mais gêneros quaisquer, porém não se sentirem atraídas por mulheres... Mas o grande problema do cara é achar que toda pessoa bissexual não sente atração por mulher. É aquela visão binária de que OU é hetero OU é gay...

Amiguë Agênerë: Péra! Para tudo!!! Como assim??? Bissexual que não sente atração por mulher???

Cara Comum: É... Como eu acabei de explicar...

Amiguë Agênerë: Gente... Nunca pensei nessa possibilidade...

Cara Comum: Tá vendo? E isso porque você é uma pessoa de gênero não-binário... Imagina pra população em geral, que, em sua maioria é hetero cis normativa e apegada a sua visão de mundo binária e de heterossexualidade compulsória?

Amiguë Agênerë: Pois é... Estamos malz, migs...

Cara Comum: Pra caramba...

***********************************************

PS: Pesquisando pela internet, consegui descobrir e entender melhor sobre a identidade de gênero de um um homem trans não-binário numa definição da Wikia Identidades de Gênero

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A quem interessa o apagamento dos bissexuais e da bifobia???

Ai a gente vai lendo coisas pela internet e cai num texto que se chama "Não existe bifobia". Confesso: quase não consegui lê-lo todo! A vontade de vomitar era forte demais! Cada coisa horrorosa escrita, que dava vontade de cortar os pulsos e desistir da humanidade!

Eu poderia repudiar cada caractere deste texto, mas vou me concentrar no cerne do seu título e no pressuposto que tenta manter de pé a ideia por ele defendida:

"Uma “fobia social”, no sentido em que enquadramos racismo, homofobia, misoginia, depende da EXISTÊNCIA DE UM SISTEMA HIERÁRQUICO E/OU DE CLASSE, BASEADO NA EXPLORAÇÃO, SEGREGAÇÃO, DEGRADAÇÃO E SUBJUGO DE UM GRUPO DE PESSOAS. Isso não existe em relação a pessoas bissexuais."

Pensando dessa forma... Existe sim, bifobia, da mesma forma que existem as outras opressões citadas. E vou combater esse mito que quer destruir o conceito de bifobia com minha argumentação abaixo.

Bifobia é um sistema no qual pessoas monossexuais são consideradas hierarquicamente superiores às bissexuais. Uma prova disso é o privilégio que elas têm de fazer um texto falando sobre uma opressão que elas não vivenciam e neste texto reduzir bissexuais a meros vetores de DSTs, desumanizando-as. Ou seja, hierarquicamente, a voz de monossexuais sobre as vivências bissexuais é mais valorizada. Aí vão me dizer: "Ah, mas foi uma pessoa bi quem escreveu o texto". E não existem mulheres escrevendo textos com conteúdos machistas, defendendo ideias machistas por aí? Pois pra mim é a mesma coisa: a voz monossexual se faz tão forte que domina o discurso até de algumas pessoas bissexuais. A própria transformação das pessoas bissexuais em "vetor de DSTs" é uma forma de hieraquização: lésbicas = "mulheres limpinhas", higiênicas, saudáveis > (maior que, ou "melhor que") mulheres bissexuais = "mulheres sujas", não-higiênicas, portadoras de doenças.

Bifobia é um sistema de exploração no qual pessoas monossexuais são beneficiadas pela violência que nos acometem. Para pessoas heterossexuais cis, somos apenas mais um grupo a se considerar como subalterno, o qual se pode condenar a ameaças como possibilidade de demissão de emprego e, devido ao medo de ficar sem nenhum emprego, obrigar a pessoa a receber salários menores (ver estudos feitos em 2001, 2004 e 2008 por Plug e Berkhout, nos quais se aponta que na Holanda, lésbicas tendem a ganhar 4% a mais que mulheres bissexuais - http://goo.gl/a0Xmkz ), além de possibilitar negligência da atenção governamental em políticas públicas que atendam as nossas especificidades. Para pessoas monossexuais que não são heterossexuais cis, somos um grupo dentro da comunidade LGBT (olha, tem um "b" ali! o que ele significa?) que serve apenas como "massa de manobra'. Engrossamos o coro que traz benefícios específicos para a população "L", "G" (principalmente) e "T", mas pra gente mesmo nada é feito. Pq "bissexuais não existem" mesmo, né? "É só uma fase"... E nem sofrem opressão de verdade!!! Opressão de verdade é só homofobia e machismo. Lesbofobia é estilhaço de machismo, seguindo a mesma lógica. Transfobia é estilhaço de homofobia e/ou machismo. Bifobia então... é uma coleção de estilhaço! Tudo é só estilhaço! Como se a solidão de pessoas bissexuais que existe por conta da famosa frase "namorar pessoa bissexual? Vai que essa pessoa me troca por alguém de outro gênero" não beneficiasse as sexualidades monossexuais. Olha aí as lésbicas se beneficiando por tirar as mulheres bissexuais da "concorrência"! Olha aí os gays se beneficiando por tirar os bissexuais da "concorrência"! Usam nossa identidade pra agregar em seu grupo mais poder político e depois se sentem no direito de dizer que não sofremos opressões e que somos pessoas menos dignas de confiança (Pq não somos capazes de manter um relacionamento monogâmicos e, na verdade, somos meros "vetores de DSTs")!!! Mas isso não é exploração... a gente só sofre coisinhas bestas e reclama por puro mimimi...

Bifobia é um sistema de segregação, no qual pessoas bissexuais são condenadas à invisibilidade e discriminadas dentro de espaços LGBTs e também fora dele! Não há espaço para bissexuais terem voz ativa, se não no gueto bissexual! Até o fato da sociedade não imaginar que um casal composto por um homem e uma mulher pode ser composto por uma ou duas pessoas bissexuais já é sintomático da invisibilidade que sofremos! Essa invisibilidade nos segrega, destrói nossa auto-estima e permite ao governo não pensar em políticas públicas para nós! Quando uma lésbica decide não se relacionar com uma mulher bissexual, ela não está nos segregando, mas apenas "tentando preservar sua integridade física e emocional"!!! Uma frase tão higienista usada como escudo para mascarar a bifobia gritante! Enquanto isso, pesquisas sugerem que a saúde psicológica de mulheres bissexuais é que deveria ser alvo de preocupações de quem pretende "preservar alguma integridade emocional" ( http://goo.gl/m0m8LY ).

