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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma mãe que inspira a gente...

Não sei se vcs se lembram daquela história de uma mãe americana que criou um blog na internet usando o pseudônimo de Amelia e fez uma postagem sobre o seu filho de 6 anos que já entendia gostar de meninos assim como Kurt e Blaine no seriado Glee, e como ela e o marido apoiaram o filho. Se não lembra, clique aqui para ver a postagem traduzida para o português ou aqui para a postagem original em inglês. Esse post tornou-se viral, e desde então ela mantém um blog no portal Huffington Post.

Pois, Amelia fez outra postagem que nos enche de orgulho e dá um belo exemplo de como lidar com a não-heterossexualidade dentro da família. Para ver a postagem original, clique aqui. Segue abaixo o texto traduzido postado pelo Lado Bi:


Eu escrevo muito sobre meu filho mais velho, mas ele não é o único. Eu tenho a sorte de ter três filhos no total. Meus outros dois são tão incríveis quanto o primeiro, na minha opinião nada imparcial. Meu filho do meio agora tem sete anos, a mesma idade que o mais velho tinha quando começou a se identificar como gay. Não deveria me surpreender que mais ou menos na mesma idade meu filho do meio começaria a ter questões e opiniões sobre a orientação sexual do irmão mais velho, mas me surpreendeu. No início era apenas uma parte normal de sua vida, que não era interessante a ponto de se parar para pensar. “Meu irmão é gay, tá bom, mas alguém quer jogar Mario Kart?” era basicamente sua opinião sobre esse assunto. Mas isso começou a mudar.

Alguns meses atrás, estávamos num daqueles dias de verão horríveis e nojentos em que o calor e a umidade simplesmente não dão trégua. Por sorte, dois ótimos amigos nossos, Sam e Toby, têm piscina em casa e nos convidaram para visitá-los e nos salvaram da tortura do calor. Sam e Toby vivem numa área super descolada e muito valorizada da cidade, razoavelmente perto de nós. Eles têm uma casa que nossos filhos apelidaram de “castelo”, com uma casa de fundos que é maior que a nossa casa. Os meninos adoram Sam e Toby e adoram visitar a casa deles. A gente já estava na piscina fazia algumas horas, e aquela energia incontrolável que as crianças liberam quando entram na água já tinha se esvaído. A gente estava curtindo um tempinho descansando dentro da água fresca.

Meu filho do meio estava cansado, e encostou a cabeça contra meu peito enquanto eu boiava de costas.

“Ô mãe”, ele disse, quebrando o silêncio.

“Oi, filho?”, eu disse, meio cochilando.

“Eu quero ser gay.”

Isso me pegou desprevenida. Eu pus ele entre meus braços e apoiei meus pés no chão da piscina.

“Bem”, eu comecei, e parei. Isso era inesperado. Meu filho do meio nunca se encantou por outros meninos como o mais velho, e ano passado ele queria se casar com uma coleguinha de classe. Nada disso fazia muita diferença. Foi a maneira como ele construiu essa frase que me fez parar. Ele queria ser gay. Era muito diferente do nosso filho mais velho, que simplesmente um dia anunciou que gay era o que ele é.

“Por que você quer ser gay, meu anjo?”, eu perguntei, com sua cabecinha ainda aconchegada em mim.

“Quando eu for gente grande, eu quero morar numa casona como essa e ter uma piscina.”

Ah, OK. Então isso era algo bem diferente. Por acaso nenhum dos nossos amigos heterossexuais vivem em casas grandes com piscina, então eu consegui entender sua linha de raciocínio.

“Ser gay não é algo que você pode querer e pedir pra ser”, eu falei para ele enquanto passava a mão em seu cabelo molhado. “Ser gay é algo que se é.”

Ele levantou a cabeça e olhou para o irmão mais velho. “Mas ele é gay, por que eu não?”

“Ele é mesmo. Mas ele é gay porque ele quer andar de mãos dadas com outros meninos. Ele quer ter namorados e quem sabe casar com um outro menino um dia.”

“Que nem o Toby e o Sam.”

“Isso mesmo, que nem eles. Mas isso não quer dizer que ele vai ter uma casa como essa. O Michael ou o Johnny têm casas grandes assim?”, eu perguntei, mencionando outros dois amigos nossos, gays e adultos. Meu filho balançou a cabeça. “E você não tem que se casar com um menino para conseguir uma casa assim. Alguns dos vizinhos do Sam e do Toby são como a mamãe e o papai, menina e menino. Então não importa se você gosta de meninos ou meninas, você ainda pode ter uma casa grande e bacana como essa quando você crescer.”

“OK,” ele suspirou e voltou a colocar a cabeça sobre meu peito. Eu sei que eu podia ter parado ali, mas algo me disse para continuar. Eu movi seu corpo até que ele olhasse para mim novamente.

“Você gosta de meninos ou de meninas?”, eu perguntei, olhando em seus olhos.

Ele inclinou a cabeça e pensou por um minuto. “Eu não decidi ainda.”

“E não há problema nisso. Nem todo mundo decide isso na mesma idade que o seu irmão. Você tem um montão de tempo.”

“OK.”

“Quando você decidir, eu não vou te amar nem mais nem menos do que eu te amo agora. Não faz diferença de quem você gosta, a mamãe vai te amar com todo o coração e mais um pouco.” Eu puxei ele pra perto de mim. Então eu soprei no ouvido do meu filho a brincadeira que eu faço com todos eles desde que eles nasceram. “Quem é o menino que eu amo mais?”

Ele sorriu para mim. Era aquele sorriso que captura meu coração, o sorriso que toma conta de seu rosto inteiro. “Eu!”

“Isso mesmo!” E daí eu olhei para seu irmão mais velho, que estava escutando essa conversa o tempo inteiro, e disse para ele, “Quem é o menino que eu amo mais?”

“Eu!”, ele gritou em resposta.

E então eu virei para nosso caçula, sentado numa cadeira ao lado da piscina, com uma toalha jogada sobre a cabeça e se empaturrando de batatinha frita como se estivesse há dias sem comer. “Quem é o menino que eu amo mais?”, eu berrei pra ele.

“Eu, mamãe!”, ele gritou, cuspindo batatinhas. “Você me ama mais!”

“Isso aí!” E eu voltei dar atenção para o do meio. “Vocês três são os garotos que eu mais amo no mundo. E vocês são perfeitos assim do jeitinho que são.”

“OK”, ele disse com um suspiro, inclinando a cabeça sobre meu peito mais uma vez e fechando os olhos. Parecia que a conversa tinha chegado ao fim.

Mas esse era apenas o início dos questionamentos. Nós respondemos a todos, porque ele tem que ter a liberdade de levantar esse tipo de questão. O que meu filho do meio me lembrou é que ser gay não é a história apenas de seu irmão mais velho. Nós somos uma família. Ter um filho gay é parte da minha história também, e parte da história de seu pai. Ter um irmão gay é parte da história dos meus outros dois filhos, e isso não deve ser desprezado ou ignorado. E como faz parte de sua história, ele deve sempre ser capaz de fazer as perguntas que quiser, e é parte do meu trabalho como mãe respondê-las, sinceramente, todas as vezes.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Almoço de aniversário

Nesse processo de reconstrução das minhas relações familiares, tenho visitado com mais frequência a casa dos meus pais. Tenho buscado construir no presente bons momentos, boas memórias para um futuro, tudo com a intenção que isso se torne um bom remédio contra as mágoas que carrego.

