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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Sou bi ou pan?

Me considero uma pessoa bi-pan.

Sou pan porque me sinto atraído por pessoas, independentemente do gênero delas. Contudo, raramente me sinto atraído de forma isonômica por todos os gêneros. Na maioria do tempo, me sinto atraído em maior intensidade por determinados gêneros e isso vai variando em determinadas épocas da minha vida. Porém, da mesma forma que pessoas bissexuais podem se atrair com intensidade diferente, o fato de eu me atrair por determinado gênero com menor frequência/intensidade não apaga a possibilidade de atração. Não acredito que haja um critério que selecione pessoas legitimamente Pansexuais de pessoas que "não são dignas" de assim se identificar. É o termo que uso menos para me identificar, dependendo da necessidade de força política do momento, conforme explico a seguir.

Sou bissexual porque é uma identidade que também me contempla na medida em que entendo bissexuais como pessoas que se atraem por mais de um gênero (o que se costuma a considerar como o guarda-chuva bissexual = pessoas não-monossexuais). Considero uma identidade que, politicamente, tem um poder maior de diálogo com a população "leiga" (heterossexuais cis que desconhecem tantas nuances das sexualidades e identidades de gênero, na medida em que "nunca precisaram" conhecer sobre para se emancipar). Utilizo também porque o "B" está na sigla LGBT, mas sofre apagamento sistemático, mesmo no movimento LGBT. Sou uma pessoa bissexual não binária de gênero fluido e pan-romântica e gosto de usar bissexual pra reforçar a ideia que defendo de que não é a identidade da pessoa que a torna "imune" de transfobia e, assim como existem bissexuais transfóbicos com pessoas não-binárias, existem pansexuais, polissexuais, omnissexuais, multissexuais (...) assim; Além disso, visibiliza o fato de que há muitas pessoas bissexuais que não são transfóbicas com pessoas não-binárias. Atribuo tal transfobia ao fato da pessoa ser binária (cis ou trans) já que tive o desprazer de ver tanto pessoas cis como trans deslegitimando e invisibilizando identidades não-binárias. Me afirmo bissexual no meio não-monossexual porque percebo uma espécie de rejeição à identidade bissexual por parte de algumas pessoas não-monossexuais e não-bissexuais.

Para mim, no meio não monossexual, na maior parte do tempo me sinto confortável com ambas identidades (bi-pan) e até com outras (omnissexual, gender-blind, etc.) e as uso de forma indistinta. Mas na maioria do tempo, dou prioridade para a nomenclatura bissexual por questões políticas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Eu e meu gênero fluido

Desde pequeno, eu nunca me senti 100% do gênero masculino, nem 100% do gênero feminino. Eu era uma pessoa e só. Isso de menino ou menina, homem ou mulher não fazia importância, nem diferença, pra mim. Sabia que a sociedade me chamava de menino, mas isso era uma coisa que eles diziam a respeito de mim e não algo que eu declarava ser meu. Era como se me chamassem de humano, ou terráqueo: eram palavras que, no dia a dia, não fazia diferença prática na minha vida para me diferenciar das demais pessoas...

Quando eu tinha uns dois anos, eu abria o guarda-roupa da minha vó que guardava as roupas recém lavadas, mas ainda não passadas, e ficava brincando de me vestir com as roupas dos meus pais. Num dia, ela me viu vestindo uma calcinha da minha mãe, que eu achava linda. Era uma calcinha que tinha como estampa uma história em quadrinhos! E, pra mim, aquela peça de roupa era tão bonita e colorida quanto as minhas cuecas com estampas de desenho animado. Não entendi porque minha vó ficou tão brava comigo e disse que eu não podia me vestir com as roupas que não eram minhas. A partir deste dia, eu entrava escondido nesta parte do guarda-roupa e ficava lá trancado, me vestindo com as "roupas proibidas", aproveitando algum momento em que minha vó estivesse muito ocupada para que ela não me descobrisse.

Quando eu tinha 3 anos, meus pais me pegaram tirando a roupa e mostrando meu corpo pra um coleguinha (que tinha pedido pra me ver pelado). Não entendia muito bem como a vida funcionava e não via nada de errado nisso. Mas meus pais falaram pra mim que aquilo era errado e que eu não devia fazer, para não ser motivo de piadas pelas outras pessoas. Minha mãe dizia:
-"Eles vão te chamar de "mulherzinha"! Você vai gostar disso?"
E eu não respondia nada, pois não conseguia entender porque aquilo era algo ruim. Aliás, também não entendia o porquê de minha mãe, que era mulher, dizer que era ruim ser chamado de "mulherzinha"... Nada daquilo fazia sentido!

"Menino" e "menina" só passaram a fazer sentido pra mim depois que comecei a frequentar a escola. "Fila de meninos" x "Fila de meninas", "banheiro de meninos" x "banheiro de meninas", "cores de meninos" x "cores de meninas", "brincadeiras de meninos" x "brincadeiras de meninas" e tantas coisas do tipo me ensinaram que eu tinha que ficar do lado dos meninos e era completamente errado agir de forma diferente.

Aceitei essa imposição e agi no automático durante muito tempo, mesmo que, de vez em quando, alguém me acusasse de "ter jeito de menininha" ou ser "mulherzinha". A essa altura da vida, isso me incomodava porque me fazia sentir que eu não me encaixava no grupo que era "o certo pra mim" e nem pertencia ao "outro grupo" (e lá, eu também não encontraria abrigo). Eu, na verdade, estava isolado, fora dos grupos, sozinho, "diferente de todo mundo", sem alguém que compreendesse o que eu era ou sentia. Então, o que me restava era me esforçar ao máximo para aprender a ser menino, rapaz, homem. Porque aquilo era o certo a fazer.