Bifobia é um sistema de degradação e subjugo, claramente perceptível nos relatos acima. Nos degrada também ao nos colocar numa condição de ter a sexualidade sistematicamente questionada, deslegitimada (o que acontece até com a opressão que sofremos - "Bifobia não existe!"). Nos degrada na hipersexualização da pessoa bissexual. Nos degrada e nos subjuga quanto nosso Movimento e os conceitos que usamos para nossa luta política são deslegitimados (como se fosse tudo "mera invenção e devaneio"), afinal é retirada de nós até nossa autonomia de compreender as nossas próprias vivências! Somos menos capazes de fazer uma análise do que vivemos, é isso? Se não fosse um sistema de degradação e subjugo, como explicar o fenômeno revelado por um artigo em que, estatiticamente, fica evidente que mulheres bissexuais experienciam taxas mais elevadas de violência por parte dxs parceirxs e de violação em relação a mulheres lésbicas e hetero e que homens bisexuais tambem reportam mais violência sexual (http://goo.gl/9TNrwW)?

Assim como pessoas brancas tendem a dizer que racismo não existe, homens tendem a não enxergar o machismo, monossexuais tentam dizer que bifobia não existe e muitos bissexuais reproduzem essa ideia!

A quem interessa que se consolide a ideia de que bifobia não existe? Quem são as vozes que querem destruir esse conceito poderoso? Fica a sugestão de leitura: Bifobia: um conceito legítimo – e potente!

Poderia dizer muito mais, contudo teria que me delongar demais. Fiquemos por aqui!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Travestchy e orientação sexual não é bagunça!!

Já aviso de antemão: o texto é longo e polêmico. Vai ter gente me jurando de morte depois de ler isso, mas creio que vale a pena!

Através do site Superpride, fiquei sabendo da existência de "novas orientações sexuais", como os G0ys e os Highsexuais. Quando surgiu isso tudo aí, fiquei me questionando: ok que o que a pessoa sente é muito mais determinante do que a opinião externa para se definir a própria orientação sexual. Mas eu também questiono que, para efeitos práticos, vivemos numa sociedade que reprime orientações sexuais que não sejam a heterossexualidade.

Assim, como inferir se a orientação sexual declarada condiz com a realidade interna da pessoa ou se aquilo não é apenas manifestação de uma repressão que foi internalizada? Essa diferenciação pode ser extremamente importante, por exemplo, para que um psicólogo consiga ajudar um paciente a resolver conflitos que estejam ligados à orientação sexual da pessoa (i.e. autossabotagens cuja raiz são a homofobia internalizada). Logo, nem todo questionamento a respeito de uma sexualidade é deslegitimação/silenciamento (desde que, obviamente, o questionamento tenha o compromisso com o máximo de respeito possível). Entendo que os conceitos de orientação sexual são muito limitados, principalmente por serem associados, na maioria das vezes, a um sistema binário de gênero. Mas algumas orientações sexuais que surgem na mídia parecem tão vazias de coerência que me fazem questionar a existência real delas.

Isso me leva a raiz: como definimos uma orientação sexual? Por ser um comportamento humano, eu, como um biólogo, acredito que deve ser considerado três fatores, principalmente, quando se trata da expressão de uma orientação sexual: os biológicos, os culturais e os psicológicos. Já adianto que minha visão não é nem de longe determinista, mas próxima de um discurso biológico pós moderno que reconhece a interação de diversos fatores entre si.

Por fatores biológicos, quero dizer a existência (ou não) de uma necessidade fisiológica de satisfação sexual. Temos diversos tipos de necessidades fisiológicas como, por exemplo, de ingerir substâncias químicas das quais nosso corpo necessita (e, dependendo do alvo do desejo, damos nomes diferentes a estas necessidades - sede, para quando o corpo clama por água e fome para quando o corpo deseja outros tipos de nutrientes). É importante perceber que esses são nomes de referência para nossas necessidades fisiológicas, pois a fome pode se manifestar por uma vontade de comer alguns tipos específicos de comida ("não gostaria de fazer um lanche: estou com fome de comida de casa, tipo arroz com feijão e coisas semelhantes"...), de maneira que existem várias "fomes", várias "sedes", vários "sonos"... Se alguém tenta "enganar o próprio corpo" enchendo o estômago de outras substâncias químicas (tipo as pessoas que bebem água pra gerar a sensação de saciedade para a fome), ela não satisfaz a necessidade fisiológica que originou o desejo. Este, certamente, voltará com mais intensidade num futuro. Fisiologicamente, podemos dizer que a necessidade de satisfação do desejo sexual funciona de forma análoga ao que eu relatei acima a respeito das substâncias químicas de que necessitamos para nos manter vivos. Para não tornar isso aqui mais extenso, não vou entrar no mérito de que cada corpo tem uma fisiologia única (ou seja, funcionamos bioquimicamente diferentes uns dos outros, apesar de um padrão comum à nossa espécie - o que explica reações diferentes em cada indivíduo para um mesmo remédio, por exemplo), e de que pode haver uma influência genética (ou epigenética) na sexualidade humana, além de outros fatores biológicos que geram ainda hoje pesquisas sobre o tema. Apenas citarei isso e, num futuro, pode ser que eu resolva fazer um post pra destrinchar melhor o que eu penso sobre isso.

