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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A quem interessa o apagamento dos bissexuais e da bifobia???

Ai a gente vai lendo coisas pela internet e cai num texto que se chama "Não existe bifobia". Confesso: quase não consegui lê-lo todo! A vontade de vomitar era forte demais! Cada coisa horrorosa escrita, que dava vontade de cortar os pulsos e desistir da humanidade!

Eu poderia repudiar cada caractere deste texto, mas vou me concentrar no cerne do seu título e no pressuposto que tenta manter de pé a ideia por ele defendida:

"Uma “fobia social”, no sentido em que enquadramos racismo, homofobia, misoginia, depende da EXISTÊNCIA DE UM SISTEMA HIERÁRQUICO E/OU DE CLASSE, BASEADO NA EXPLORAÇÃO, SEGREGAÇÃO, DEGRADAÇÃO E SUBJUGO DE UM GRUPO DE PESSOAS. Isso não existe em relação a pessoas bissexuais."

Pensando dessa forma... Existe sim, bifobia, da mesma forma que existem as outras opressões citadas. E vou combater esse mito que quer destruir o conceito de bifobia com minha argumentação abaixo.

Bifobia é um sistema no qual pessoas monossexuais são consideradas hierarquicamente superiores às bissexuais. Uma prova disso é o privilégio que elas têm de fazer um texto falando sobre uma opressão que elas não vivenciam e neste texto reduzir bissexuais a meros vetores de DSTs, desumanizando-as. Ou seja, hierarquicamente, a voz de monossexuais sobre as vivências bissexuais é mais valorizada. Aí vão me dizer: "Ah, mas foi uma pessoa bi quem escreveu o texto". E não existem mulheres escrevendo textos com conteúdos machistas, defendendo ideias machistas por aí? Pois pra mim é a mesma coisa: a voz monossexual se faz tão forte que domina o discurso até de algumas pessoas bissexuais. A própria transformação das pessoas bissexuais em "vetor de DSTs" é uma forma de hieraquização: lésbicas = "mulheres limpinhas", higiênicas, saudáveis > (maior que, ou "melhor que") mulheres bissexuais = "mulheres sujas", não-higiênicas, portadoras de doenças.

Bifobia é um sistema de exploração no qual pessoas monossexuais são beneficiadas pela violência que nos acometem. Para pessoas heterossexuais cis, somos apenas mais um grupo a se considerar como subalterno, o qual se pode condenar a ameaças como possibilidade de demissão de emprego e, devido ao medo de ficar sem nenhum emprego, obrigar a pessoa a receber salários menores (ver estudos feitos em 2001, 2004 e 2008 por Plug e Berkhout, nos quais se aponta que na Holanda, lésbicas tendem a ganhar 4% a mais que mulheres bissexuais - http://goo.gl/a0Xmkz ), além de possibilitar negligência da atenção governamental em políticas públicas que atendam as nossas especificidades. Para pessoas monossexuais que não são heterossexuais cis, somos um grupo dentro da comunidade LGBT (olha, tem um "b" ali! o que ele significa?) que serve apenas como "massa de manobra'. Engrossamos o coro que traz benefícios específicos para a população "L", "G" (principalmente) e "T", mas pra gente mesmo nada é feito. Pq "bissexuais não existem" mesmo, né? "É só uma fase"... E nem sofrem opressão de verdade!!! Opressão de verdade é só homofobia e machismo. Lesbofobia é estilhaço de machismo, seguindo a mesma lógica. Transfobia é estilhaço de homofobia e/ou machismo. Bifobia então... é uma coleção de estilhaço! Tudo é só estilhaço! Como se a solidão de pessoas bissexuais que existe por conta da famosa frase "namorar pessoa bissexual? Vai que essa pessoa me troca por alguém de outro gênero" não beneficiasse as sexualidades monossexuais. Olha aí as lésbicas se beneficiando por tirar as mulheres bissexuais da "concorrência"! Olha aí os gays se beneficiando por tirar os bissexuais da "concorrência"! Usam nossa identidade pra agregar em seu grupo mais poder político e depois se sentem no direito de dizer que não sofremos opressões e que somos pessoas menos dignas de confiança (Pq não somos capazes de manter um relacionamento monogâmicos e, na verdade, somos meros "vetores de DSTs")!!! Mas isso não é exploração... a gente só sofre coisinhas bestas e reclama por puro mimimi...