Na adolescência, eu comecei a questionar a minha sexualidade, mas não meu gênero. Só no início da juventude (com meus 23, 25 anos), é que eu comecei a lançar olhos para esta minha questão. Eu perguntava a amigos mais próximos se eles sentiam, assim como eu, que o próprio gênero não era uma coisa estática, mas que ia variando ao longo do tempo. Eu explicava a eles que eu poderia me sentir um "homem pleno", em alguns dias, poderia me sentir com "gêneros intermediários entre homem e mulher" noutros, que eu, às vezes, me sentia pertencendo a "gêneros com características diferentes de homem, mulher ou algum intermediário disso"... Mais uma vez, meus amigos discordavam de mim, e diziam que isso não ocorria com eles. Mais uma vez, eu não me encaixava num grupo que era "o certo pra mim" e nem pertencia ao "outro grupo" (e lá, eu também não encontraria abrigo). Continuava isolado, fora dos grupos, sozinho, "diferente de todo mundo", sem alguém que compreendesse o que eu era ou sentia.

Somente, há um ano e meio, quando me aprofundei mais no conhecimento sobre orientação sexual e identidade de gênero é que li uma descrição sobre "gênero fluido", que é uma identidade de gênero trans não binária, e me identifiquei totalmente. Senti-me compreendido por alguém (a galera dos movimentos que discutem gênero me entendiam!), eu agora me encaixava num grupo, não estava mais sozinho!

Então, comecei a me permitir vivenciar essa fluidez, experimentar um pouco, "brincar" com minha expressão de gênero... Faz seis meses, comprei um vestido, uma blusa feminina, brincos, batons, esmaltes... As vezes uso tais vestimentas, mas sempre mesclando o quanto de masculino e feminino eu desejo expressar naquele momento (refletindo o meu estado interior). Daí, tem combinação de barba, batom e brinco; corpo tipicamente masculino de vestido; blusa feminina, esmalte, brincos, barba e coturno...

Não estou fazendo tais experimentações o tempo todo. Primeiro porque, às vezes, não me sinto num gênero que me faça ter vontade de usar algo diferente do meu vestuário habitual. O gênero fluido tem dessas complicações de não ser constante, né? Então, pra ser coerente com o que sinto, não posso fazer uma experimentação ostensiva, "full time". Tenho que respeitar o tempo do meu sentir, a fluidez do meu gênero. Outra razão é que decidi não vivenciar um processo completo de uma vez, porque não dá pra chegar no meu serviço (trabalho numa escola), pros meus familiares e outros setores da minha vida que teriam grande resistência a uma "mudança" sem que eu esteja em segurança do que eu quero e já pronto pra me defender dos ataques que, com certeza, virão. Eu, como toda pessoa, preciso de um tempo pra ir vivenciando meu desejo e fazer autodescobertas. E o que eu posso dizer é que esta fase está sendo muito divertida e feliz.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Almoço de aniversário

Nesse processo de reconstrução das minhas relações familiares, tenho visitado com mais frequência a casa dos meus pais. Tenho buscado construir no presente bons momentos, boas memórias para um futuro, tudo com a intenção que isso se torne um bom remédio contra as mágoas que carrego.

Numa dessas visitas, eu estava na casa dos meus pais a uma semana do meu aniversário. Como eu não sou uma pessoa muito ligada à comemoração desta data, nem me lembrava de sua proximidade e, por isso, não entendi porque minha mãe havia acabado de me perguntar o que eu faria no final de semana seguinte. Ela me propôs fazer um almoço especial, em família. Aceitei a ideia.

Contudo, durante a semana, me empolguei com a ideia e resolvi comemorar meu aniversário contando com a presença de alguns amigos mais próximos, além da minha família. Fiz isso com uma intenção em mente: reaproximar a minha família do meu mundo.

Foi bacana ver minha família recebendo alguns dos meus amigos heteros e gays. Foi bom pra meu pai e minha mãe conhecerem "o povo que eu convivo". Foi ótimo pra mim ter um espaço e um momento pra reencontrar o prazer de estar entre pessoas que eu gosto...

O saldo de um evento em família foi positivo, afinal!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Minha cidade se enche de luz ao recebê-lo!!!

No fim do ano passado, ele veio. Trouxe alegria e muita luz! Fiquei na expectativa, pilhadão antes do encontro. Quando rolou foi tudo lindo. Tudo tão lindo que deu vontade de mais. Aí fui atrás dele de novo... Não falei antes porque dei a liberdade pra que ele mesmo contasse primeiro. Mas como ele anda escrevendo pouco ultimamente e já se passou bastante tempo, resolvi publicar isso aqui agora!

Foi assim que aconteceu: mais ou menos no início de dezembro, recebo uma mensagem do Gato Van de Kamp: "Cara Comum, eu vou pra BH! Chego sexta. Prepare-se, por que vou lhe usar... rsrsrsrs". Fiquei radiante! Era minha oportunidade de retribuir aquele momento mágico que ele me proporcionou (que vc pode ler aqui e aqui). Contudo, eu sou péssimo anfitrião: nunca sei o que fazer para receber uma visita vinda de terras "estrangeiras". A sorte é que o Calopsita já tinha feito um roteiro prévio e me restou apenas me encaixar na programação.

Fomos o Gato, Calopsita, Maridão e eu à Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte, onde passamos uma manhã muito agradável. Almoçamos juntos e daí nos separamos pois a maratona o roteiro de Calopsita era extenso e o tempo de permanência deles era curto...

Dois dias depois, o Gato e o Calopsita já estavam indo embora de minha cidade e eu decidi aproveitar mais uns minutinhos da presença deles em terras belo-horizontinas: chamei Maridão e fomos até o terminal rodoviário para encontrar com nossos ilustres visitantes e nos despedirmos. Tivemos mais uma meia hora de muita falação, pessoas ao redor olhando pra nós 4 como se fossemos E.T.s e uma troca de energia fantástica.

Depois que eles embarcaram no ônibus que os tiraria de Minas Gerais, eu e Maridão voltamos pra casa e tivemos o seguinte diálogo:

Maridão: É muito legal ver você e o Gato Van de Kamp juntos. Vocês tem uma química legal que não fica só no virtual. Dá pra perceber o quanto essa amizade te faz bem. Ele bem que poderia morar aqui em BH, né?