Numa dessas visitas, eu estava na casa dos meus pais a uma semana do meu aniversário. Como eu não sou uma pessoa muito ligada à comemoração desta data, nem me lembrava de sua proximidade e, por isso, não entendi porque minha mãe havia acabado de me perguntar o que eu faria no final de semana seguinte. Ela me propôs fazer um almoço especial, em família. Aceitei a ideia.

Contudo, durante a semana, me empolguei com a ideia e resolvi comemorar meu aniversário contando com a presença de alguns amigos mais próximos, além da minha família. Fiz isso com uma intenção em mente: reaproximar a minha família do meu mundo.

Foi bacana ver minha família recebendo alguns dos meus amigos heteros e gays. Foi bom pra meu pai e minha mãe conhecerem "o povo que eu convivo". Foi ótimo pra mim ter um espaço e um momento pra reencontrar o prazer de estar entre pessoas que eu gosto...

O saldo de um evento em família foi positivo, afinal!

sábado, 3 de janeiro de 2015

Natal em família com o Maridão

O tempo passa e as coisas mudam, não é? Eu nunca imaginei que a cena que vou descrever agora poderia ter sido vivenciada por mim algum dia, mas aconteceu. Neste Natal, meus pais resolveram fazer um churrasco no dia 24 à tarde e convidaram eu AND Maridão para irmos. Até aí já fiquei surpreso pela inclusão do Maridão no convite, mas nada tão digno de nota.

Chegando lá, pude observar surpreendido como meus pais tratam bem o Maridão. É claro que essa aceitação não nasceu da noite pro dia. Teve muita briga, muita forçação para tratar educadamente e muitos desencontros. Contudo, Maridão é uma pessoa cativante e soube conduzir bem o desafio de "ganhar os sogros".

Durante o churrasco, teve um momento que ele estava conversando com meu pai, totalmente íntimo e sem a minha presença pra intermediar. Depois, tava ele e minha mãe numa conversa amena e sem nenhuma tensão. Idem com meu irmão... Estava tudo num clima de família inacreditável, se eu pensar em todas as conturbações que envolveu a mim e a minha família por conta da minha sexualidade...

Foi bonito de se ver. Parece que, aos poucos, o preconceito está sendo vencido na minha família...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Eu voltei!

Eis que estou de volta a esse blog! Solta aquela música!



O motivo do sumiço foi simplesmente falta de escrever por aqui. Não vinha nada à minha cabeça digno de se postar neste blog. Tava travado e não consegui me conectar ao "espírito blogsvillano"...

Mas agora eu retorno agora com poucas novidades em minha vida, quase nenhuma digna de publicação.

Continuo casado. O Maridão continua o mesmo, mas fez recentemente uma cirurgia por conta de uma hérnia inguinal e eu virei marido, enfermeira e mãe. Ele tá mais manhoso do que nunca! Pra vcs terem ideia do que eu tô falando, um dia eu estava no andar de cima de nossa humilde casa geminada quando ele, lá de baixo, me grita:

Maridão: Cara Comum!
Cara Comum: que foi, amor? Tá precisando de alguma coisa?
Maridão: Não! só queria saber onde você estava e ouvir sua voz...

Outra coisa: não sei se já contei isso por aqui, mas sou aquele tipo de pessoa que se envolve em UM MILHÃO coisas ao mesmo tempo e não consegue ficar parado. Daí que estou com uma pá de projetos em andamento (projetos do trabalho, para minha vida pessoal, pra fazer melhorias aqui em casa, projetos sociais, projetos pra melhorar minha vida financeira, projetos de estudo...) e que não estão andando pra frente... isso é meio frustante, né? Mas vamos com paciência que a coisa uma hora vai...

Continuo no processo de perdão à minha família. Com exceção do meu irmão escroto pq não dá pra carregar mais do que a gente pode e o peso do processo com o meu pai e o da minha mãe já são grandes... Mas vamos caminhando, sem pressa, fazendo o que dá pra fazer...

Bem, acho que é isso!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma dor contra a dor

Encontrei o post abaixo nos rascunhos deste blog. Tem uns 11 meses, aproximadamente, que ele foi escrito. Após lê-lo, vocês vão entender um pouco mais a minha decisão de perdoar a minha família.

Quando eu tinha uns 10 anos ganhei um gibi que tinha uma seção de dicas que me marcou profundamente. Além de ideias de brincadeiras e outras para aproveitar materiais do dia-a-dia, havia uma dica de saúde que dizia assim: "Quando machucar, lave o local com água, sabão e uma escovinha macia. Vai doer um pouco, mas será menos do que pode doer se o machucado infeccionar." Naquele momento eu aprendia que às vezes a dor é necessária para curar outra dor maior.

Faz poucos dias que recebi uma visita de um primo meu. Eu estava meio tenso para conversar com ele, pois achava que ele iria ser mais um que se somaria ao coro dos que cobram que eu tenha uma relação harmônica com minha família... Para minha surpresa, isso não aconteceu. A conversa foi super agradável, aliás. E falamos inclusive, de nossas famílias, mas encarando-as de uma forma bem realista.

Resolvi curar o machucado que tenho em relação a minha família. Na conversa com meu primo percebi que estou armado demais para com eles e que grande parte do mal que eu achava que eles me fazem é causado por mim mesmo, na verdade.

Agora é encontrar a medida certa pra usar uma escovinha macia pra limpar o machucado e não uma lixa para superfícies metálicas...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

(Re)Conhecendo minha mãe

Nesse tempo em que eu estava afastado deste blog, eu fiz algo que foi difícil, mas que eu precisava: decidi perdoar minha família. E tudo começou quando eu senti a necessidade de ficar livre daquele sentimento ruim que eu carregava.

A primeira pessoa que eu me reaproximei foi minha mãe. Talvez porque foi ela que menos dificuldades parecia impor, talvez porque foi ela quem recusou-se a se afastar de mim e era uma grande fonte de "perturbação", talvez porque era dela a ferida menos doída... Ainda não sei ao certo.

O que sei é que eu tentei, por várias vezes, ter uma conversa que passasse a limpo nossas diferenças, mas ela fugiu todas as vezes. Uma das atitudes da minha mãe que mais me desagradavam era sua péssima mania de sempre querer apaziguar, colocando panos quentes em qualquer conflito. Ao fazer isso, ela nunca resolvia de fato as diferenças, apenas calava um vulcão que estava cada vez mais perto de explodir. A solução que eu encontrei foi escrever-lhe uma carta, para que eu finalmente pudesse dizer o que eu sentia e o que me incomodava e assim recomeçar de verdade nossa história.

Na carta, tentei ser sincero sem ser agressivo e acredito que fui bem sucedido em meu intento. Depois daquela carta, o diálogo se abriu da parte dela. Ela passou a me escutar mais.

Desde então, estamos nos (re)conhecendo. Está sendo uma experiência interessante olhar minha mãe como uma mulher, uma pessoa, e não apenas minha mãe. Estamos num grande exercício de respeito mútuo. Ainda existem feridas e diferenças entre nós mas, ao menos agora, sinto que está tudo mais leve, real e possível

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Um leão, um coruja e uma "cã"

Eu sou louco com cachorro, mas Maridão sempre disse que detestava (e eu já tinha me conformado de não ter cachorro)... Mas, de repente, ele veio com papo de arrumar cachorro e meses depois apareceu com uma filhotinha linda de vira-lata. Ela dá trabalho como todo filhote, coisa normal, mas muito menos do que a média que eu vejo por aí.