Contudo, existe os fatores culturais que modelam a forma como satisfazemos esse desejo (é importante lembrar que inclui-se na cultura a educação formal, a educação informal e a educação não-formal, dentre outros fatores). Um exemplo de como a cultura interfere nas maneiras que temos para satisfazer nossa necessidade fisiológica de nutrientes é que um tipo de alimento muito popular numa determinada cultura pode ser considerado repulsivo ou mesmo não ser percebido como alimento em outras culturas (no sudeste asiático, baratas, aranhas, escorpiões, grilos, formigas, bichos da seda e outros artrópodes são vendidos como comida em barracas de espetinhos, coisa inimaginável na cultura brasileira). Podemos usar esse exemplo para compreender metaforicamente, como a cultura tem influência sobre a orientação sexual. A cultura nos cria padrões do que é ou do que não é considerado atraente e isso delimita como podem ser expressas as sexualidades humanas.

Somado à cultura e aos fatores biológicos e culturais, existe também os fatores psicológicos envolvidos na formação da sexualidade humana. A trajetória pessoal de cada indivíduo que pode reforçar ou suprimir determinadas tendências comportamentais, na medida que cada experiência interage com as imagens mentais e com os modelos mentais do indivíduo. Quero deixar claro que, quando digo isso, não estou pensando num sentido estritamente ligado ao conceito do Behaviorismo, mas algo mais próximo da Psicologia Cognitiva. Considerando que imagens mentais e modelos mentais são formulados a partir da vivência dos indivíduos, a trajetória pessoal pode contribuir para moldar tendências comportamentais, incluindo aí a forma como o indivíduo lida com o próprio desejo sexual.

Antes que me acusem de abrir precedentes para métodos que pretendam interferir na sexualidade das pessoas, vale salientar que a construção da sexualidade é um processo que inclui muitas variáveis e que a maioria delas é muito difícil de controlar, de forma que podemos considerar impossível querer intervir no processo de formação da sexualidade humana e conseguir o êxito em conduzi-la a um caminho previamente desejado por quem pretende interferir, sem que se produzam "sequelas" ou "resultados não-funcionais". Aliás, pode-se também considerar que as interferências intencionais na sexualidade humana não são capazes de alterar o que seria seu "destino natural".

Dessa forma, existe a possibilidade de o indivíduo ter uma tendência biológica, psicológica e cultural que o deixaria susceptível a vivenciar determinada orientação sexual, mas por alguns fatores de sua trajetória pessoal de vida, ele escolhe não viver (ou seja, o que chamamos de alguém "enrustido"). Neste caso, teríamos uma "orientação sexual potencial" (que foi reprimida por um fator psicológico e/ou cultural) e uma "orientação sexual declarada" (que é aquela que o indivíduo diz sobre si), sendo que das duas emergem de um conflito psicológico no qual o indivíduo não consegue, em muitas das vezes, se enxergar em sua totalidade. Na minha modesta opinião, G0ys e os Highsexuais são exemplos deste último caso. Parece haver um "malabarismo de argumentação" para justificar um distanciamento de uma orientação homossexual ou bissexual, na medida em que se observa inconsistências argumentativas.

Creio que G0ys e os Highsexuais são exemplos de inconsistência na definição de o que é uma orientação sexual, pois, para início de conversa, só abarcam em suas definições um dos gêneros. Uma pessoa homossexual, heterossexual, bissexual, demissexual ou assexual pode pertencer a qualquer gênero. Mas só pode ser g0y, por exemplo, quem for "homem" com "jeito de homem", que não curta penetração anal e que não se identifique como gay, nem tenha nada que remeta ao feminino. Assim, o termo g0y seria mais uma demonstração de machismo e homofobia que propriamente uma orientação sexual. Importante lembrar também que a questão de não haver sexo com penetração anal não define uma orientação sexual, pois está mais ligada à preferência de determinadas práticas sexuais - e homossexuais, bissexuais, heterossexuais e demissexuais podem ou não gostar de determinadas práticas (por exemplo, alguns pessoas gostam de penetração, enquanto existe os que dispensam qualquer tipo de penetração - e isso vale para qualquer uma das orientações sexuais "clássicas"). Para os Highsexuais, além da crítica de que apenas homens se declaram "highsexuais", vale pensar se não é o caso no qual muita homofobia internalizada pode reprimir os desejos pessoais e que, com o uso da droga, a mente da pessoa consegue se livrar mais facilmente da autorrepressão, em semelhança do efeito já conhecido do álcool. Além disso, se dlecarar Highsexual expressa todo um apagamento da bissexualidade, como sintoma de uma bifobia internalizada (pois, em nossa sociedade monossexista, a maioria dos heteros condenaria os bissexuais por terem relações com pessoas do mesmo gênero e a maioria dos homossexuais condenaria os bissexuais por terem relações com pessoas de outro gênero ou por julgá-los como enrustidos, indecisos, etc.). Em todo o momento em que se fez piada sobre o termo "Highsexuais", ninguém cogitou a possibilidade da descoberta de uma possível bissexualidade, dada a influência de um pensamento monossexista de que não existem pessoas que possam se sentir atraídas por mais de um gênero.

Com esta postagem, assim como no texto em que faço uma revisão teórica das limitações das categorias que temos para as orientações sexuais humanas, não quero invalidar a experiência alheia ou mesmo dar a palavra final sobre um assunto tão polêmico. Gostaria apenas de sugerir que, como temos uma necessidade humana de criar nomes para compreender as coisas e que esses nomes são referências genéricas, que criemos todos os nomes necessários (os tais rótulos). Mas que mantenhamos a cautela para não criar tantos nomes que, ao invés de facilitar a nossa compreensão do mundo, torne a nossa comunicação extremamente confusa. E, para encontrar o equilíbrio necessário, sugiro o questionamento respeitoso e a abertura também respeitosa para receber as respostas à crítica feita.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Não é preconceito: é só meu gosto!