Cara Comum: Não dá: essa cidade não aguentaria nós dois aqui! Ia faltar espaço e palco e a gente iria transformar esse lugar num quartel gay, no estilo daquele episódio do "Vai que cola?"... rsrsrs

Belo Horizonte, pra mim, é uma cidade chata, sem sal, provinciana e com problemas de cidades grandes (principalmente relacionados ao trânsito). Mas com o Gato Van de Kamp aqui, minha cidade se encheu de luz, de gosto e de cor. Só me resta agradecer a esse caro amigo
por esses breves mas intensos momentos!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ainda na resistência

Esses dias não foram fáceis pra mim. Eu já falei isso aqui no blog (em mais de uma ocasião, mas não vou linkar todas... :P ), mas luto contra uma depressão que insiste em me acompanhar faz algum tempo. E, às vezes, tenho uns episódios em que ela vem com mais força ou que a medicação não aguenta o tranco...

Nas semanas retrasada/passada, eu fiquei treze dias afastado do trabalho por conta de um desses episódios. Ele me fez reavaliar um monte de coisas. A primeira delas foi: preciso cuidar mais de mim! Essa descoberta não é propriamente uma novidade, mas me fez repensar o quanto de força eu tenho e o quanto eu acho que eu tenho pra encarar meus problemas de frente. De vez em quando, o melhor mesmo é não querer resolver a situação, mas apenas lidar com ela... Acho que esta é a grande lição!

Por conta do desgaste mental, da minha necessidade de repouso e também pela baixa reação por parte dos leitores desse blog, decidi não concluir a minha série de postagens sobre as eleições de 2014. Acredito que o que já foi dito já serviu a mim (como uma forma de compartilhar o que penso) e a quem poderia se interessar pelo tema. O restante seria também muito importante, mas não posso me comprometer a fazer algo que não conseguirei fazer em tempo hábil e que não trará um ganho que faça valer a pena o esforço de tentar.

Mudo também alguns hábitos alimentares (em parte, inspirado pelo Homem, Homossexual e Pai - rumo ao veganismo) e a rotina diária. Larguei o segundo emprego e que se fodam as dívidas já feitas: já sobrevivi a complicações financeiras maiores do que essa antes e não vai ser dessa vez que morro por falta de grana...

O gatilho para a ocorrência desse meu período de "baixa", talvez, tenha sido o cansaço. Ou os ajustes na dosagem da medicação. Ou as pequenas frustrações que carrego comigo (todas muito pequenas, mas que, somadas, fazem um barulho grande, como uma nuvem de insetos quaisquer). Pouco importa o motivo. O que importa é que eu estou seguindo em frente com um aprendizado depois dessa queda.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Bissexualidade é só uma fase (que dura a vida inteira)!

Eu sou muito BI. Sou muito BIcha, muito BIssexual, muito BIpolar e muito BIscate. E não me envergonho de nada disso! Sou o que sou, se você não gosta disso, se afaste e dê espaço pra quem quer chegar perto.

Mas não vim mandar recado direto pra ninguém. Escrevo hoje porque esta data é um dia especial para mim e para os meus iguais: Hoje é o Dia da Visibilidade Bissexual! É um dia que existe para a gente dar um recado muito simples: nós existimos e não somos nada parecido com o que a maioria das pessoas pensa que nós somos! Nós não somos o seu preconceito!

Não somos pervertidos, nem estamos vivendo uma fase que vai passar. A gente só acha que o gênero de uma pessoa não é um critério restritivo que nos impede de amá-la. Se você não entende isso, nós não temos que entender o seu preconceito! Ah, e, definitivamente, nós não somos pessoas sem coragem de nos assumir. É preciso ainda mais coragem para enfrentar preconceito vindo de heterossexuais, de homossexuais e de qualquer outra pessoa que nos discrimine por não conseguir imaginar que existam pessoas diferentes do que a sua própria forma de viver.

Nós somos bissexuais, mas antes disso, somos pessoas, cada uma com seus sentimentos, crenças, vícios e virtudes. E, como pessoas, nós queremos e exigimos respeito! Não nos reduza ao seu preconceito. Não nos julgue pela sua medida. Não nos transforme em algo invisível, dizendo que só se pode ser isto ou aquilo. Não se esqueça de nós quando estivermos lado a lado lutando pela mesma causa: o fim da discriminação contra as minorias sexuais. Não recuse o nosso amor por conta da sua insegurança, colocando a culpa nas "nossas probabilidades de encontrar outro alguém". Não venha até nós, a cada novo namoro ou término de relacionamento (ou mesmo em nossa "solteirice"), tentar verificar "se ainda continuamos bissexuais": quem sabe o que nós sentimos e o que nós somos é cada um de nós.

A todas as pessoas bissexuais do mundo, seguem os meus parabéns, meu carinho e minha admiração! Eu sou um de vocês e "tamo junto"! Pra outras pessoas eu mando beijos: um beijo pra você preconceituoso! E dois pra você que já se libertou dessa bobagem!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Quase alforria

Esses dias, eu tenho trabalhado bastante e chegado em casa muito cansado. Contudo, isto é a consequência de uma decisão que eu tomei.

Nos meses anteriores, Maridão fez uma cirurgia e o meu dinheiro, que sempre dá certinho pra pagar as despesas (sou desses que comemora quando sobra na minha conta no banco qualquer centavo no fim do mês...), tava fazendo um milagre atrás do outro pra dar conta do recado. Eis que eu me vi na seguinte encruzilhada: ou eu pensava na minha saúde e recusava a nova proposta de emprego em troca de mais tempo livre para mim,  ou eu arrumava outro emprego e ficava cansadão. Se fosse só isso, tava fácil escolher o tempo livre (porque valorizo demais qualidade de vida e não tô afim de ficar doente de tanto trabalhar). Mas tem um porém: preocupado com a grana do jeito que eu estou e com minha saúde mental já toda meia boca (por conta desse pequeno bicho que às vezes se faz presente em minha vida chamado depressão), insônia vira mato e acaba que o tempo livre não é tempo de qualidade, mas tempo em que eu fico me angustiando pelo problema financeiro não resolvido.

Obviamente, é muito mais jogo eu ficar cansadão, mas dormindo direito, que eu ficar cansadão de insônia e no vermelho.