Porém, Maridão começou a reclamar, falar que tava sem paciência e toda hora me enchia o saco por causa da danadinha. Eu e ele brigamos, óbvio! No meio da discussão, ele disse que arrumou cachorro só por minha causa... Porque eu dava indireta!!! PARA TUDO!!!! Eu não sou homem de dar indireta! Fiquei puto com ele falando isso!

Então, ele queria deixar a bichinha trancada nos fundos da casa o dia inteiro. Achei uma maldade, porque o espaço é bem pequeno, ela ficaria estressada horrores e, para piorar, ele queria que só eu cuidasse dela, só eu a educasse... Falei que desse jeito era melhor deixar ela ser adotada por outras pessoas e Maridão concordou, quase comemorando! Fiquei mais puto ainda, óbvio, porque ele me aparece com cachorro sem eu pedir e depois quer me tirar... Muita maldade!

Tentando me conformar, botei anúncio no Facebook pra alguém adotar a cachorrinha. Mas Maridão voltou atrás em sua decisão e disse que quer fazer uma experiência de dois meses pra ver se ele se adapta a ela. No fim do prazo, ou a gente fica com ela de vez ou vamos anunciar de novo a adoção...
Agora eu tenho que explicar isso pra uma pá de pessoas que me mandou mensagem no Facebook querendo adotar minha filhinha...VONTADE DE MATAR!!! rs

O pior de tudo é que vou me apegar ainda mais nesses dois meses e se ele não se adaptar... vai ser FODA!!!!

Esse meu marido é uma instabilidade emocional ambulante. Muda de ideia mais do que eu mudo de roupa... Há exatos 6 meses eu tinha certeza absoluta que ele nunca aceitaria eu trazer cachorro pra dento de casa... daí, ELE MESMO TROUXE UM!!!

Tô me lançando como candidatando a santo. Vou ser o primeiro leão canonizado da história...
Tá, eu descobri que já existiu um cara conhecido por Santo Leão, mas vamos ignorar este detalhe!

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Reconstruindo o pai - 1 (parte final)

(Para ler a parte anterior desta história, clique aqui)

Desci do ônibus, caminhei um pouco e finalmente cheguei. Foi meu pai quem abriu o portão pra mim. Ficou surpreso com minha presença, mas de uma forma contida. Aliás, faz muito tempo que ele age comigo de forma contida. Me deu uns tapinhas nas costas e foi entrando, dizendo que estava cozinhando. Tive que pará-lo pra lhe entregar o presente e lhe dizer: "Queria ter vindo ontem, mas não consegui". Ele, olhando apenas para o presente, respondeu: "Que bom que você veio. Deixa eu olhar as panelas. Sua mãe está lá no fundo, fazendo umas coisas pra igreja."

Fui então cumprimentar minha mãe, que ficou muito surpresa e feliz em me ver. Ela estava fazendo uma faixa para ser usada num evento da igreja que ocorreria ainda naquele dia, onde se lia a frase: "Ensinando e ampliando a fé cristã na família". Alguns segundo depois, meu pai foi ao nosso encontro, pedindo ajuda para tirar a fita adesiva do papel de presente, dizendo que estava com dó de rasgá-lo. Minha mãe, então,  pediu para meu pai ajudá-la a fazer a faixa, enquanto eu, prevendo que seria o próximo a receber tal intimação, saí de perto com a desculpa de que iria beber água. Não me importaria em ajudar, se não fosse algo para a Igreja Católica que ostenta uma frase dessas...

Em pouco tempo, minha mãe saiu para ir ao tal evento na igreja e eu fiquei sozinho em casa com meu pai. Tentamos estabelecer uma conversa sobre amenidades, com muita dificuldade, momentos de silêncio e um clima tenso.

Na hora em que eu pretendia ir embora, meu pai me disse: "Acho que vou gostar muito do livro. Este autor é muito bom. Mas está faltando uma coisa no meu presente! Você não escreveu uma dedicatória no livro que deu pra mim. Mas ainda dá tempo de fazer..."

É claro que eu não havia escrito nada ainda. Já havia sido um esforço enorme ter ido ao encontro de meu pai e presenteá-lo. Eu simplesmente não havia conseguido escrever nada para entregar junto com o presente: nem dedicatória, nem mesmo um cartão desejando feliz Dia dos Pais atrasado.

Peguei então o livro e uma caneta e saí de perto do meu pai para escrever, usando a desculpa de que eu preferia me apoiar na mesa da sala, que era mais iluminada. Tentei acalmar meu coração com uma respiração profunda e medi cada palavra que eu estava usando. O que saiu desse meu esforço foi:

"Pai,
você se lembra da primeira vez que eu andei? Pois é! O tempo passou e hoje eu sou senhor dos meus passos.
Contudo, esse livro e essa visita são, para mim, um novo primeiro passo. Um passo em direção a você. Um filho em direção ao pai. Um homem que vai de encontro a outro. Duas pessoas, dois mundos.
Imagino que você esteja tão perdido quanto eu, tateando, pisando com cuidado neste novo terreno. Mas peço sua ajuda: me acompanhe, com carinho, com cuidado...
Vamos juntos ser felizes e nos apaixonarmos pela vida.
Fique bem!"

Entreguei para ele o livro e saí de perto dele pra que ele pudesse ler sem a minha presença e ficasse mais a vontade para reagir como quisesse.

Aprontei-me para ir embora. Quando cheguei perto dele para me despedir, meu Pai disse: "Gostei muito da dedicatória..." Na sequência, avisei pra ele que eu precisava ir embora, pois trabalharia cedo no outro dia e ele me perguntou se meu ônibus demoraria naquele horário. Disse que não, mas que precisava ir imediatamente. Ele me abraçou e me disse: "Eu te amo." Não consegui responder nada. Apenas fiquei mudo e paralisado naquele abraço. Depois de alguns instantes em silêncio disse que eu precisava ir. Ele agradeceu a visita e disse pra eu voltar assim que pudesse.

Na rua, a vontade de chorar que eu estava mantendo sob controle dentro daquela casa crescia a cada passo. Tentei deixar o choro sair, mas não consegui. Parecia que havia um mundo entalado na minha garganta. Cheguei em casa exausto e dormi, sem saber direito  se eu queria ou não acordar no outro dia.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Reconstruindo o pai - 1 (primeira parte)

Nos últimos dias eu vivi uma guerra. Uma guerra interior. Não briguei com ninguém, não havia clima tenso para quem estava ao redor. Mas dentro de mim eu lutava contra inimigos terríveis. O passado era um deles.

Dia dos Pais chegando e eu tentando rever o que eu sinto pela minha família. Meu plano era fazer uma visita àquela casa que eu já chamei de minha, tentar ir o mais desarmado possível, levar um presente pro meu pai (que simbolizasse minha intenção de recomeço) e, com isso tudo, dar o primeiro passo para deixar o passado pra trás.

A primeira dificuldade foi escolher o presente ideal. É extremamente difícil presentear alguém de quem se guarda alguma mágoa. Enrolei até o sábado a tarde para começar a concretizar a ideia de comprar o presente, que foi quando eu comecei a planejar efetivamente a compra.