Tenho em meus círculos sociais um cara, que chamarei aqui de Narcisista Iludido, que reclama de estar solteiro e que as pessoas o procuram somente para sexo. Contudo ele é um cara daqueles que faz academia, utiliza anabolizantes e posta foto sem camisa no Instagram/Facebook com mensagens de reflexão na legenda da foto. Obviamente, o povo curte não a mensagem, mas a foto e o que ele consegue com essa postura é mais convites para sexo do que necessariamente alguém interessado em namorá-lo. Mas, para piorar, quando ele recebe uma interação que demonstre um interesse em um relacionamento mais duradouro, o Narcisista Iludido repete aquele discurso tão difundido de "não sou e não curto efeminados". Se alguém o acusa de preconceito, ele se defende dizendo que não sente tesão por pessoas efeminadas e que um relacionamento sem tesão não daria certo. E que, portanto, é uma questão só de gosto e não de preconceito!

E ele não está sozinho! "Não é preconceito: é só meu gosto!" é uma das frases mais usadas por quem diz que "não é nem curte efeminados", quando são confrontados por alguém que diz que seu gosto reflete um preconceito e uma discriminação.

O problema é que pessoas que dizem isso nunca questionaram a grande "coincidência" desse ser um tipo de gosto tão comum no universo gay em que vivemos. Tomo por base as ocasiões em que eu afirmo me sentir atraído fortemente por homens efeminados: em geral, a simples revelação do meu gosto pessoal choca o ouvinte que, geralmente, discorda de mim e acha "muito feio" ou "esquisito" essa galera efeminada linda do meu Brasil. Por que existe uma esmagadora maioria com gosto semelhante e apenas alguns "divergentes" da norma? Por que a fala de alguém que aprecia efeminados gera uma reação de choque na maioria dos ouvintes? Eu só consigo ver uma explicação: um preconceito chamado de homofobia!

Mais uma vez, eu gostaria de quebrar essa associação maluca que as pessoas têm de que uma pessoa homofóbica, racista ou que tenha qualquer outro tipo de preconceito discriminatório é uma pessoa má, que faz aquilo de forma consciente. Não! A vida prática é diferente das novelas e uma pessoa nunca é só boa ou só má. Nós somos mais complexos que isso! Na maioria dos casos, a pessoa está tão imersa na nossa cultura racista/machista/homofóbica/whatever que não consegue ver que ela reproduz um absurdo (tanto que aquilo lhe soa como algo "natural").

É preciso que a gente entenda: o tal do gosto é uma mistura da nossa individualidade, da nossa trajetória pessoal e de uma bagagem cultural que recebemos. E a cultura influencia MUITO em nossos gostos pessoais! Não acredita? Bem, talvez seja interessante pensar em como os padrões de beleza se alteraram ao longo da história acompanhando as mudanças culturais de cada época. Ou pensar nos padrões de beleza em culturas diferentes da nossa e perceber que os nossos modelos de beleza seriam considerados feios em tais culturas.

Outra coisa: por que a necessidade de se afirmar "não efeminado"? Qual a raiz disso? Homofobia internalizada, óbvio! O Narcisista Iludido é desses que fica preocupado se está "rebolando demais", se está "agindo de forma muito efeminada"... Uma neurose sem fim! Se afastar do modelo de feminino e se aproximar do modelo de masculino, na maioria das vezes, reflete a homofobia internalizada e nada mais que isso. É tão claro isso que não sei como deixar mais óbvio!

Porém, mesmo tendo uma ligeira noção de que padrões de beleza são moldados por ideologias sociais vigentes, ainda tem muita gente que continua a repetir a frase "não sou, nem curto efeminados" como um mantra a ser perpetuado, afinal é só gosto! Não, galera! Não é só gosto! Um gosto nunca é "só gosto". Se não fosse a nossa sociedade machista/racista/homofóbica ditando um padrão do que é ser um "homem" e o que é ser uma "mulher", talvez o nosso padrão de homem atraente (e até mesmo o de mulher atraente) fosse bem diferente do que é hoje...

Na prática, esse tipo de discriminação preconceituosa é ruim para ambos os lados. Os alvos da discriminação (efeminados) perdem com um diminuto número de pretendentes a ter qualquer tipo de relação amorosa/sexual. Mas também perde quem discrimina, pois o seu preconceito limita suas possibilidades de conhecer alguém interessante e que se tenha uma afinidade/compatibilidade para qualquer tipo de relação amorosa/sexual.

Mas, o que fazer se alguém percebe que o próprio preconceito o limita? Bom, assumir o próprio preconceito já é um importante passo. Reconhecendo a existência dele em si mesmo permite que a gente lide melhor com a situação, na medida em que gera a possibilidade de escolha entre combater o próprio preconceito internalizado ou aceitar as consequências de ter uma vida limitada pelo próprio preconceito.

Quem escolhe a primeira opção, além de ter a chance de fazer um grande bem para si, demonstra grande solidariedade ao combater um preconceito que é muito mais danoso ao outro que a si mesmo. Quem escolhe a segunda opção, além de amargar a perda de novas possibilidades, deve, no mínimo, se policiar para impedir a externalização daquele preconceito (o que geraria mais uma fonte de um modelo discriminatório/homofóbico que tanto mal faz aos outros - e a si mesmo também).

Combater a possibilidade única imposta pela sociedade é respeitar outras pessoas e expandir o nosso próprio universo.


Homem atraente (= tatuagem no rosto) na cultura da tribo dos maoris (Nova Zelândia - Oceania)
Mulher atraente (= pescoço longo) na cultura da tribo dos karenis (Mianmar - Ásia)




Homem atraente (= lábios alongados por um disco) na cultura da tribo dos botocudos (Brasil - América)


Mulher atraente (= ter cicatrizes) na cultura da tribo dos karo (Etiópia - África)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Acorda pra cuspir, Brasil!

Recebi um e-mail de uma lista de discussão da qual participo falando sobre o manifesto "O que tira nosso sono". Resumindo pra quem está com preguiça de entrar no link: numa conferência internacional sobre o enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS, o representante brasileiro disse que dorme tranquilo, ao ser questionado sobre o que lhe tirava o sono na situação brasileira em relação à epidemia. O protesto surgiu então para alertar que o Brasil parou no tempo e sua estratégia já não é mais exemplo mundial, nem apresenta a eficácia necessária para que representantes demonstrem tanta tranquilidade.