Bifobia é um sistema de segregação, no qual pessoas bissexuais são condenadas à invisibilidade e discriminadas dentro de espaços LGBTs e também fora dele! Não há espaço para bissexuais terem voz ativa, se não no gueto bissexual! Até o fato da sociedade não imaginar que um casal composto por um homem e uma mulher pode ser composto por uma ou duas pessoas bissexuais já é sintomático da invisibilidade que sofremos! Essa invisibilidade nos segrega, destrói nossa auto-estima e permite ao governo não pensar em políticas públicas para nós! Quando uma lésbica decide não se relacionar com uma mulher bissexual, ela não está nos segregando, mas apenas "tentando preservar sua integridade física e emocional"!!! Uma frase tão higienista usada como escudo para mascarar a bifobia gritante! Enquanto isso, pesquisas sugerem que a saúde psicológica de mulheres bissexuais é que deveria ser alvo de preocupações de quem pretende "preservar alguma integridade emocional" ( http://goo.gl/m0m8LY ).

Bifobia é um sistema de degradação e subjugo, claramente perceptível nos relatos acima. Nos degrada também ao nos colocar numa condição de ter a sexualidade sistematicamente questionada, deslegitimada (o que acontece até com a opressão que sofremos - "Bifobia não existe!"). Nos degrada na hipersexualização da pessoa bissexual. Nos degrada e nos subjuga quanto nosso Movimento e os conceitos que usamos para nossa luta política são deslegitimados (como se fosse tudo "mera invenção e devaneio"), afinal é retirada de nós até nossa autonomia de compreender as nossas próprias vivências! Somos menos capazes de fazer uma análise do que vivemos, é isso? Se não fosse um sistema de degradação e subjugo, como explicar o fenômeno revelado por um artigo em que, estatiticamente, fica evidente que mulheres bissexuais experienciam taxas mais elevadas de violência por parte dxs parceirxs e de violação em relação a mulheres lésbicas e hetero e que homens bisexuais tambem reportam mais violência sexual (http://goo.gl/9TNrwW)?

Assim como pessoas brancas tendem a dizer que racismo não existe, homens tendem a não enxergar o machismo, monossexuais tentam dizer que bifobia não existe e muitos bissexuais reproduzem essa ideia!

A quem interessa que se consolide a ideia de que bifobia não existe? Quem são as vozes que querem destruir esse conceito poderoso? Fica a sugestão de leitura: Bifobia: um conceito legítimo – e potente!

Poderia dizer muito mais, contudo teria que me delongar demais. Fiquemos por aqui!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Rola usar rola como ofensa?

Na sexta-feira da semana passada, em resposta a uma provocação via twitter, Ricardo Boechat acusou ao vivo em seu programa o malditinho do Malafaia de ser:

- Charlatão
- Homofóbico
- Otário
- Paspalhão
- Pilantra
- Explorador do suor alheio
- Tomador de dinheiro de fiel
- Explorador da fé alheia
- Figura execrável, horrorosa
- Uma pessoa que só quer palanque

Nisso ele acertou! Malafaia é tido isso e muito mais!

CONTUDO, Ricardo Boechat errou feio em muita coisa! Desde quando "procurar rola" resolve alguma falha de caráter? Só na imaginação da cultura falocêntrica em que vivemos que "problemas" como mulher brava, homem babaca, gay agindo mal, homofobia e lesbianidade se resolvem com rola. Fora isso, empregar o termo "idiota" como ofensa é usar de um capacitismo sem fim. Se posicionar contra esse otário só depois de ter recebido uma ofensa dirigida a si mesmo não é mérito nenhum.

Por isso, não vou bater palma pra hetero escroto (galera da "Band News" tá bem longe de ser "bacana"...) que usa de capacitismo, homofobia e falocentrismo pra "combater" esses vendilhões do templo contemporâneos. Só porque ele falou verdades, não vou ficar venerando opressor que reforça o patriarcado (que mata milhões de pessoas).

Enquanto qualquer um dos adjetivos que Boechat usou pra descrever Malafaia for uma ofensa for menor do que "a necessidade de encontrar uma rola", esse mundo continuará tendo pessoas com essas características nefastas (pois são "pecados menores" que o fato de se "gostar de rola"). E será normal ouvir frases como "prefiro filho bandido que viado", "a maior decepção de um pai é uma filha vadia" e coisas assim.

Aguardo ansiosamente pelo dia em que "canalha" e "desonesto" sejam ofensas muito maiores e indignas que qualquer coisa que aproxime o alvo do feminino como forma de ofensa.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

#EuTambémEstouNaCruz

Não, você não sofreu um ataque. Você viu uma metáfora que mostra uma verdade que incomoda e isso fez aflorar seu ódio. E é apenas isso: ódio! Não é, nem nunca foi, ofensa. Sabe o que é que ofende? A transfobia!!!

