Desde pequeno, eu nunca me senti 100% do gênero masculino, nem 100% do gênero feminino. Eu era uma pessoa e só. Isso de menino ou menina, homem ou mulher não fazia importância, nem diferença, pra mim. Sabia que a sociedade me chamava de menino, mas isso era uma coisa que eles diziam a respeito de mim e não algo que eu declarava ser meu. Era como se me chamassem de humano, ou terráqueo: eram palavras que, no dia a dia, não fazia diferença prática na minha vida para me diferenciar das demais pessoas...
Quando eu tinha uns dois anos, eu abria o guarda-roupa da minha vó que guardava as roupas recém lavadas, mas ainda não passadas, e ficava brincando de me vestir com as roupas dos meus pais. Num dia, ela me viu vestindo uma calcinha da minha mãe, que eu achava linda. Era uma calcinha que tinha como estampa uma história em quadrinhos! E, pra mim, aquela peça de roupa era tão bonita e colorida quanto as minhas cuecas com estampas de desenho animado. Não entendi porque minha vó ficou tão brava comigo e disse que eu não podia me vestir com as roupas que não eram minhas. A partir deste dia, eu entrava escondido nesta parte do guarda-roupa e ficava lá trancado, me vestindo com as "roupas proibidas", aproveitando algum momento em que minha vó estivesse muito ocupada para que ela não me descobrisse.
Quando eu tinha 3 anos, meus pais me pegaram tirando a roupa e mostrando meu corpo pra um coleguinha (que tinha pedido pra me ver pelado). Não entendia muito bem como a vida funcionava e não via nada de errado nisso. Mas meus pais falaram pra mim que aquilo era errado e que eu não devia fazer, para não ser motivo de piadas pelas outras pessoas. Minha mãe dizia:
-"Eles vão te chamar de "mulherzinha"! Você vai gostar disso?"
E eu não respondia nada, pois não conseguia entender porque aquilo era algo ruim. Aliás, também não entendia o porquê de minha mãe, que era mulher, dizer que era ruim ser chamado de "mulherzinha"... Nada daquilo fazia sentido!
"Menino" e "menina" só passaram a fazer sentido pra mim depois que comecei a frequentar a escola. "Fila de meninos" x "Fila de meninas", "banheiro de meninos" x "banheiro de meninas", "cores de meninos" x "cores de meninas", "brincadeiras de meninos" x "brincadeiras de meninas" e tantas coisas do tipo me ensinaram que eu tinha que ficar do lado dos meninos e era completamente errado agir de forma diferente.
Aceitei essa imposição e agi no automático durante muito tempo, mesmo que, de vez em quando, alguém me acusasse de "ter jeito de menininha" ou ser "mulherzinha". A essa altura da vida, isso me incomodava porque me fazia sentir que eu não me encaixava no grupo que era "o certo pra mim" e nem pertencia ao "outro grupo" (e lá, eu também não encontraria abrigo). Eu, na verdade, estava isolado, fora dos grupos, sozinho, "diferente de todo mundo", sem alguém que compreendesse o que eu era ou sentia. Então, o que me restava era me esforçar ao máximo para aprender a ser menino, rapaz, homem. Porque aquilo era o certo a fazer.
Na adolescência, eu comecei a questionar a minha sexualidade, mas não meu gênero. Só no início da juventude (com meus 23, 25 anos), é que eu comecei a lançar olhos para esta minha questão. Eu perguntava a amigos mais próximos se eles sentiam, assim como eu, que o próprio gênero não era uma coisa estática, mas que ia variando ao longo do tempo. Eu explicava a eles que eu poderia me sentir um "homem pleno", em alguns dias, poderia me sentir com "gêneros intermediários entre homem e mulher" noutros, que eu, às vezes, me sentia pertencendo a "gêneros com características diferentes de homem, mulher ou algum intermediário disso"... Mais uma vez, meus amigos discordavam de mim, e diziam que isso não ocorria com eles. Mais uma vez, eu não me encaixava num grupo que era "o certo pra mim" e nem pertencia ao "outro grupo" (e lá, eu também não encontraria abrigo). Continuava isolado, fora dos grupos, sozinho, "diferente de todo mundo", sem alguém que compreendesse o que eu era ou sentia.
Somente, há um ano e meio, quando me aprofundei mais no
conhecimento sobre orientação sexual e identidade de gênero é que li uma descrição sobre "gênero fluido", que é uma identidade de gênero trans não binária, e me identifiquei totalmente. Senti-me compreendido por alguém (a galera dos movimentos que discutem gênero me entendiam!), eu agora me encaixava num grupo, não estava mais sozinho!
Então, comecei a me permitir vivenciar essa fluidez, experimentar um pouco, "brincar" com minha expressão de gênero... Faz seis meses, comprei um vestido, uma blusa feminina, brincos, batons, esmaltes... As vezes uso tais vestimentas, mas sempre mesclando o quanto de masculino e feminino eu desejo expressar naquele momento (refletindo o meu estado interior). Daí, tem combinação de barba, batom e brinco; corpo tipicamente masculino de vestido; blusa feminina, esmalte, brincos, barba e coturno...
Não estou fazendo tais experimentações o tempo todo. Primeiro porque, às vezes, não me sinto num gênero que me faça ter vontade de usar algo diferente do meu vestuário habitual. O gênero fluido tem dessas complicações de não ser constante, né? Então, pra ser coerente com o que sinto, não posso fazer uma experimentação ostensiva, "full time". Tenho que respeitar o tempo do meu sentir, a fluidez do meu gênero. Outra razão é que decidi não vivenciar um processo completo de uma vez, porque não dá pra chegar no meu serviço (trabalho numa escola), pros meus familiares e outros setores da minha vida que teriam grande resistência a uma "mudança" sem que eu esteja em segurança do que eu quero e já pronto pra me defender dos ataques que, com certeza, virão. Eu, como toda pessoa, preciso de um tempo pra ir vivenciando meu desejo e fazer autodescobertas. E o que eu posso dizer é que esta fase está sendo muito divertida e feliz.