Coincidentemente (ou não), essa semana fui à unidade principal do Centro de Aconselhamento e Testagem (CTA) em Belo Horizonte para saber umas informações para minhas aulas (ser professor não é mole não...) e descobri uma coisa preocupante: segundo a enfermeira que me atendeu, o CTA só distribui preservativos para maiores de 18 anos ou para maiores de 16 acompanhado dos pais.

Fico me perguntando: o pessoal com menos de 16 anos daqui de BH não transa não? Quantos adolescentes (principalmente as moças) vão pegar preservativos acompanhados dos pais?

Espero que essa pessoa que me atendeu lá no CTA (e apenas ela) esteja mal informada das políticas públicas para a saúde dos adolescentes belohorizontinos. Porque se isso for realmente uma postura institucional (ao menos não era há alguns anos atrás), vou ter a certeza de que regredimos muito e que não é hora de dormir tranquilo: é hora de acordar pra realidade!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A Parada Gay de São Paulo encolheu??

É possível ver sendo noticiado em alguns portais de notícia como o Folha.com e o Estadão que a parada gay este ano teve um público muito menor que o de qualquer uma das edições anteriores. O suposto número de 270 mil pessoas representaria um retrocesso aproximado à quantidade de pessoas presentes no ano de 2001, ano em que a estimativa de público feita pela Polícia Militar (que é sempre muito menor que a estimativa da organização - como se pode conferir na wikipedia) registrava 200.000.

No ano de 2007, a Polícia Militar (que no ano anterior havia registrado um público de 2.500.000) deixou de fazer estimativas da quantidade de público e tal medida era realizada pela organização que, neste ano de 2012, resolveu não fazê-la (ou ao menos, resolveu não divulgá-la). A tarefa ficou a cargo do instituto Datafolha, que divulgou o número utilizando uma metodologia dita científica, diferente das que foram utilizadas nas edições anteriores.

Sinceramente? Eu gostaria de saber qual foi a tal "metodologia científica" utilizada. Porque uma queda de 4 milhões para 270 mil é algo realmente notável! E sabe quando a coisa tem cheiro de maracutaia? Porque a notícia vem sempre acompanhada de frases com um discurso que faz um julgamento moral embutido: "Mais comportada esse ano, parada gay atrai menos público" e frases afins.

Sabe o que eu penso disso?  Que temos que prestar atenção num contexto maior: por que razão por todos estes anos estes mesmo veículos noticiaram milhões de pessoas na Parada e justamente neste ano noticiam um contingente tão pequeno? Alguns podem dizer que meu raciocínio é muito próximo de uma teoria conspiratória, mas eu creio que há razões para suspeitar que existe uma articulação de setores conservadores na desqualificação de qualquer que seja a ação dos movimentos LGBTs. Faça o teste: procure parada+gay+2012+são+paulo+público no Google e olhe só o primeiro resultado que você encontra:

Suspeito, não?

Dê uma procurada rápida pelo Google e veja se você encontra alguma notícia que se refira a parada como uma "manifestação" e não como uma "festa"... Justamente num ano em que o tema da parada é bem mais político ("Homofobia tem cura: educação e criminalização"), parece haver uma ação para desviar o foco da cobrança por uma postura política.

O mais triste? Ver opiniões de LGBTs sendo usadas para corroborar estes discursos. Nos sites do Estadão, da Veja e do R7, a opinião da travesti Desire Viana, de 33 anos era de que a parada estava "muito mais pobre, com menos gente, menos carros, menos divulgação". Curioso notar que dois veículos de notícias distintos (e até certo ponto rivais) utilizem exatamente a mesma entrevistada para ilustrar o discurso que constroem em suas reportagens, não?

Será que a APOGLBT continuará acatando o número oficial disponibilizado pelo DataFolha, sem pedir ao menos uma auditoria nos números e na metodologia utilizada? Na minha opinião, é preciso sempre estar atento (e muito crítico) ao que se vê por aí. Os opositores estão à solta!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Castigat ridendo mores

A expressão latina do título desta postagem, que não sei a quem é atribuída a autoria, quer dizer: “é rindo que se castigam os costumes”. Eu acredito que é a expressão que mais desvela o poder crítico que uma piada aparentemente inocente contém. Existem três teorias muito tradicionais para explicar o motivo do riso e eu particularmente acredito que o riso pode surgir de qualquer uma das três propostas (ou seja, acredito que o riso seria "multifatorial"). Evidentemente, a teoria que mais se encaixa com a frase do título é a teoria da superioridade. E esse é meu ponto de partida.

Se em algumas situações rimos porque nos sentimos superiores (nos sentimos capazes de rir de situações consideradas erradas, estúpidas ou, até mesmo, a partir do azar de outra pessoa - beijos Lobo!), estamos num limite muito tênue entre a agressão (o desrespeito) e a brincadeira. Afinal, rir do outro pode ser engraçado para quem está de fora, mas não para o outro que está recebendo a "crítica". E creio que todo já sentiu a força devastadora de uma crítica negativa num momento de fragilidade. É o que  chamamos de violência psicológica/simbólica (não sei qual das duas exatamente porque sou leigo, beijos!).

E essa coisa do respeito é algo tão difícil! Porque nunca vivemos numa sociedade que tentou viver verdadeiramente o respeito. Sempre estivemos em contexto que a repressão era tanta que não havia como o indivíduo desrespeitar um superior e os indivíduos oprimidos nem mesmo tinham completa noção do desrespeito a que estavam submetidos (ou não tinham voz para exigir mais respeito). Hoje em dia, ensaiamos para viver num contexto em que a liberdade é maior que a repressão e daí muita gente confunde "liberdade" com "fazer tudo o que eu quero".