Pensando em qual seria um bom presente, percebi que eu tinha removido meu pai da minha cabeça: não lembrava mais quais eram seus gostos, tamanho das roupas e calçados, nem nada. Era como se eu quisesse presentear um estranho. Custei a lembrar que ele gosta de ler. E aí, era decidir qual livro seria um bom presente.

Dei uma olhada em algumas livrarias virtuais apenas para economizar tempo. Teria que comprar numa loja física porque por uma virtual a entrega chegaria atrasada. Acontece que, mesmo após escolher como uma das melhores opções o livro "Dez leis para ser feliz" do Augusto Cury, eu não consegui sair de casa pra nada. Era como se me faltasse forças pra sair. O corpo doía só de pensar na ideia. Fiquei em casa o resto do sábado inteiro tentando reunir forças pra sair de casa e comprar o tal livro. Tudo em vão.

O sábado passou e eu estava uma pilha de nervos. Não consegui dormir. Às sete da manhã de domingo, Maridão acordou preocupado comigo e,  me vendo ainda extremamente nervoso,  me abraçou, sentou comigo no sofá da sala e me fez cafuné na cabeça. Só assim consegui dormir.

Acordei no domingo a noite, muito frustrado por ter falhado no meu intento. Então eu percebi que não dava pra brigar comigo mesmo e decidi me respeitar: não podia ir até o meu pai obrigado de tal forma por mim mesmo.

Segunda-feira acordei me sentido ainda mais pesado que no domingo. Então decidi que eu iria lá de qualquer jeito. No fim da tarde, comprei o presente, peguei o ônibus em direção à casa dos meus pais cheio de expectativas e fui dar os primeiros passos neste campo minado.

(continua)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Resumo da Ópera

Estive pensando que seria importante contar o que mudou durante a minha ausência por aqui. Ainda não sei como fazê-lo e depois de muito pensar sem chegar a uma decisão, resolvi apenas escrever, sem compromisso de nada. Vou me deixar guiar até o final deste texto e ver o que sai. Muita coisa realmente se modificou em mim e na minha vida, enquanto outras apenas confirmaram que o melhor é ser como são.

Continuo casado com o Maridão, e nisso não sinto que há nada a se modificar. Continuo a descobrir que o amor é construído no dia-a-dia e em cada ação (ou omissão). Maridão não é perfeito, obviamente, nem eu o sou. E não tenho com ele uma pretensão de viver um amor eterno, que isso não existe. Eu apenas concordo com Lô Borges quando diz que "eu só preciso ter você por mais um dia". Acho que é por isso que todo dia eu digo a ele que quero continuar esse casamento. Desta maneira, nada a se alterar nesse aspecto.

Com relação a minha família, talvez aqui eu tenha feito a maior mudança. Eu guardei um rancor e uma mágoa muito grande de cada um deles e, não nego, foi algo muito importante. Sem a força desse ódio, eu nunca sairia do lugar, da minha depressão. Mas não tenho mais a necessidade de cultivar isso em mim. Esses são, agora, sentimentos que só me fazem mal, porque me prendem a uma dor e não me acrescentam nada de positivo. Agora eu consigo ver que, apesar de todo mal que meus pais e meu irmão me fizeram, eu os amo. E o amor deles é algo caro para mim, mesmo que de uma forma torta e equivocada. Não estou dizendo que eles podem voltar a fazer o mal que me faziam ou que eu vou simplesmente esquecer o que eles me fizeram. Estou num processo de perdão, onde quero esquecer a dor que me corrói ainda. Creio que quem mais precisa de perdão nessa história não é ninguém da minha família: sou eu. Eu nunca me perdoei por deixar minha família me machucar. Hoje quero aprender a ter deles o afeto que eu preciso, sem deixar que eles me machuquem. Estou tentando descobrir como fazer isso.

No trabalho mudaram algumas coisas. Continuo trabalhando com Educação, mas muito em breve estarei atuando também na área da Saúde. Decidi que quero mesmo muito ter filhos e que, se for preciso me matar de trabalhar para isso, que assim seja. tudo tem seu preço e sempre preferi pagar caro por algo que quero muito que ser infeliz com uma pechincha.

Durante esse tempo em que estive ausente, me envolvi em atividades de militância numa ONG de defesa dos direitos LGBTs. Foi uma experiência muito bacana. Conheci muita gente e entendi melhor o cenário político/social brasileiro. E uma coisa triste foi ver que pouca gente se dispõe a se envolver. Saí da ONG porque não dava pra conciliar meus planos de vida imediatos com o trabalho voluntário. Além disso, confesso que me senti enormemente angustiado de ver tanta coisa a ser feita e tão poucas pessoas dispostas a ajudar. Infelizmente eu não consigo conviver com essa angústia de forma saudável.

Bom, acho que é isso! É tão difícil fazer uma síntese dos últimos meses, mas creio que consegui. Ainda estou meio "enferrujado" para a escrita, mas daqui a pouco eu retomo jeito. Assim espero!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Somos todos vítimas



Assista o vídeo acima. Ele traz uma fábula que conta uma história que nos ajuda a entender como surgem os paradigmas. E a vida está cheia deles.

Mas por que estou falando disso? No meu post em que eu apresentava meu pai para Blogsville, um comentário do Gato Van de Kamp me fez dar uma resposta curtinha que para o momento servia. A frase foi: "A história da minha família é um amontoado de vítimas".

A questão é que eu não duvido de que, na minha família, sejamos todos vítimas de um contexto. Acontece que algumas vítimas escolheram para si o sofrimento e outras foram, por várias vezes, forçadas pelo bando a nele permanecer como os macacos do experimento.

E é por isso que eu tenho orgulho do meu rancor. Ele é um mal necessário para que eu quebre o círculo vicioso que ainda existe na minha mente de permanecer sob uma ordem doente e sem nenhuma razão lógica de existir. Ele é minha chave para sair dessa gaiola.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - III



Para ler os post anteriores dessa trilogia, clique aqui e aqui.

Tudo que é sólido desmancha no ar


O tempo havia passado e muita coisa havia mudado. A família que eu descrevi naquele primeiro relato tornou-se irreconhecível. Meus pais estavam cada vez mais envolvidos com o trabalho dentro da igreja católica, trabalhavam em casa e a situação financeira da família havia piorado muito. Apesar disso, a prioridade era a imagem de uma família perfeita e feliz. E, para manter essa imagem, minha família mantinha vários fatos em segredo. Tanto que grande parte das coisas que foram relatadas na primeira parte desta trilogia de posts eu só descobri depois de adulto porque uma tia me contou.

Eu era um jovem de 24 anos que havia assumido a sua sexualidade para os pais de uma forma tragicômica (pretendo escrever sobre isso depois). Minha avó havia falecido e muito de mim havia falecido também à mesma época. Eu fui demitido de um emprego em que eu estava há 6 anos, havia rompido um namoro de uma forma extremamente traumática e desagradável... Havia todo um conjunto de situações desfavoráveis que me levaram a uma depressão fortíssima.

Assim, eu voltei a viver na dependência financeira dos meus pais. Mas, para aquela família, que antes parecia tão "maluca" e hoje ostentava uma pose "tradicional" hipócrita (querendo aparentar ser uma família de comercial de margarina), eu era algo que deveria ser jogado sob o tapete para não manchar a honra da família. Meu  único irmão, aquele que não tem limites nem em sua agressividade, virou o queridinho da família, porque ele participava (e ainda participa) do jogo de aparências da minha família.