Além disso, a proposta era pra um emprego temporário e, logo em breve acabariam os problemas financeiros e a oferta pra trabalhar mais. Aceitei. Parecia o plano perfeito até que, semana passada, Maridão vem conversar comigo:

Maridão: Cara Comum, a cirurgia não resolveu o meu problema. Pra ver o que posso fazer, vou ter que me consultar com mais dois médicos: um fisiatra e um outro urologista. Tudo bem?
Mente do Cara Comum: Fud#@*& foi tudo! O contrato no outro emprego está chegando ao fim, tô morto de cansaço e não faço ideia de como arrumar mais dinheiro sem me matar de trabalhar. Maldito plano de saúde co-participativo!
Cara Comum: *num misto entre sorriso e poker face* Claro, meu amor! Saúde em primeiro lugar!  Tem que cuidar mesmo...

No outro dia, pela manhã:

Cara Comum: Alô?
Mulher do outro lado da ligação: Bom dia. Eu gostaria de falar com o Cara Comum.
Cara Comum: Sou eu mesmo.
Mulher do outro lado da ligação: Meu nome é Fulana e falo do RH da Prefeitura. Eu gostaria de lhe comunicar que houve um pequeno erro no valor do reajuste do seu plano de saúde por conta do seu dependente Maridão. Nós havíamos, desde o início do ano, cobrado um valor abaixo do que era pra ser, pelo fato dele ter mudado de faixa etária...
Mente do Cara Comum: Eita, que fud#@*& foi tudo mais ainda! A pessoa faz um aniversário e o plano de saúde parece que já está lidando com alguém a beira da morte...
Mulher do outro lado da ligação: A diferença acumulada ficou em R$XXX,xx que nós vamos descontar na sua folha de pagamento dividido em 5 vezes. Tudo bem?
Cara Comum: Uai, moça, se está certo e eu tenho que pagar, fazer o que, né?

No mesmo dia, no final da tarde:

Mente do Cara Comum
: Taqueopariu! Dia cansativo dos infernos! Ainda bem que está acabando esse meu contrato pq esse emprego é muito mais desgastante que o outro. Não vejo a hora de parar com tudo isso e descansar um pouco mais nessa vida louca...
Chefa do Emprego 2: Cara Comum, a funcionária que você está substituindo vai ficar de licença por mais tempo do que o inicialmente previsto. Podemos renovar seu contrato por mais o dobro do tempo original?
Mente do Cara Comum: E agora? Eu precisando do dinheiro... Ah! Quer saber? Vou aceitar isso não! Eu me mato de trabalhar aqui, vou minando a minha saúde, morrendo de estresse... Se eu aceitar isso, vou ficar muito mais tempo aqui que eu pretendia ficar, ficar doido de cansaço...
Chefa do Emprego 2: E então, Cara Comum? Você vai continuar com a gente?
Cara Comum: Claro! Pode renovar esse contato!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Meu nome é Isaura

E aí que eu resolvi trabalhar em mais um emprego! E trabalhar em dois lugares diferentes não foi uma escolha tranquila, porque ter tempo pra mim e qualidade de vida é algo que desejo, mas a necessidade de ter mais dinheiro está falando mais alto nesses tempos. Até porque, que qualidade de vida eu pretendo ter num mundo em que o dinheiro é quem determina que tipo de vida você pode escolher ter?

E no novo local de trabalho eu tenho um ambiente relativamente bacana, mas nem de perto o ideal. Galera lá tá em outra vibe e a gente não se sente pertencente ao grupo que faz parte, mas nada que o faça considerar um ambiente hostil. Fora as piadinhas homofóbicas que eu tive que escutar no primeiro dia (piadas as quais não foram direcionadas a mim, mas que me irritaram mesmo assim...) e o horário que me faz ter dificuldade para organizar o restante do meu tempo livre, não tenho muitos motivos pra ficar descontente com o andamento da minha adaptação ao novo emprego. O acúmulo de estresse, que eu pensei que seria bem maior, tá sendo tranquilo de lidar.

Apesar disso, estou bastante cansado. Isso com o frio que me deixa naturalmente mais deprimido e introspectivo são os grandes desafios que eu tenho que vencer no presente.

É, ermãos, bicha pobre sofre!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Maromba

Faz um tempo que eu comecei a fazer musculação. Eu preciso, por recomendação médica de fazer exercícios, eu preciso de endorfina o máximo que eu puder, eu gostaria de ter mais massa muscular não só para ter um corpo mais bonito, mas pra me ajudar a me defender, caso preciso (sim, eu vivo numa cidade violenta e homofóbica).

E foi no ambiente peculiar da academia que eu descobri que gosto deste tipo de exercício. O momento de ir à academia para mim é um momento de prazer, longe de ser o sacrifício que é para alguns. Além disso, parece que dei sorte de encontrar um lugar bacana pra fazer esta minha atividade física. Não foi de primeira que eu acertei, mas estou satisfeito.

O primeiro lugar que tentei malhar foi numa academia aqui perto do bairro. A academia tinha uma estrutura muito boa e tinha um clima mais, digamos, familiar. Tanto os instrutores quanto os colegas foram extremamente receptivos e atenciosos. Um personagem aqui merece destaque: o Instrutor Fisiculturista.

Ele é o estereótipo do hetero que valoriza massa muscular em detrimento de massa cerebral. A meta dele é ter cada vez mais músculos e poder participar de um concurso de fisiculturismo. Ama mais seus alteres que sua namorada e tem como livro de cabeceira a "Enciclopédia de Fisiculturismo e Musculação" escrita pelo Arnold Schwarzenegger. Me lembro de vê-lo uma vez, treinando no aparelho "leg press" e, no fim de uma das séries, simplesmente virar e cuspir no chão, sem pudores ou vaidades. Esse cara chama todo mundo de "bichão" (e eu quase retruquei que era pra eu ser chamado de "bichona", mas achei desnecessário no momento...) e tem um bom coração, tentando ser legal com todo mundo, à maneira dele. Apesar da formação, não saca muito dos conceitos básicos da biologia envolvida no processo de ganho muscular e é do tipo que leva a sério o que qualquer um escreve no "Yahoo! Respostas" em retorno aos seus questionamentos. Enfim, uma figura memorável!