Isso é especialmente sintomático nessa geração atual que foi criada por pessoas que querem viver a liberdade, mas que não sabem ao certo o que significa fazer isso. Daí esta geração escolhe como ícones da mídia (colocando-os indiretamente como exemplos a serem seguidos) pessoas que tem o seu "humor" baseado em opiniões/situações que são na verdade agressões (tudo em nome de uma liberdade de expressão deturpada). Hoje em dia, é muito claro que chamar um negro de "king kong" não é algo nada engraçado, mas sim racista. Contudo, outras discriminações como a que acontece contra orientações sexuais não hegemônicas (homossexuais e bissexuais) e aquelas que ofendem a liberdade de crença (voltada para religiões em específico) ficam nebulosas e menos frequentemente percebidas.

Nesse contexto surge a ideia de politicamente correto como norteador da convivência em sociedade. Muitos criticam o politicamente correto atribuindo-lhe a característica de censura. Como o Foxx bem disse nesse post em sua coluna no Mundo Bafão, a liberdade tem limites e o limite em si é algo bom. E, como o Gato Van de Kamp bem exemplificou com esse post, é possível fazer humor, ser crítico e não ser ofensivo.

Não acredito também que é preciso tornar o mundo um lugar onde todos sejam amigos, se deem as mãos e só se diga coisas belas e que todo mundo aplauda. Acredito que existe um meio termo entre o sem sal e enfadonho humor que "as vítimas do patrulhamento do politicamente correto" dizem que os outros querem implantar e "o humor ácido e politicamente incorreto, doa a quem doer". Mas isso exige competência e reconhecimento dos erros quando for o caso.

Quem está na pele (o alvo da piada) percebe com mais clareza se é agressão ou não mas, às vezes, tem dificuldades de fazer o mesmo quando a piada é outra (é preciso se colocar no lugar do outro). Por isso, não vou ficar teorizando se o vídeo do concurso de "G-zuis gostosão" daquele post foi ofensivo ou não. Se é bobagem ou não a crença de que a sexualização de uma imagem sagrada não é algo que pretendo descobrir, porque essa resposta é pessoal demais. Prefiro reconhecer a minha incapacidade pra me colocar no lugar de quem uma crença diferente da minha (e tem valores e visões de mundo diferentes da minha), dizer que não houve a intenção de agredir e pedir desculpas sim. Não me sinto menor em fazer isso. Muito pelo contrário. Me sinto em harmonia com o que penso e prezo porque, do contrário, me sentiria tão incoerente como aquelas pessoas daquele outro post do "rabo do macaco" se eu cismasse de exigir respeito de religiosos que fizessem um vídeo com, como disse o Cesinha, "cores pesadas" sobre os homossexuais.

Dentre amigos, talvez eu me arriscaria a fazer uma piada mais ousada ou um comentário mais ácido porque os amigos me conhecem e têm a capacidade de perceber que minha atenção não foi ser agressivo. Mas num ambiente público, como um blog na internet, a história diferente. Existe o risco de minhas palavras atingirem pessoas desconhecidas. E eu sou do partido de que, na dúvida, não faça! Ou, ao menos, reconheça que você não pensou com o carinho devido que a questão demandava...


P.S.: Fica um vídeo que mostra que é possível fazer humor com temas "delicados" sem ser ofensivo:


P.S. 2: Se você não entendeu nada, veja esse post e esse outro.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Foi mal!!!

Justiça seja feita: vivo dizendo que não sou bonzinho. E no post passado, divulguei um vídeo de um concurso polêmico que mistura cristianismo e sensualidade. Já viu o tamanho do problema, né??

Queria dizer, antes de mais nada, que mesmo quando eu era uma pessoa, digamos, mais religiosa que sou hoje, sempre imaginei que deus (e G-zuis) tinham senso de humor o suficiente para compreender nós humanos por vezes tão levianos e imaturos. Por isso, não vi muita maldade no tal vídeo do post. Acontece que minha opinião não é das mais comuns e provavelmente corro o risco de ter ofendido a crença de alguém ou mesmo ter desrespeitado o que é de mais sagrado para algumas pessoas. Mas não foi por maldade ou provocação (pelo menos, não conscientemente).

Desta forma, peço desculpas pra quem não gostou da minha atitude de divulgar tal "brincadeira". Como o Cesinha e o Gato Van de Kamp bem exemplificaram nos comentários, se colocar no lugar do outro é a base do respeito. E como isso é uma das coisas que mais prezo, venho pedir desculpas pelo desrespeito às crenças alheias. Porque faço todo o esforço que posso para respeitar, inclusive quem não me respeita. Porque respeito nunca foi moeda de troca. Respeito apenas se oferece e se exige. Afinal, eis a chave de um mundo bacana pra todo mundo.

EDIT: E o assunto rendeu, minha gente! Minha resposta sobre o que eu penso disso tudo segue nesta postagem aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Rapidinhas para o feriado

Pra você que está com preguiça de ler posts "filosóficos" neste feriado, resolvi fazer um bem mais leve, dividido em duas partes. Aproveite!



Tá se preparando pra quando G-zuis ressuscitar? Pois domingo dia 08 vai rolar até concurso usando o seu santo nome. Trata-se do "Hunky Jesus Contest", um concurso que elege o "cover" de G-zuis mais "bonitão" e/ou com mais "atitude". O evento acontece em São Francisco (EUA) e é promovido há 33 anos (que número mais propício, não?) por um grupo gay radical chamado The Sisters of Perpetual Indulgence (As Irmãs Perpétuas da Indulgência). O grupo, que tem adeptos em várias partes do mundo, é composto por homens maquiados e vestidos de freiras.

Polêmico, o concurso desperta a ira de muitos religiosos e até de alguns ativistas LGBTs. Porém, o grupo afirma que tudo não passa de uma brincadeira.

Na minha singela opinião, alguns dos participantes são tão carismáticos (ou só gostosos mesmos) que arrisco a dizer que Pedro não os negaria uma quarta vez! rs. Meu preferido da edição do ano passado (2011) é o que aparece aos 4:48 do vídeo abaixo:


Pena que estou amarrado, mas não é em nome de G-zuis...



