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O filho do desejo
Eu nasci em 1983, três anos depois do casamento dos meus pais. E nem foi porque meus pais queriam curtir o casamento: minha mãe tem uma deformação no útero que a faz ter dificuldades para engravidar. Eu fui fruto de muita persistência e desejo. Meu irmão estava "programado" para nascer uns dois anos depois de mim, mas a dificuldade da minha mãe para engravidar fez com que ele nascesse 7 anos depois.
Quando eu tinha 5 anos, meus pais estavam quase desistindo de ter mais um filho, mas eu queria muito ter um irmão. E, por causa dos meus insistentes pedidos, eles decidiram continuar tentando, até que meu irmão foi concebido.
Eu, nitidamente, era o filho que recebeu mais atenção e investimento dos meus pais. Eu era "o" filho deles, fruto do desejo deles. Meu irmão era apenas o meu irmão, fruto do meu desejo e necessidade de ter um irmão.
Fui uma criança mimada, mas sem luxos. Meus pais nunca foram ricos e moravamos a dois quarteirões de uma das maiores favelas da cidade. A molecada da região teve uma certa resistência comigo num primeiro momento porque eu era mais branco que eles, mais rico que eles (porque, na percepção deles, eu almoçava todos os dias...), tinha pai e mãe morando comigo e não tinha que dividir meu quarto com mais dois ou três irmãos (afinal, naquela época, eu era filho único). Aos olhos deles, eu era um playboyzinho. O primeiro precoceito que sofri foi racial/social, mas eu não entendia o que estava acontecendo. Pra mim, eles sempre foram iguais a mim. Não entendia porque eu nem sempre era bem-vindo.
Bem perto do meu bairro, havia fazendas nas quais a meninada brincava e um campo de futebol de terra, locais em que brincar era garantia de voltar pra casa imundo. Quando começaram as obras para canalização do esgoto do bairro, os buracos das obras e as manilhas se tornaram outro reduto que era a alegria da criançada (que se divertia) e o terror das mães (que lavavam a roupa). Ao me verem entrando nas mesmas brincadeiras que eles e não me importando de me sujar na lama, na terra, de me molhar na chuva ou torrar no sol, meus pequenos vizinhos começaram a me ver como igual, e foram se tornando meus camaradas.
Nessa época, eu devia ter uns 9 anos. Quase todos os colegas de então morreram anos mais tarde, vítimas da violência da disputa pelo controle tráfico de drogas na região. Alguns que ainda estão vivos são ladrões conhecidos na região, mas que me tratam com um respeito enorme. Uns poucos viraram homens trabalhadores ou se mudaram de lá, de forma que eu não sei o que lhes aconteceu.
Um desses que se mudou enquanto nós ainda éramos crianças me falou uma frase que me marcou à época, mas que hoje me dói muito: "Achei estranho o dia em que ouvi sua mãe, Cara Comum, dizer que, antes de você nascer, ela queria muito ter um filho. Minha mãe, toda vez que está brava comigo, diz que não queria que eu tivesse nascido...".
Acho que foi a primeira vez que me senti intensamente diferente de alguém. Eu era o fruto do desejo, com todas as vantagens e desvantagens disso. O meu amigo não. Até hoje não sei explicar o que eu senti naquele momento. Só sei que não foi bom...