Sim, as pessoas trans* são "crucificadas" (metáfora, lembra?) todos os dias APENAS por ousarem a ser quem elas são. Este é o grande "pecado" delas e a sentença é a mesma do personagem representado: são sentenciadas à morte (literalmente) por serem marginais em seu tempo! Aliás, um dado curioso: a expectativa de vida de uma travesti no Brasil é entre 30 e 35 anos. Qual foi mesmo a idade em que Jesus foi crucificado?

Quando falamos "fulano está sendo crucificado injustamente", a metáfora é a mesma. Qual a sua dificuldade em entender isso? Faltou Ensino Fundamental? Sobrou fanatismo cego? Preferiu seguir a opinião alheia do que ter o trabalho de pensar por si mesmo?

E não é a forma como é feita a representação que ofende: é a atriz (e o seu suporto pecado) quem "mancha" o personagem santo. É a ousadia de ser mulher e representar Jesus (qual motivo proíbe as mulheres de representar artisticamente uma figura santa?). É o fato de ser alguém LGBT que faz seu ódio vir à tona.

E, apesar de não ser o caso, é importante saber: sim, podemos criticar o fanatismo religioso. Ele é uma ameaça real e causa danos reais. Só que não vale criticar SOMENTE o fanatismo do coleguinha islâmico. Qualquer fanatismo religioso deve ser passível da mesma crítica, porque sabemos que o ser humano é capaz de fazer coisas mais cruéis do que qualquer demônio descrito por religiões baseadas em divindades de amor. "Je suis Charlie" ou "Je suis Charlie, Charle, are you here?"???

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A maldição da binaridade (ou Algoz de nós mesmos)

Conversando ontem com um amigo, ele afirmou que uma pessoa que sofre um tipo de opressão não pode ser considerada opressora (tipo: mulheres não podem ser consideradas machistas, negros não podem ser considerados racistas, etc.). Seu argumento afirmava que há uma diferença entre ser homofóbico e reproduzir ideias homofóbicas, pq uma pessoa homossexual não tem poder na sociedade para ser opressor. E só oprime quem se beneficia disto. Afirmar o contrário abriria brecha para a culpabilização da vítima. Discordei veementemente! Para mim, tal raciocínio é falso, simplista e perigoso... Mas, para explicar meu ponto de vista, preciso fazer considerações anteriores.

Vivemos numa sociedade que tem um pensamento binário, a priori, para tudo. Para nos expressar, utilizamos majoritariamente como referência polarizações de dois extremos. Muito/pouco, seco/molhado, alto/baixo, nada/tudo, positivo/negativo, grande/pequeno, dia/noite, rico/pobre/, vazio/cheio, claro/escuro, diabo/deus, culpado/vítima, bem/mal, herói/vilão, mulher/homem, gay/hetero, PT/PSDB...

Mas, êpa!!!! O mundo é feito de extremos mesmo? Não existe intermediários? Pra a nossa mente, às vezes, parece que não. Contudo deveríamos nos questionar sobre esse tipo de pensamento, especialmente quando falamos das últimas 6 polarizações...

As pessoas do mundo real não são genuínas expressões desses contrastes. Somos cheios de contradições, geralmente distantes de sermos definidos completamente num polo dos nossos conceitos de mundo. Não somos iguais às novelas, nas quais o vilão não tem nada de herói e as pessoas podem ser facilmente categorizadas em boas ou más. No mundo em que vivemos, ninguém é 100% bonzinho e nem 100% malvadão.

E, quando a gente fala da relação opressor/oprimido, a gente cai na maldição do binarismo e não consegue enxergar a nuances que temos entre os extremos. Ser machista, racista, transfóbico, bifóbico, homofóbico, lesbofóbico, xenofóbico e ademais formas de se oprimir uma classe não tem nada a ver com "ser 100% mal". Cada uma dessas opressões existe de forma sistêmica em nossa sociedade e não se trata apenas de ter uma ideia errada ou "fazer uma coisa feia aos olhos dos outros", mas de reduzir todas as pessoas a meras engrenagens que têm função de manter o sistema em que vivemos funcionando. Essas opressões são estruturais, corroboradas pelo Estado e suas consequências são historicamente perpetuadas de forma cumulativa. O objetivo desses sistemas de opressão é manter relações de poder e, assim, subjugar seus "alvos". Daí, a nossa tendência é buscar um culpado pra detonar e nos livrar do sistema de opressão. Mas - surpresa! - não é tão fácil assim!