Estava dando uma olhada no site da Campanha pelo Casamento Civil Igualitário e, na seção intitulada "opinião" na qual há várias citações de pessoas importantes que apoiam o casamento de pessoas do mesmo sexo, li a seguinte fala do jornalista e escritor argentino Osvaldo Bazán:

"A criança judia sofre a estupidez do mundo, volta para casa e lá seus pais judeus lhe dizem: ‘estúpido é o mundo, não você’. E lhe dizem por que essa noite não é como todas as noites, e contam para ele a história daquela vez em que tiveram que sair correndo e o pão não levou. Dão-lhe uma lista de valores e falam: ‘Você está parado aqui’. E saberá a criança judia que não está sozinha. A criança negra sofre a estupidez do mundo, volta para casa e lá seus pais negros lhe dizem: ‘estúpido é o mundo, não você’. E lhe falam do berço da humanidade, de um barco, de uma guerra. Dão-lhe uma lista de valores e falam: ‘Você está parado aqui’. E saberá a criança negra que não está sozinha. A criança homossexual sofre a estupidez do mundo e nem pensa em falar com os pais, porque supõe que eles vão ficar chateados. Não sabe por quê, mas eles vão se chatear. E para seus pais, o pior é crer que seu filho não é como eles (…). A criança homossexual, só por ter nascido homossexual, só por ter sido parida em território inimigo, está em guerra com a religião, com a ciência e com o Estado. Como poderá uma criança enfrentar uma luta tão desigual?"

Sabe quando você não tem o que completar? Acho que foi a vez em que vi a melhor descrição sobre a crueldade e o abandono a que a criança gay está submetida no seio de uma família (e sociedade) homofóbica.

Mas, se você é uma criança gay e está lendo isso aqui, digo pra você não desanimar com a crueldade: eu nunca senti com tanta clareza que estamos tão próximos de sermos uma sociedade menos injusta. Estamos juntos no mesmo barco e eu acredito que a tempestade vai passar!

EDIT: Confira o post seguinte, que tem um pedido de desculpas a esse post.


EDIT 2: Antes de sair esbravejando por aí e para entender melhor minha opinião, veja o terceiro post dessa sequência aqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A briga em torno do "ismo"

Li um artigo num blog que se diz "Um blog eclético. Teológico, filosófico, teísta, deísta e por vezes ateísta. Poético, crítico, e atual. Um blog feito por pensadores, para pensadores." Mas acho que tem mais definição que atitude. O tal artigo me chamou atenção porque entra naquela discussão em torno do uso do termo homossexualismo no lugar de homossexualidade. Senti a necessidade de escrever a seguinte resposta:

Quando se considera a língua como um objeto passível de se caber num dicionário, sua hipóteses levantadas em seus escritos tão floreados de palavras belas (que me pareceram querer enfeitar um raciocínio vazio em si) poderiam ser verdade!

Mas é preciso lembrar que a língua é viva e que o sentido das palavras ultrapassa os registros vernaculares oficiais. As palavras são marcadas pelo seu uso histórico e elas podem dizer exatamente o oposto do que significam, quando se usa outra entonação...

Vale lembrar que o termo homossexualISMO foi cunhado dentro de um contexto médico (e não existia anteriormente) sendo, portanto, associado à ideia de doença sim.

Assim, homossexualISMO já carrega uma marca histórica pesada demais e seu texto com belas palavras não vai conseguir derrogar tal mácula. Além disso, se você analisar bem algumas passagens, percebe-se que faltou um pouco de sensibilidade para "criar" a palavra de acordo com o que se observa (e seu texto faz o raciocínio de forjar a observação de acordo com a palavra já existente).

Como definir a qualidade de quem é homossexual? Façamos um exercício de analogia. A qualidade (boa ou ruim) de quem é feliz é a felicIDADE. De quem é mediocre é a mediocrIDADE. Então, de quem é homossexual é a homossexualIDADE. Para essa palavra, não se aplica o caso de nenhuma convicção ideológica ou um sistema (comunismo, cristianismo, deísmo, nazismo, dentre outros), nem de uma doença (como o botulismo, ergotismo, estrabismo, e outros). Além disso esse sufixo "ismo" está ligado a um sistema, tendência, atitude ou corrente, mas em geral com um sentido pejorativo (enciclopedismo, maneirismo, didatismo, etc).

Portanto, porque preferir utilizar um termo historicamente carregado de uma carga pejorativa grande se há um correspondente muito menos ofensivo e até mais apropriado? É como dizer que "crioulo" pode ser usado para se referir aos negros simplesmente porque no dicionário ele é listado como sinônimo para a referência racial dos afrodescendentes.

Essas "regras" do politicamente correto valem para evitar desentendimento entre pessoas que não se conhecem ou não tem intimidade suficiente para perceber que uma palavra não foi usada de forma ofensiva (ou seja, vale para comunicadores, principalmente, quando estes falam a um público diverso). Mais importante que utilizar um termo politicamente correto, contudo, é combater o preconceito que temos em nós e que se expressa nas mais diversas formas (através da linguagem verbal e não verbal, através das atitudes, etc). E isso, todavia, não invalida a boa iniciativa de se escolher com cuidado e respeito uma palavra que provavelmente causará menos controvérsias e ofensas gratuitas.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O que é ser gay?

O texto abaixo é uma resposta a um artigo escrito pelo Foxx em sua coluna do blog "Mundo Bafão". Pra ver o texto original na íntegra, clique aqui.

Segue a minha resposta ao texto do Sr. Raposa:

Discordo completamente de vc, Foxx!!! Eu acredito que sua abordagem é que é simplista demais.

Ser gay não é meramente uma identidade que o indivíduo assume para si e pronto! Pensando assim, seria possível imaginar que heterossexuais poderiam ser gays se eles assim o desejassem, assim como um francês pode querer se naturalizar brasileiro. Além do contrário também: um gay poderia deixar de sê-lo assim como um brasileiro pode naturalizar-se canadense.