Pra mim, sobrou um tratamento de segunda classe, o desprezo, a sensação de ser a causa da vergonha alheia e um sentimento muito ruim. Não entendam que aqui há um mero ciúmes do meu irmão ter ocupado um lugar que já foi o meu. Isso, na verdade, me traz alívio, na medida em que eu abomino esse lugar em que eu me deixei ficar. A grande questão é como é lastimável ver as pessoas dizendo com todas as letras que eu, por ser quem sou, tenho menos valor que uma pessoa que encarna o papel de uma violência mascarada, mas que colabora com o jogo de aparências.

Foi por causa do preconceito que eu ouvi minha família dizer que tinha vergonha de mim, chegando ao ponto de meus pais afirmarem para mim que era melhor eu não ter nascido, exatamente como o meu pequeno amigo ouviu. Chegando ao ponto de eu ser expulso de casa (coisa que minha família faz questão de ocultar até hoje).

Este é o começo de uma história triste, que tem partes mais dolorosas, mas que eu ainda não consigo contar por aqui. Peço desculpas, à vocês e a mim, por terminar essa trilogia dessa maneira rasa, contudo não queria simplesmente abandonar o tema sem amarrar as pontas que deixei nas postagens anteriores. Quem sabe um dia eu estarei pronto para falar mais sobre isso, de uma forma mais serena...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - II





Para ler o post anterior, clique aqui.

O filho do desejo


Eu nasci em 1983, três anos depois do casamento dos meus pais. E nem foi porque meus pais queriam curtir o casamento: minha mãe tem uma deformação no útero que a faz ter dificuldades para engravidar. Eu fui fruto de muita persistência e desejo. Meu irmão estava "programado" para nascer uns dois anos depois de mim, mas a dificuldade da minha mãe para engravidar fez com que ele nascesse 7 anos depois.

Quando eu tinha 5 anos, meus pais estavam quase desistindo de ter mais um filho, mas eu queria muito ter um irmão. E, por causa dos meus insistentes pedidos, eles decidiram continuar tentando, até que meu irmão foi concebido.

Eu, nitidamente, era o filho que recebeu mais atenção e investimento dos meus pais. Eu era "o" filho deles, fruto do desejo deles. Meu irmão era apenas o meu irmão, fruto do meu desejo e necessidade de ter um irmão.

Fui uma criança mimada, mas sem luxos. Meus pais nunca foram ricos e moravamos a dois quarteirões de uma das maiores favelas da cidade. A molecada da região teve uma certa resistência comigo num primeiro momento porque eu era mais branco que eles, mais rico que eles (porque, na percepção deles, eu almoçava todos os dias...), tinha pai e mãe morando comigo e não tinha que dividir meu quarto com mais dois ou três irmãos (afinal, naquela época, eu era filho único). Aos olhos deles, eu era um playboyzinho. O primeiro precoceito que sofri foi racial/social, mas eu não entendia o que estava acontecendo. Pra mim, eles sempre foram iguais a mim. Não entendia porque eu nem sempre era bem-vindo.

Bem perto do meu bairro, havia fazendas nas quais a meninada brincava e um campo de futebol de terra, locais em que brincar era garantia de voltar pra casa imundo. Quando começaram as obras para canalização do esgoto do bairro, os buracos das obras e as manilhas se tornaram outro reduto que era a alegria da criançada (que se divertia) e o terror das mães (que lavavam a roupa). Ao me verem entrando nas mesmas brincadeiras que eles e não me importando de me sujar na lama, na terra, de me molhar na chuva ou torrar no sol, meus pequenos vizinhos começaram a me ver como igual, e foram se tornando meus camaradas.

Nessa época, eu devia ter uns 9 anos. Quase todos os colegas de então morreram anos mais tarde, vítimas da violência da disputa pelo controle tráfico de drogas na região. Alguns que ainda estão vivos são ladrões conhecidos na região, mas que me tratam com um respeito enorme. Uns poucos viraram homens trabalhadores ou se mudaram de lá, de forma que eu não sei o que lhes aconteceu.

Um desses que se mudou enquanto nós ainda éramos crianças me falou uma frase que me marcou à época, mas que hoje me dói muito: "Achei estranho o dia em que ouvi sua mãe, Cara Comum, dizer que, antes de você nascer, ela queria muito ter um filho. Minha mãe, toda vez que está brava comigo, diz que não queria que eu tivesse nascido...".

Acho que foi a primeira vez que me senti intensamente diferente de alguém. Eu era o fruto do desejo, com todas as vantagens e desvantagens disso. O meu amigo não. Até hoje não sei explicar o que eu senti naquele momento. Só sei que não foi bom...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - I

Prólogo: Resolvi contar minha história aqui no blog, com os fatos mais marcantes que minha memória retém. Mais que falar da minha família ou fazer uma biografia, sinto que preciso dizer mais sobre as coisas que vivi, para desfazer uns nós. Serão relatos de um passado que talvez para vocês não faça muito sentido, mas escrevo por mim, por esse desejo que grita querendo sair. Obviamente, não falarei somente de mim e teremos diversos novos personagens, não só da minha família, mas muitos outros que não apareceram aqui no blog. Para aqueles que decidirem se aventurar comigo, eis uma ótima oportunidade de saber mais sobre o Cara Comum que vos escreve. Este primeiro post é um grande adendo das histórias que virão a seguir.



A história antes da história

Essa história que eu quero contar começa antes de eu nascer. Se, por um lado, posso dizer que não participei dela, não posso afirmar, contudo, que ela não me atinge.

Meu pai é o filho caçula de uma família de 6 irmãos que morava numa cidade do interior de Minas Gerais, ao norte de Belo Horizonte. Um dos irmãos dele morreu quando ele era criança de colo. Outra irmã dele teve paralisia infantil e se foi quando ele tinha 4 anos. Minha avó paterna era negra, Testemunha de Jeová e mãe solteira. O meu avô paterno nunca assumiu o seu relacionamento com minha avó. Eram dele o filho mais velho (meu tio) e o mais novo (meu pai). Meus outros tios são meio-irmãos do meu pai. Eu nunca conheci essa minha avó nem esse meu avô. Quando minha avó paterna faleceu, meu pai tinha 6 anos. Ele e seus irmãos se mudaram para BH para serem criados por uma tia deles. Quando garoto, morando em BH, meu pai fez um grande amigo: o Padrinho Pombo.

Minha avó materna, que chamarei de Vovó Ternura, era filha de um italiano que veio viver no Brasil, numa cidade do leste de Minas Gerais. Aos 25, ela e a família se mudaram para Belo Horizonte. Aos 36 se tornou mãe solteira e criou sua única filha com o dinheiro que ganhava costurando. Meu avô materno só procurou saber da minha mãe quando ela fez 16 anos. Até hoje minha mãe nunca perdoou meu avô pela sua ausência. Eu só o vi umas 3 ou 4 vezes na vida. Minha mãe foi criada com medo de tudo: ela e minha vó tinham medo de não ter o que comer no mês seguinte, de não conseguir pagar o aluguel, da casa desmoronar durante uma chuva, medo de assaltos, medo de tomar leite depois de chupar manga, medo de doenças, medo de assombração, medo de rato... Talvez por isso minha mãe se tornou uma moça muito tímida e tão religiosa (católica) quanto minha avó.