Fiquei nessa academia apenas um mês e tive que mudar por problemas de horário. Atualmente, em minha segunda tentativa, estou numa academia no centro da cidade que tem uma dinâmica completamente diferente.

Lá eu sou praticamente invisível. Uma coisa tremendamente deliciosa pra quem trabalha lidando com pessoas o dia inteiro. Fico de boa, escutando minhas músicas, às vezes navegando na internet pelo celular entre uma série de exercícios e outra. Tenho uma bela paisagem a se observar (tanto pelos belos homens, quanto pelas belas mulheres) e tempo para esvaziar a mente.

Três personagens merecem destaque aqui: um é o Instrutor Delícia, o outro é o Instrutor Camarada e o último é o Recepcionista Atencioso.

Instrutor Delícia dispensa maiores descrições: pele morena, lindo de morrer, tatuagens evidentes (e eu sonhando se há ou não outras que sejam não evidentes...) e é isso. Pra aumentar a tentação, descreve o modo correto de fazer os exercícios sempre com uma analogia sexual (mas não parece ser uma forma de cantar o público): "Nesse aqui, vc puxa o ferro como se estivesse metendo"... Não precisa descrever mais.

Instrutor Camarada é daqueles que faz questão de ser gentil e engraçado com todo mundo, apesar de ser um pouco tímido. Deixa a gente sempre à vontade e, quando chega à academia, faz questão de ir cumprimentar todo mundo. É por causa dele que, às vezes, eu tenho diálogos na academia durante os meus treinos. Se não fosse por ele, entraria mudo e sairia calado, conversando apenas na portaria com o Recepcionista Atencioso.

Recepcionista Atencioso é outro que faz questão de ser gentil e deixar todo mundo à vontade. Mas é bem mais falante que o Instrutor Camarada. Sempre prestativo, como um bom recepcionista, faz a gente querer continuar sendo cliente da academia. Merece destaque por dois motivos: quando me adicionou no Facebook, pude perceber que ele tem 15 amigos em comum comigo (todos gays); além disso, pude perceber também que meu gaydar continua não funcionando, como sempre foi...

No mais, minha meta é manter a frequência dos treinos pra me proporcionar esta experiência prazerosa que tem sido a musculação. Criar hábitos saudáveis e que me façam bem psicologicamente é o alvo que eu tô perseguindo há tempos e que me sinto aproximar a passos lentos, mas firmes.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Eu voltei!

Eis que estou de volta a esse blog! Solta aquela música!



O motivo do sumiço foi simplesmente falta de escrever por aqui. Não vinha nada à minha cabeça digno de se postar neste blog. Tava travado e não consegui me conectar ao "espírito blogsvillano"...

Mas agora eu retorno agora com poucas novidades em minha vida, quase nenhuma digna de publicação.

Continuo casado. O Maridão continua o mesmo, mas fez recentemente uma cirurgia por conta de uma hérnia inguinal e eu virei marido, enfermeira e mãe. Ele tá mais manhoso do que nunca! Pra vcs terem ideia do que eu tô falando, um dia eu estava no andar de cima de nossa humilde casa geminada quando ele, lá de baixo, me grita:

Maridão: Cara Comum!
Cara Comum: que foi, amor? Tá precisando de alguma coisa?
Maridão: Não! só queria saber onde você estava e ouvir sua voz...

Outra coisa: não sei se já contei isso por aqui, mas sou aquele tipo de pessoa que se envolve em UM MILHÃO coisas ao mesmo tempo e não consegue ficar parado. Daí que estou com uma pá de projetos em andamento (projetos do trabalho, para minha vida pessoal, pra fazer melhorias aqui em casa, projetos sociais, projetos pra melhorar minha vida financeira, projetos de estudo...) e que não estão andando pra frente... isso é meio frustante, né? Mas vamos com paciência que a coisa uma hora vai...

Continuo no processo de perdão à minha família. Com exceção do meu irmão escroto pq não dá pra carregar mais do que a gente pode e o peso do processo com o meu pai e o da minha mãe já são grandes... Mas vamos caminhando, sem pressa, fazendo o que dá pra fazer...

Bem, acho que é isso!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Um perfil para mim

Já falei sobre meu amplo gosto relacionado a mulheres e homens, mas foquei no aspecto físico. Hoje, arrisco-me a falar sobre um perfil psicológico que me atrai. Sim, isso mesmo: eu disse um perfil. Somente um. O único que tem uma força de conquista mais avassaladora sobre mim. Perto dele, os outros perfis que me atraem são meros coadjuvantes...

Concluí que, inconscientemente, gosto do estilo "pessoa brilhante, mas com um probleminha"... (Meu masoquismo mandou beijos agora!)

Falo de gente que parece forte e bem resolvida, aquelas pessoas que se destacam, mas quando se conhece com mais atenção, são complicadas e problemáticas. Cheguei a essa conclusão analisando as semelhanças entre meus ex-namorados e minhas ex-namoradas.

Todos eles eram líderes natos, carismáticos, marcantes, muito falantes, inteligentes e articulados. Mas, percebendo-os num exame mais cuidadoso, são pessoas com inúmeras questões mal resolvidas, frágeis emocionalmente, porém com um ego prestes a explodir.

Essa é uma imagem que descreve meus (e minhas) "ex's", grande parte dos meus amigos, meus pais e praticamente todas as pessoas a quem eu tive ou tenho algum apreço. Em última análise, essa é uma imagem que me descreve também.

Ou seja, inconscientemente, eu procuro para conviver gente extremamente complicada como eu! Pra que simplificar a vida, não é? Dá pra entender, Brasil?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Resumo da Ópera

Estive pensando que seria importante contar o que mudou durante a minha ausência por aqui. Ainda não sei como fazê-lo e depois de muito pensar sem chegar a uma decisão, resolvi apenas escrever, sem compromisso de nada. Vou me deixar guiar até o final deste texto e ver o que sai. Muita coisa realmente se modificou em mim e na minha vida, enquanto outras apenas confirmaram que o melhor é ser como são.