Seguindo seu raciocínio, um negro poderia considerar-se branco porque não se identifica com a cultura negra. E eu pergunto: ele deixaria de ser negro por isso? Sua cor de pele mudaria? Sua ascendência seria alterada? A cultura e o contexto social a que ele foi submetido desapareceriam? Ele deixaria de ser vítima de preconceito racial voltado contra os negros?

Se a questão é definir o rótulo do que é ser gay, digo que com certeza é mais que uma questão meramente de identidade. Ela passa também por um componente biológico, por um psicológico, por uma dimensão histórica, por uma influência social e talvez por outros componentes que nós não temos percepção de que estejam envolvidos nesta questão. Não vou me delongar nisso porque seria preciso um espaço bem maior, mas ignorar todos os outros componentes e eleger a identidade como o único ou como o principal e determinante é de uma análise rasa sem igual. Aliás, tentar fixar as pessoas nesses rótulos já é querer simplificar demais a complexidade humana.

Mas vamos pensar agora no que você diz: "Se o ato sexual define que alguém é gay estas pessoas [falando dos HSH e MSM] estão simplesmente mentindo, se enganando, no armário? Os gays são tão poderosos assim que decidem que ou alguém é hétero, e nunca tem contato com o mesmo sexo; ou é gay, e nunca terá contato com o sexo oposto?"

Quando a gente fala em aceitação ou não da própria sexualidade, fica mais que claro que podem existir sim gays que não se enxergam como tal, da mesma forma que o francês naturalizado brasileiro não deixou de ter nascido na França. Ou o negro do exemplo acima que não deixou de ser negro para o mundo. Não são os gays que tem o poder de decidir quem é hetero, quem é homo, quem é bi (não se esqueça que não existem apenas as manifestações extremistas da sexualidade!) e quem é assexuado. E nem a própria pessoa tem esse poder também. A definição desse rótulo é um processo dialético em que ambas as partes têm influência.

Pensar que é tudo uma mera questão de adotar uma identidade significa dizer que os gays só o são porque querem ser assim e escolheram essa identidade pra si. E eu sei, por ouvir relatos e por ter vivido uma experiência do tipo, que tem gente que luta ferozmente contra os próprios impulsos tentando não ser gay e que, quando decidem se aceitar-se como são, se sentem mais leves de não ter que negar para si mesmos a realidade.

Realmente a pessoa não é somente o que ela faz, mas a definição de si mesmo passa sim pelo que a pessoa manifesta. Um troglodita que agride as pessoas e usa da barbaridade como norma condutora de sua vida pode até não se considerar como tal e pensar ser carinhoso. Mas as ações dele não podem ser ignoradas na composição da própria autodefinição.

Também não quero dizer com isso que é apenas o ato sexual que define tudo. Nem somente a manifestação emocional. Nem nenhum dos aspectos de forma isolada. Se apenas a relação sexual definisse o que o cara é ou deixa de ser entraríamos num impasse. Se o cara teve uma experiência homossexual e o restante delas foi de caráter heterossexual, o cara tem o rótulo de bissexual? Eu acredito, assim como Kinsey argumenta, que a sexualidade é um espectro bem mais complexo que essas definições simplistas (homo, hetero, bi e assexuado) e que não é constante ao longo do tempo. É claro que esse tipo de classificação também gera um problema: quantas exeperiências sexuais são necessárias para mudar a classificação entre as categorias "eventualmente" para "frequentemente"? Quando essa ideia é transposta num contexto da grade de orientação sexual de Klein, eu acredito que se consegue dar uma dimensão mais precisa da sexualidade do que as simplificações grosseiras comumente usadas, apesar de também refletir a limitação de tentar enquadrar algo que é tão diversos em rótulos estanques.

Para não tornar o assunto tão complexo e resumir a discussão, digo que concordo com Caio F. Abreu quando ele diz que "Existe sexualidade – voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe". E completo: tentar classificar o que a rigor não cabe dentro de etiquetas tão engessadas é que dá tanta dor de cabeça para as pessoas e, no fim, não leva a nada.

PS: já postei esse vídeo no fim de outro post, mas ele vem a calhar aqui também, afinal falamos de diversidade:

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vale a pena ver até o final...

Tenha estômago forte e veja o vídeo até o final... Vc vai acabar concordando com a argumentação do idealizador do vídeo...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Exagero da comunidade LGBT? Jô Soares x Maria Berenice Dias x Jean Wyllys

Vi a notícia do site "A Capa" falando que rolou uma certa polêmica sobre o posicionamento de Jô Soares na entrevista com Maria Berenice Dias no dia 13/06/2011.

Fui ver a tal entrevista no Youtube para tirar as minhas próprias conclusões e não vi a tal parte polêmica que falaram. Houve edição no vídeo que está disponível na internet? Ou eu perdi algo muito importante (se não for muito incômodo, peço aos atentos de plantão pra deixar o tempo do vídeo em que isso acontece)?

O caso é que eu não vi nada demais. Jô começou querendo polemizar, querendo usar argumentos que poderiam refutar a razão de ser do PLC 122/2006. Mas, por várias vezes, percebi que ele entendeu e concordou com a argumentação lúcida e clara da entrevistada.

Veja a entrevista para conferir:

domingo, 1 de maio de 2011

Documentário: Bíblia e Homossexualidade

Estava vendo uns vídeos no Youtube e gostei desses aqui em baixo. São retirados do documentário "For the bible tells me so" (Como Diz a Bíblia).

Vale a pena investir um tempo pra ver esse assunto polêmico.

Parte 1:



Parte 2:



Parte 3:

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Viram essa notícia? Banheiro gay em escola de samba no Rio


Estou eu feliz, contente e inocente da vida quando abro o meu e-mail e me aparece uma recomendação de uma notícia sobre a polêmica causada pela inalguração de um banheiro gay na quadra da Unidos da Tijuca.

Li e quase ri. Sério. Com tantas prioridades a serem pautas pra se fazer em favor da comunidade LGBT, tinha que inventar o que há de mais inconveniente e polêmico???

Enquanto isso, a gente vai virando piada...
Related Posts with Thumbnails