Na adolescência, minha mãe já trabalhava para ajudar no sustento da casa e, aos finais de semana, saia para dançar com uma amiga, que chamarei de Madrinha Espuleta. Meu pai também começou a trabalhar cedo para se sustentar. Virou metaleiro (e, obviamente, só ouvia Heavy Metal) e ateu. Na adolescência, teve uma filha que ele nunca assumiu e, apesar de não gostar de dançar, foi a uma festa numa clube de dança em BH, por insistência do Padrinho Pombo. Era o ano de 1970 e, nesta festa, o Padrinho Pombo apresentou minha mãe (que era vizinha dele) ao meu pai.

Meu pai namorou minha mãe durante 10 anos, e nesse período, os dois compraram um lote numa cidade vizinha de BH, onde construíram a casa onde morei boa parte da minha vida. Hoje eu sei que a escolha por um lote bem afastado de onde mora o restante da família do meu pai e da minha mãe foi uma tentativa deles de se afastar dos "parentes da onça", como meu pai costuma dizer. Em 1980 meu pai e minha mãe se casaram e foram morar na tal casa, levando Vovó Ternura pra morar junto com os dois. Foi neste contexto que, alguns anos depois, eu nasci. Mas isso é uma história que fica para a próxima...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Da família: Minha avó

De todos da minha família, minha avó materna é o meu maior elo afetivo. Fazer esse exercício de encarar minha vó de frente, despi-la da minha fantasia e fazer um relato mais próximo do que ela é de verdade é algo extremamente complicado. Sem dúvida, o relato mais desafiador dentre todos os possíveis a serem feitos sobre minha família. E também o mais singular. Tanto que este não pertence à série "estranhos da minha família". Porque minha vó nunca me foi estranha. Talvez haja pouca fantasia para ser retirada de sua pessoa, visto que ela foi uma das poucas pessoas que se deixou mostrar pra mim por inteira.

Nunca conheci nenhum dos avós paternos e meu avô materno sempre foi ausente. Assim, minha vó era a única. E eu o primeiro neto dela (e declaradamente o preferido). Éramos um do outro. Até os meus seis anos de idade, foi ela quem me criou, enquanto meus pais trabalhavam fora pra sustentar a casa. Ela foi mais minha mãe que minha própria mãe.

Era uma pessoa que conseguia ter uma ternura mesmo nos mais complicados momentos. Enquanto escrevo isso, consigo me lembrar de sua voz branda e firme me dizendo que eu tinha que fazer o "para casa" antes de poder brincar.

Era uma velha que saiu de uma cidade do interior pra viver na capital, mas que levava a vida como se ainda vivesse no interior. Apreciava o cultivo de todo tipo de planta: as ornamentais, as hortaliças, os ramos medicinais... Contava histórias que transbordavam supertição e lendas populares da cidade de onde ela veio. Minha vó vivia num mundo místico onde não se podia comer manga e beber leite, onde se tinha a obrigação de defumar a casa com arruda e alecrim toda sexta-feira da paixão, onde se rezava toda manhã e toda noite...

Minha vó foi a primeira pessoa que me reprimiu também. Foi, ternamente, que ela me proibiu de ver minha imagem refletida no espelho aos meus 3 anos, quando eu pulava na cama dos meus pais sem roupa após sair do banho. Foi escondido dela que eu vesti uma calcinha da minha mãe que eu achava tão bonita. Foi escondido dela que eu tomei Aas infantil porque achava aquele gosto delicioso.

Ela convivia com o reumatismo, artrite, flebite e diabetes, dentre outras doenças. Essa fragilidade da sua saúde nos aproximava porque cuidávamos um do outro e ambos tinham responsabilidade sobre o outro. Éramos iguais, parceiros. Consigo me lembrar da dedicação que eu tinha para fazer massagens em seus pés doentes. Ficava extremamente feliz quando percebia que minhas mãos atenuavam o sofrimento expresso em seu rosto.

Ela tinha milhares de manias e uma das que mais me irritava era a de falar em voz alta durante a noite, seja para pedir um copo de água, seja para perguntar se eu estava bem, ou mesmo pra ordenar que eu dormisse. Ela era muito teimosa e costumava a responder concordando com a pessoa mas, no fim, acabar fazendo do jeito dela. Ela escondia pães e outros tipos de comida para que houvesse algo a comer no dia seguinte.

Me ensinou a comer pão com um copo de água com açúcar, quando acabava o leite... Fazia o mingal de fubá mais gostoso que eu já comi e me ensinou a amar chá de capim cidreira. Me ensinou também a comer romã, debulhando antes grão por grão. Me ensinou também persistência, pois mesmo doente não conseguia simplesmente não fazer nada e realizava praticamente todas as tarefas domésticas.

Meu pai a tratava mal, xingando-a e ridicularizando-a. Minha mãe gritava com ela o tempo todo porque não tinha paciência para suas manias. Meu irmão, quando ela se opunha às vontades dele, chutava-lhe a perna doente. Isso me deixava irado, o que só aumentava quando eu via que meus país não faziam nada a respeito.

Quando contei para meus pais sobre minha sexualidade, eles começaram uma cruzada contra meu namorado da época. Minha vó, no entanto, me disse apenas que meu pai não gostava dele, mas que não era pra eu ficar triste com isso porque meu pai era meio bruto mesmo. Quando meus pais me expulsaram de casa, ela sofreu muito. Só voltei a pisar naquela casa por causa dela. Eu sabia que tinha que aproveitar o tempo que ainda restava para conviver com minha avó.

Minha avó era uma velha com a cabeça extremamente lúcida até os 85 anos. Quando alguém queria lembrar de algo, pedia que ela ajudasse a lembrar. E, incrivelmente, ela lembrava na hora marcada sem precisar consultar o relógio. Eu brincava que ela tinha um relógio dentro daquela cabeça.

Porém, depois dos 85, ela começou a se esquecer das coisas. Ficou mais quieta, não tinha a mesma agilidade de antes, custava a entender o que a gente dizia a ela. Uma vez ela conversou com minha ex-namorada como se estivesse conversando com minha cunhada da época (ainda bem que ela elogiou minha namorada pra ela mesma!). Aos poucos, foi ficando cada vez mais introspectiva. Eu sentia que minha vó estava sumindo aos pouquinhos.

Faleceu aos 92, vítima do que começou como uma gripe e terminou como uma parada cardíaca. Eu fiz questão de não guardar a data do seu falecimento. Prefiro lembrar dela viva. É a forma que eu encontrei de lidar com a saudade, que hoje tem um sabor de gratidão por ter convivido com ela todo o tempo que pude...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Esses estranhos da minha família - III (o pai)

Eu já considerei meu pai como a pessoa que eu queria ser. Mas hoje, penso que ele é muito mais o exemplo do que eu NÃO sonho ser que uma inspiração para qualquer coisa... O pior é que eu sou muito parecido com ele, fisicamente. Só fui admitir isso aos 22 anos, vendo um álbum de fotos antigas. Nunca gostei dessa ideia de ser "a cara do pai". Eu nunca quis ser meu pai outra vez: eu queria ser melhor que meu pai sempre foi.