Continuo casado com o Maridão, e nisso não sinto que há nada a se modificar. Continuo a descobrir que o amor é construído no dia-a-dia e em cada ação (ou omissão). Maridão não é perfeito, obviamente, nem eu o sou. E não tenho com ele uma pretensão de viver um amor eterno, que isso não existe. Eu apenas concordo com Lô Borges quando diz que "eu só preciso ter você por mais um dia". Acho que é por isso que todo dia eu digo a ele que quero continuar esse casamento. Desta maneira, nada a se alterar nesse aspecto.

Com relação a minha família, talvez aqui eu tenha feito a maior mudança. Eu guardei um rancor e uma mágoa muito grande de cada um deles e, não nego, foi algo muito importante. Sem a força desse ódio, eu nunca sairia do lugar, da minha depressão. Mas não tenho mais a necessidade de cultivar isso em mim. Esses são, agora, sentimentos que só me fazem mal, porque me prendem a uma dor e não me acrescentam nada de positivo. Agora eu consigo ver que, apesar de todo mal que meus pais e meu irmão me fizeram, eu os amo. E o amor deles é algo caro para mim, mesmo que de uma forma torta e equivocada. Não estou dizendo que eles podem voltar a fazer o mal que me faziam ou que eu vou simplesmente esquecer o que eles me fizeram. Estou num processo de perdão, onde quero esquecer a dor que me corrói ainda. Creio que quem mais precisa de perdão nessa história não é ninguém da minha família: sou eu. Eu nunca me perdoei por deixar minha família me machucar. Hoje quero aprender a ter deles o afeto que eu preciso, sem deixar que eles me machuquem. Estou tentando descobrir como fazer isso.

No trabalho mudaram algumas coisas. Continuo trabalhando com Educação, mas muito em breve estarei atuando também na área da Saúde. Decidi que quero mesmo muito ter filhos e que, se for preciso me matar de trabalhar para isso, que assim seja. tudo tem seu preço e sempre preferi pagar caro por algo que quero muito que ser infeliz com uma pechincha.

Durante esse tempo em que estive ausente, me envolvi em atividades de militância numa ONG de defesa dos direitos LGBTs. Foi uma experiência muito bacana. Conheci muita gente e entendi melhor o cenário político/social brasileiro. E uma coisa triste foi ver que pouca gente se dispõe a se envolver. Saí da ONG porque não dava pra conciliar meus planos de vida imediatos com o trabalho voluntário. Além disso, confesso que me senti enormemente angustiado de ver tanta coisa a ser feita e tão poucas pessoas dispostas a ajudar. Infelizmente eu não consigo conviver com essa angústia de forma saudável.

Bom, acho que é isso! É tão difícil fazer uma síntese dos últimos meses, mas creio que consegui. Ainda estou meio "enferrujado" para a escrita, mas daqui a pouco eu retomo jeito. Assim espero!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Somos todos vítimas



Assista o vídeo acima. Ele traz uma fábula que conta uma história que nos ajuda a entender como surgem os paradigmas. E a vida está cheia deles.

Mas por que estou falando disso? No meu post em que eu apresentava meu pai para Blogsville, um comentário do Gato Van de Kamp me fez dar uma resposta curtinha que para o momento servia. A frase foi: "A história da minha família é um amontoado de vítimas".

A questão é que eu não duvido de que, na minha família, sejamos todos vítimas de um contexto. Acontece que algumas vítimas escolheram para si o sofrimento e outras foram, por várias vezes, forçadas pelo bando a nele permanecer como os macacos do experimento.

E é por isso que eu tenho orgulho do meu rancor. Ele é um mal necessário para que eu quebre o círculo vicioso que ainda existe na minha mente de permanecer sob uma ordem doente e sem nenhuma razão lógica de existir. Ele é minha chave para sair dessa gaiola.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - III



Para ler os post anteriores dessa trilogia, clique aqui e aqui.

Tudo que é sólido desmancha no ar


O tempo havia passado e muita coisa havia mudado. A família que eu descrevi naquele primeiro relato tornou-se irreconhecível. Meus pais estavam cada vez mais envolvidos com o trabalho dentro da igreja católica, trabalhavam em casa e a situação financeira da família havia piorado muito. Apesar disso, a prioridade era a imagem de uma família perfeita e feliz. E, para manter essa imagem, minha família mantinha vários fatos em segredo. Tanto que grande parte das coisas que foram relatadas na primeira parte desta trilogia de posts eu só descobri depois de adulto porque uma tia me contou.

Eu era um jovem de 24 anos que havia assumido a sua sexualidade para os pais de uma forma tragicômica (pretendo escrever sobre isso depois). Minha avó havia falecido e muito de mim havia falecido também à mesma época. Eu fui demitido de um emprego em que eu estava há 6 anos, havia rompido um namoro de uma forma extremamente traumática e desagradável... Havia todo um conjunto de situações desfavoráveis que me levaram a uma depressão fortíssima.

Assim, eu voltei a viver na dependência financeira dos meus pais. Mas, para aquela família, que antes parecia tão "maluca" e hoje ostentava uma pose "tradicional" hipócrita (querendo aparentar ser uma família de comercial de margarina), eu era algo que deveria ser jogado sob o tapete para não manchar a honra da família. Meu  único irmão, aquele que não tem limites nem em sua agressividade, virou o queridinho da família, porque ele participava (e ainda participa) do jogo de aparências da minha família.

Pra mim, sobrou um tratamento de segunda classe, o desprezo, a sensação de ser a causa da vergonha alheia e um sentimento muito ruim. Não entendam que aqui há um mero ciúmes do meu irmão ter ocupado um lugar que já foi o meu. Isso, na verdade, me traz alívio, na medida em que eu abomino esse lugar em que eu me deixei ficar. A grande questão é como é lastimável ver as pessoas dizendo com todas as letras que eu, por ser quem sou, tenho menos valor que uma pessoa que encarna o papel de uma violência mascarada, mas que colabora com o jogo de aparências.