Muitos motivos me estimulavam a seguir essa meta. A começar: meu pai tem a característica que eu mais desprezo nas pessoas, que é a falsidade. Ele é capaz de sorrir para o seu pior inimigo, recebe-lo em sua casa e, quando a pessoa vai embora ele tem a coragem de dizer que o cara é um filho da puta e que nunca mais entra na casa dele. Mas se o cara for lá no dia seguinte, ele o receberá com o mesmo sorriso e proferirá, na sua saída, o mesmo palavrão.

Ele é umas das pessoas mais acomodadas que eu conheço. É capaz de sofrer por anos a fio por algo e não ser capaz de tomar uma atitude que o faça sair de sua zona de conforto. Muito por essa acomodação dele é que minha família viveu (e ainda vive) anos e anos imersa em problemas financeiros que ele não teve a ousadia de tentar resolver. Até hoje ele joga a responsabilidade para nós, os filhos dele, de "ajudá-lo" a sair do buraco. Mas, pelas atitudes dele, está claro pra mim que ele não quer ajuda: ele quer alguém que faça para ele o que tem que ser feito e o salve de si mesmo. Ele apresenta a mim a meu irmão para outras pessoas, não como seus filhos, mas como os "herdeiros da dívida".

Só pra vocês entenderem o que eu digo sobre ser acomodado: ele trabalha como gráfico. Tem uma máquina de impressão offset bem antiga e uma outra de corte num cômodo nos fundos lá de casa. Depois de muito custo (e muitos anos de sacrifício), EU comprei um computador com um dos meus primeiros salários pra ele poder fazer as artes finais do próprio serviço e não ter que terceirizar (reduzindo custos do processo). Isso foi em 2001. Até hoje, ele só sabe ligar o PC, jogar paciência ou damas na internet (ficou anos só jogando paciência, mas agora descobriu as damas e só joga isso) e, depois de jogar horas seguidas, desligar o computador. Ele queria que eu, trabalhando e estudando pra ser um Biólogo, fizesse o serviço de arte finalista para ele. Como eu me recusei (e a falta de tempo foi meu melhor argumento), minha mãe é quem teve que assumir a bagaça. Enquanto isso ele fica lá, esperando receber tudo na mão pra poder continuar o processo da impressão e não move uma palha.

E nessa zona de conforto, faz promessas há anos que nunca cumpriu. Ele fuma desde garoto e vive dizendo que vai parar. Mas todo dia, em todos os anos, lá está ele fumando um maço de cigarro (hoje Hollywood, mas já foi Belmont, quando ainda fabricavam tal marca), religiosamente.

Também, religiosamente, meu pai vive bebendo em qualquer boteco copo sujo do bairro. Em algumas épocas, bebe em mais dias na semana, em outras menos dias. Só para vocês terem uma ideia, desde que me entendo por gente sei que ele sai para beber pelo menos uma vez por semana (e já chegou no nível de ir 6 dias da semana, no ápice da coisa). Normalmente, fica na média de ir ao bar três vezes na semana. No bar, bebe relativamente pouco: só umas 2 ou 3 garrafas de cervejas e uma dose (ou duas) de pinga. Lá, ele fica jogando conversa fora com os donos dos bares e outros frequentadores também e por isso demora eternidades pra beber suas cervejas e pingas! Um efeito colateral disto é que, talvez, meu pai tenha mais "amigos de copo" que qualquer outra pessoa do bairro!

Nada contra ele beber! O problema é que quando ele está bêbado, torna-se um chato! Fica todo sentimentalóide, vira o "do contra", quer ter "conversas sérias" com todos sobre tudo, nas quais somente ele fala desatinando numa análise filosófica sobre o sentido da vida (sempre as mesmas frases, sempre as mesmas "conversas", iguais a da última vez em que ele bebeu) e fazendo afirmações moralistas, que ele mesmo não vivencia. Mas é só passar o pileque e ele volta a ser alguém muito impessoal que forja uma intimidade que, para quem o conhece verdadeiramente, sabe que não existe de verdade. Ao menos, é um perfil menos desagradável...

Hoje em dia, ele é um homem muito religioso. Até canta no coral da igreja (católica) que ele e minha mãe frequentam! As carolas o adoram! Em casa, ele fica o dia inteiro escutando um repertório que vai a música gospel aos hits populares do momento (mas com ênfase na música católica). Lê a bíblia quase todo dia.

Isso em si não seria problema se ele não usasse todo o seu conhecimento religioso pra engrossar o caldo do seu discurso moralista (que nem ele mesmo consegue cumprir). Normalmente, é ele quem puxa fofoca com a minha mãe sobre a vida dos vizinhos, o povo do trabalho da minha mãe e o pessoal da igreja, fazendo um julgamento moral nada imparcial de tudo e de todos. Mas nunca olha para o próprio umbigo!

Ele é o cara mais carismático que eu conheço, contudo. Tanto que é uma das pessoas mais benquistas do bairro (já deixei de ser assaltado por um grupo de malacos por que um dos caras reconheceu que eu era "o filho do meu pai").

Também não posso reclamar dele não ter sido um pai carinhoso na infância. Carinho nunca faltou, pelo menos até ele descobrir sobre minha sexualidade. Na adolescência, ele me batia algumas vezes, mas isso nem é o que mais dói. O que mais doia era eu mesmo ter que lavar a minha roupa suja com o meu próprio sangue, sob a ameaça dele de me bater mais, caso eu não fizesse aquilo antes da minha mãe chegar. Hoje fico com raiva de eu mesmo destruir as provas que o incriminariam.

Ele me ensinou a gostar, desde a infância de Secos e Molhados, Chico Buarque, Raul Seixas, Elvis Presley, Música Clássica, Pena Branca e Xavantinho, The Beatles, cantores de bolero e tango como o Carlos Gardel, Roberto Carlos, Pepino di Capri, e o restante de uma salada muito louca de um gosto musical bem diverso.

Acima de tudo ele é um homem extremamente honesto. Devolve troco que vem para mais, nunca o vi fazendo nada desonesto. Prefere ter prejuízo que prejudicar alguém. Talvez isso seja fruto do esforço que ele faz pra agir de acordo com os princípios que ele acredita. Uma pena que ele não dá conta completamente dessa missão impossível que ele escolheu para si...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Esses estranhos da minha família - II (a mãe)

Meados de 2007: Conto para meu pai e minha mãe sobre a minha sexualidade (numa cena que descreverei neste blog em breve). Não sou nada bem aceito...

Janeiro de 2012: Minha mãe me liga (umas duas semanas depois de eu ter pessoalmente dado a ela a notícia que haveria o meu casório com o Maridão) dizendo que estava muito infeliz com a situação. Que não era o que ela havia sonhado para mim (?), que aquilo é contra as leis de Deus e blá, blá, blá... ZZZZZZZZZZ. Falo pra ela que a vida é minha e não dela e que minhas crenças não condenam o que as crenças dela condenam. Ela diz que não adianta conversar comigo e eu digo que ela não conversa: apenas vomita suas "verdades". Ela diz que, então, precisamos nos encontrar pessoalmente e eu marco um dia para conversar. No dia, ela foge de qualquer assunto que causaria conflito e fala somente sobre amenidades.

No dia do meu aniversário e véspera do casório: Minha mãe me liga e sonda com o Maridão (que atendeu o telefone primeiro) e depois comigo se "eu tinha alguma novidade". Respondi que não havia nenhuma novidade "para ela". Ela me responde que do jeito que eu falei, parecia que eu não queria conversar com ela. Respondo que é ela quem não quer conversar comigo. Ela muda de assunto. Conta que meu pai está fazendo um curso para ser cozinheiro. Eu contra-argumento que eu, diferentemente dela, não acredito na velha promessa dele, que vive fazendo cursos e afirmando que vai largar o negócio próprio que só lhe traz problemas e prejuízos. Ela diz que nós devemos ter esperança sempre. Eu respondo que não acredito nas pessoas e que temos que ter cuidado pra não fazer da esperança uma eterna ilusão. Ela diz que eu não posso ser tão amargurado ao ponto de acreditar que ninguém no mundo me ama (?), que todos são vilões (???) e que eu não podia ter tanto ódio do meu coração (?????). Rebato que eu não disse nada daquilo e que disse apenas que eu não alimento esperanças de que as pessoas mudem e que, na maioria dos casos, elas continuam a ser o que são eternamente porque não querem mudar. Minha mãe diz que não podemos perder a fé e que, só o fato de estarmos vivos, nos cria uma dívida moral para com Deus e que, por isso mesmo temos a obrigação moral de ter fé e ser feliz. E arremata que o meu pessimismo só me faz mal. Como última consideração, digo a ela que, ao contrário do que ela pensa, estou sendo bem mais feliz em ser realista e não ficar criando expectativas falsas. E que muito me preocupa que ela tenha esse pensamento de "Alice no País das Maravilhas" de que temos obrigação de ser feliz. Ela me responde que um dia eu lhe darei razão e ela me dirá: "eu te disse!". Eu digo a ela que talvez chegue o dia em que eu não vou dizer nada a ela, mas que ela haveria de pensar no que eu disse. Ela diz que sabe que está com a razão, que Deus está do lado dela e blá, blá, blá... Zzzzzzzz. Começo a responder apenas com monossílabos do tipo "hummmmm", porque aquilo definitivamente não é uma conversa: é um monólogo em que ela "vomita" suas verdades. E isso me dá náuseas.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Esses estranhos da minha família - I (meu irmão)

Eu já pensei várias vezes em postar aqui textos que falassem sobre minha família e minha relação com eles. Mas é algo tão complexo pra mim, pois eu teria que falar sobre tantos sentimentos mal trabalhados e situações que merecem uma análise profunda que eu precisaria fazer uma série de textos sobre o tema família.

E, considerando minha atual falta de tempo, fica difícil programar tal série, organizando quantos texto fazer, o que cada um abordará, qual a melhor sequência, etc. Assim, vivo adiando o assunto.

Mas esse fato aqui dá pra falar de forma isolada que ele não perderá o sentido. Eu tenho noção de como são as pessoas da minha própria família quando vejo que o meu irmão, o mais "mente aberta", publicou ontem numa rede social a seguinte foto:



Achar que ele não presta só porque é homofóbico e escroto o suficiente pra espancar a minha cunhada e minha sobrinha de 7 meses na noite de Natal? Exagero, não é? E o que dizer quando se vê que, dois dias depois, como se nada tivesse acontecido, o seu status na mesma rede social é: "Bom dia, galerinha bacana! Que nosso dia seja maravilhoso e só coisas boas aconteçam!". Hummmmm...

Dizem que temos o mesmo sangue. Nessa hora, eu só concordo com a Regina:

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Se livrando do "lixo mental"


Fazia uns dois meses que eu não ia a casa dos meus pais. E fazia muito tempo que eu não ficava tão à vontade lá. O tempo e as mudanças da vida podem curar as cicatrizes? Eu sempre quis acreditar que sim...

Conversando, por exemplo, com meu irmão pude percebê-lo mais maduro e mais responsável. Me surpreendi com seus pensamentos e confesso que me bateu até uma vontade de conversar mais com ele e... Opa, espera aí!! Não, muito obrigado!!

Aprendi a duras penas que meu irmão é como um cactos. Pode ser de uma beleza exótica conviver com ele dentro de casa, mas provavelmente você vai dedicar atenção para cuidar dele, ele não vai te dar muita coisa em troca e, se você se aproximar muito dele, corre o risco de se machucar. Para evitar atritos, cultivo com ele apenas uma relação superficial.

Enfim, eu precisei de usar o computador e pedi autorização dele que agora é o "dono oficial" do computador que eu comprei... Pra completar a ironia, me surpreendi com o que vi no histórico da internet: havia o registro do site GayTube! Como assim, Brasil???

Num passado distante, eu morria de medo do meu irmão ser gay ou bissexual!!! E já morri de medo do meu melhor amigo (o Bat-Amigo desses dois posts aqui e aqui) ser gay também! Tudo porque eu achava que, por ouvir muita gente dizer, eles poderiam "aprender a ser gays" por convivência, mesmo sem saber. Bobagens aniquiladas tempos depois pelo esclarecimento, ainda sim desejava muito que meu irmão fosse hetero. Afinal, na cabeça pequena de meus pais, ter dois filhos gays não seria nada fácil.

Meu irmão já deu alguns sinais de que poderia ter um pé na "irmandade". Gostar de Shakira (eram só duas músicas, mas...) e de Rick Martin a ponto de baixar o clipe de "Livin' la vida loca" era uma das coisas que me deixava com a pulga atrás da orelha. Ter certos trejeitos "característicos" (poucos, é verdade, mas alguns) também me alarmava. Mas nada se compara à primeira vez que encontrei um site de pornografia gay no histórico da internet! Por isso, essa segunda vez me fez sentir aquele mesmo desespero. O gosto musical, eu bem sei disso, não teria nada a ver (porque se não, eu seria hetero, com certeza!). Os trejeitos poderia ser apenas o aprendizado inconsciente da convivência comigo (que sempre fui o irmão/ídolo/modelo dele). E o site poderia ser apenas um acesso enganado, clicando num link errado, por exemplo. Mas e essa segunda vez?? Novamente começava a pensar e... Opa, espera aí!! Recaída em velhos hábitos mentais de novo? Não, muito obrigado!!!

Por muito tempo eu rezava para que ele fosse hetero. Depois comecei acreditar que, provavelmente ele seria hetero (porque nunca percebi nenhum olhar diferente para pessoas do mesmo sexo, nunca conheci um "amigo suspeito"...). Até porque, se ele fosse gay e as namoradas fossem só um disfarce, ele não precisaria levar tão a sério a encenação ao ponto de ser "o" pegador da turma. Não precisava fazer o papel canalha de se envolver com três mulheres ao mesmo tempo. Enfim, tudo parecia indicar que ele gosta de mulher. É claro que ele poderia ser bissexual também, mas não seria muita coincidência?

Quando resolvi eliminar meu "lixo mental", cheguei a conclusão que esse tipo de preocupação era algo que não fazia sentido eu ter. A sexualidade dele era um problema dele e não meu. O impacto que meus pais teriam de perceber que têm dois filhos "diferentes do que eles sonharam" era um problema deles e não meu.

Mas agora vem isso e me faz perceber na prática que o processo de mudança de posturas mentais é algo que envolve avanços e retrocessos. Pouco importa afinal se o irmão do Leão aqui for um veado ou uma hiena. O que importa é eu me preocupar com o meu bem-estar mental. E lutar contra velhos hábitos é mesmo um exercício de paciência...
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