Foi por causa do preconceito que eu ouvi minha família dizer que tinha vergonha de mim, chegando ao ponto de meus pais afirmarem para mim que era melhor eu não ter nascido, exatamente como o meu pequeno amigo ouviu. Chegando ao ponto de eu ser expulso de casa (coisa que minha família faz questão de ocultar até hoje).

Este é o começo de uma história triste, que tem partes mais dolorosas, mas que eu ainda não consigo contar por aqui. Peço desculpas, à vocês e a mim, por terminar essa trilogia dessa maneira rasa, contudo não queria simplesmente abandonar o tema sem amarrar as pontas que deixei nas postagens anteriores. Quem sabe um dia eu estarei pronto para falar mais sobre isso, de uma forma mais serena...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - II





Para ler o post anterior, clique aqui.

O filho do desejo


Eu nasci em 1983, três anos depois do casamento dos meus pais. E nem foi porque meus pais queriam curtir o casamento: minha mãe tem uma deformação no útero que a faz ter dificuldades para engravidar. Eu fui fruto de muita persistência e desejo. Meu irmão estava "programado" para nascer uns dois anos depois de mim, mas a dificuldade da minha mãe para engravidar fez com que ele nascesse 7 anos depois.

Quando eu tinha 5 anos, meus pais estavam quase desistindo de ter mais um filho, mas eu queria muito ter um irmão. E, por causa dos meus insistentes pedidos, eles decidiram continuar tentando, até que meu irmão foi concebido.

Eu, nitidamente, era o filho que recebeu mais atenção e investimento dos meus pais. Eu era "o" filho deles, fruto do desejo deles. Meu irmão era apenas o meu irmão, fruto do meu desejo e necessidade de ter um irmão.

Fui uma criança mimada, mas sem luxos. Meus pais nunca foram ricos e moravamos a dois quarteirões de uma das maiores favelas da cidade. A molecada da região teve uma certa resistência comigo num primeiro momento porque eu era mais branco que eles, mais rico que eles (porque, na percepção deles, eu almoçava todos os dias...), tinha pai e mãe morando comigo e não tinha que dividir meu quarto com mais dois ou três irmãos (afinal, naquela época, eu era filho único). Aos olhos deles, eu era um playboyzinho. O primeiro precoceito que sofri foi racial/social, mas eu não entendia o que estava acontecendo. Pra mim, eles sempre foram iguais a mim. Não entendia porque eu nem sempre era bem-vindo.

Bem perto do meu bairro, havia fazendas nas quais a meninada brincava e um campo de futebol de terra, locais em que brincar era garantia de voltar pra casa imundo. Quando começaram as obras para canalização do esgoto do bairro, os buracos das obras e as manilhas se tornaram outro reduto que era a alegria da criançada (que se divertia) e o terror das mães (que lavavam a roupa). Ao me verem entrando nas mesmas brincadeiras que eles e não me importando de me sujar na lama, na terra, de me molhar na chuva ou torrar no sol, meus pequenos vizinhos começaram a me ver como igual, e foram se tornando meus camaradas.

Nessa época, eu devia ter uns 9 anos. Quase todos os colegas de então morreram anos mais tarde, vítimas da violência da disputa pelo controle tráfico de drogas na região. Alguns que ainda estão vivos são ladrões conhecidos na região, mas que me tratam com um respeito enorme. Uns poucos viraram homens trabalhadores ou se mudaram de lá, de forma que eu não sei o que lhes aconteceu.

Um desses que se mudou enquanto nós ainda éramos crianças me falou uma frase que me marcou à época, mas que hoje me dói muito: "Achei estranho o dia em que ouvi sua mãe, Cara Comum, dizer que, antes de você nascer, ela queria muito ter um filho. Minha mãe, toda vez que está brava comigo, diz que não queria que eu tivesse nascido...".

Acho que foi a primeira vez que me senti intensamente diferente de alguém. Eu era o fruto do desejo, com todas as vantagens e desvantagens disso. O meu amigo não. Até hoje não sei explicar o que eu senti naquele momento. Só sei que não foi bom...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - I

Prólogo: Resolvi contar minha história aqui no blog, com os fatos mais marcantes que minha memória retém. Mais que falar da minha família ou fazer uma biografia, sinto que preciso dizer mais sobre as coisas que vivi, para desfazer uns nós. Serão relatos de um passado que talvez para vocês não faça muito sentido, mas escrevo por mim, por esse desejo que grita querendo sair. Obviamente, não falarei somente de mim e teremos diversos novos personagens, não só da minha família, mas muitos outros que não apareceram aqui no blog. Para aqueles que decidirem se aventurar comigo, eis uma ótima oportunidade de saber mais sobre o Cara Comum que vos escreve. Este primeiro post é um grande adendo das histórias que virão a seguir.



A história antes da história

Essa história que eu quero contar começa antes de eu nascer. Se, por um lado, posso dizer que não participei dela, não posso afirmar, contudo, que ela não me atinge.

Meu pai é o filho caçula de uma família de 6 irmãos que morava numa cidade do interior de Minas Gerais, ao norte de Belo Horizonte. Um dos irmãos dele morreu quando ele era criança de colo. Outra irmã dele teve paralisia infantil e se foi quando ele tinha 4 anos. Minha avó paterna era negra, Testemunha de Jeová e mãe solteira. O meu avô paterno nunca assumiu o seu relacionamento com minha avó. Eram dele o filho mais velho (meu tio) e o mais novo (meu pai). Meus outros tios são meio-irmãos do meu pai. Eu nunca conheci essa minha avó nem esse meu avô. Quando minha avó paterna faleceu, meu pai tinha 6 anos. Ele e seus irmãos se mudaram para BH para serem criados por uma tia deles. Quando garoto, morando em BH, meu pai fez um grande amigo: o Padrinho Pombo.

Minha avó materna, que chamarei de Vovó Ternura, era filha de um italiano que veio viver no Brasil, numa cidade do leste de Minas Gerais. Aos 25, ela e a família se mudaram para Belo Horizonte. Aos 36 se tornou mãe solteira e criou sua única filha com o dinheiro que ganhava costurando. Meu avô materno só procurou saber da minha mãe quando ela fez 16 anos. Até hoje minha mãe nunca perdoou meu avô pela sua ausência. Eu só o vi umas 3 ou 4 vezes na vida. Minha mãe foi criada com medo de tudo: ela e minha vó tinham medo de não ter o que comer no mês seguinte, de não conseguir pagar o aluguel, da casa desmoronar durante uma chuva, medo de assaltos, medo de tomar leite depois de chupar manga, medo de doenças, medo de assombração, medo de rato... Talvez por isso minha mãe se tornou uma moça muito tímida e tão religiosa (católica) quanto minha avó.

Na adolescência, minha mãe já trabalhava para ajudar no sustento da casa e, aos finais de semana, saia para dançar com uma amiga, que chamarei de Madrinha Espuleta. Meu pai também começou a trabalhar cedo para se sustentar. Virou metaleiro (e, obviamente, só ouvia Heavy Metal) e ateu. Na adolescência, teve uma filha que ele nunca assumiu e, apesar de não gostar de dançar, foi a uma festa numa clube de dança em BH, por insistência do Padrinho Pombo. Era o ano de 1970 e, nesta festa, o Padrinho Pombo apresentou minha mãe (que era vizinha dele) ao meu pai.

Meu pai namorou minha mãe durante 10 anos, e nesse período, os dois compraram um lote numa cidade vizinha de BH, onde construíram a casa onde morei boa parte da minha vida. Hoje eu sei que a escolha por um lote bem afastado de onde mora o restante da família do meu pai e da minha mãe foi uma tentativa deles de se afastar dos "parentes da onça", como meu pai costuma dizer. Em 1980 meu pai e minha mãe se casaram e foram morar na tal casa, levando Vovó Ternura pra morar junto com os dois. Foi neste contexto que, alguns anos depois, eu nasci. Mas isso é uma história que fica para a próxima...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Procurados, não localizados e ignorados



Alguns problemas a gente tenta encontrar a causa e não consegue encontrar, de nenhuma maneira... O que fazer neste caso?

Minha terapeuta me deu uma missão pra essa semana: descobrir porque eu tanto me saboto. Fiquei pensando e pensando e pensando e... até agora não sai muito do lugar! Se alguém tiver uma ideia do que se trata, ajuda eu?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Que bruxaria é essa?

Comecei a trabalhar numa cidade próxima (por conta daquele concurso que me chamou) e durante o almoço eu resolvi explorar as redondezas do meu local de trabalho (porque nunca se sabe quando se vai precisar de uma farmácia, por exemplo).

Eis que, um pouco distante (já falei que adoro andar?) eu encontrei uma praça muito linda, bem arborizada e com bancos bem convidativo numa sombra. Sentei-me num dos bancos ao lado de um velhinho e deixei-me apenas contemplar o movimento tranqüilo das ruas, as pessoas, a maneira como o vento carregava as folhas caídas das árvores que me abrigavam do sol. Pensava em como eu estava satisfeito com o clima do meu local de trabalho, com a atenção que meus colegas me dispensavam para que eu me sentisse acolhido, o quanto havia me agradado o "jeitão" daquele bairro (que me fazia lembrar como era o bairro em que fui criado há mais de 20 anos atrás).

Foi quando se aproximou um homem numa cadeira de rodas. Ele tinha perdido todos os fios de cabelo da cabeça, estava pálido e com olheiras, exibia uma bolsa de colostomia pendurada num dos braços da cadeira de rodas, tinha uma das pernas com feridas visíveis, a outra perna havia sido amputada. Ele parou bem na minha frente e começou a me encarar com olhos firmes. Por um momento eu o encarei de volta, numa tentativa de não me mostrar intimidado perante aquela "ameaça". Então ele me disse:

Homem na cadeira de rodas: Uma coisa é saber. A outra é viver...
Cara Comum*concorda com o homem, mas continua mais envolvido nos próprios pensamentos*: Isso é verdade!
Homem na cadeira de rodas: Você acha que eu estou mal, não é?
Cara Comum: Eu não, cara...
Homem na cadeira de rodas: Você acha que eu estou mal sim. Mas eu estou bem. Quem está mal é você... Mal do coração, dos sentimentos...
Cara Comum *pensando que é melhor não contrariar um louco*: Mas é normal. Hoje em dia todo mundo não está bem do coração...
Homem na cadeira de rodas: Você não está em paz. Você não consegue ficar em paz. Tem muito sofrimento nesse seu coração. Você não me falou, mas eu sei.
Mente do Cara Comum: Esse daí deve se achar um anjo de Dewlss, como aquele outro cara...
Homem na cadeira de rodas: Mas tenta ficar calmo! O seu maior problema não é a falta de dinheiro não. Isso já vai ser resolvido. O seu problema é com sua mãe. Ela te machucou, mas você não pode ficar assim...
Cara Comum *assustado com o que o cara falava*: É mesmo?
Homem na cadeira de rodas: Sim. Você não pode se perder por coisas tão pequenas. Você já venceu o pior. O importante é o espírito. E isso você já sabe. Está faltando viver...
Cara Comum *segurando o choro*: Está certo...
Homem na cadeira de rodas*vai se afastando, empurrando sua cadeira de rodas*: O importante é o espírito...
Velhinho sentado ao lado: Esse homem parecia que estava falando japonês. Falava tudo embolado! Eu não entendi nada...
Cara Comum *sem saber o que dizer, balança a cabeça em afirmativo*: ...

Não sei classificar o que eu vivi nesse momento! Ainda estou pensando se é possível tanta coincidência sobre minha vida na fala de um estranho...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Do lado de lá

Imagine só a situação: você tem um amigo que não mora próximo de você. Para ser mais exato, ele está a 2361 km de distância. Mas o cara te percebe melhor que você mesmo. E dispara: "você faz coisa demais!" Argumentos contra? Nenhum.

De duas, uma: ou se tem uma dificuldade na aceitação ao se descobrir-se um workaholic, mas se pode contar com um amigo que tem sensibilidade suficiente pra te alertar; ou o caso está tão crítico que está dando pra perceber de longe e só eu mesmo não enxergo... rs

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