Quando reduzimos a questão a um grupo de "vilões" e outros de "vítimas", sofremos da maldição da binaridade e fazemos uma análise incompleta. Temos a tendência de esquecer que, quando prejudicamos alguém, nem sempre nossa motivação é se beneficiar. Por exemplo: meus pais me expulsaram de casa quando eu lhes contei que sou bissexual. Isso até hoje traz problemas para mim e para eles. Simplesmente destruiu nossa relação familiar, nossa convivência e até hoje nós lutamos para reconstruir o que foi devastado. Vou dizer que meu pai e minha mãe (heteros) não cometeram bifobia comigo só pq eles não foram beneficiados? Infelizmente, nós todos somos vítimas e engrenagens num sistema bifóbico. Nada mais que isso. Mas a ação que eles cometeram só pode receber um nome: bifobia! Naquele momento, a bifobia se manifestava por meio dos meus pais, mesmo que eles nem tivessem consciência disso. Não fizeram por uma vilania, por uma maldade. Se a gente reduz bifobia apenas a atos genuinamente vilanescos, como combater que filhos sejam expulsos de casa por opressões do sistema (mulheres por serem "mães solteiras" - denotando machismo -, pessoas por serem LGBTs, etc.)?

Além disso, uma pessoa que sofre uma opressão pode sim oprimir outras pessoas. Fora as opressões óbvias (um homem bissexual branco pode ser racista e machista), existem aquelas que contrariam quem defende que não há opressões dentro da própria classe. Um homem gay pode repetir ideias homofóbicas e, assim, contribuir para a perpetuação desse sistema quando, por exemplo, chama outro gay de "bichinha" como forma de ofendê-lo numa roda de amigos. Por que a mesma ação com a mesma intenção vinda da boca de um hetero seria homofobia e de um gay não? Vamos convir que não é só porque a pessoa sofre preconceitos e opressões que ela magicamente fica isenta de reproduzir e ser um agente ativo neste sistema que vivemos. Já dizia o educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Mas Simone de Beauvoir deixa ainda mais claro o que eu quero expressar quando ela diz que "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Para clarear mais sobre esse assunto, recomendo a leitura do (honesto, franco e bem escrito) texto "O Elefante Branco na Sala: Relacionamento Abusivo entre Mulheres" do Bi-sides (blog que amo demais!!!!).

Fazendo essa análise, percebemos que TODOS SOMOS CULPADOS (em maior ou em menor grau) pela manutenção das opressões, pois o sistema nos reduziu a engrenagens, bombardeando desde o nosso nascimento suas ideologias, minando a autoestima de seus alvos e fazendo-os aceitar um processo de "coisificação". Mas esse não é um caso de "já que todos somos culpados, dá no mesmo que ninguém seja culpado e não é preciso fazer nada". Temos a obrigação moral de destruir esses sistemas de opressões simplesmente pq eles são injustos e cruéis. Bilhões de vidas são massacradas por essas opressões e não podemos simplesmente não fazer nada. É preciso reconstruir nossa forma de conviver em sociedade, passando pela mudança do nosso interior e do exterior também.

Neste ponto do texto, já prevejo comentários dizendo: "mas essa sua fala abre brecha para culpabilização da vítima, sim!". Não abre não. Sabe por quê? Por que existe uma coisa chamada INTENÇÃO e esta faz toda diferença pra determinar de quem é a culpa. Uma mulher quando sai na rua com uma roupa que algumas pessoas consideram como "curta demais" não está com a intenção de ser estuprada: ela o faz apenas pq se sente bem com aquela roupa. Um homem gay quando é morto por um garoto de programa num motel não foi pro motel com a intenção de ser assassinado: ele apenas queria viver a própria sexualidade da única forma em que, em alguns casos, ele consegue vivenciá-la (normalmente, a sociedade não lhe deu outra opção de vivenciar a própria sexualidade). O agressor, nesses casos, tem a nítida intenção em prejudicar. Não é evidente a diferença de intenções entre vítima e culpado? Isso para questões legais é fundamental (além da clareza do legislador em tipificar o crime - que, para evitar injustiças cometidas pela subjetividade de quem julga, devem ser definidas do modo mais objetivo e concreto possível).

Prevejo, também, alguém comentando: "Ah, Cara Comum, mas vc mesmo disse que no mundo real temos mais nuances e fica complicado polarizar vítima/culpado...". Sim, eu disse isso! E é por isso que acredito que toda análise deve ser feita levando em consideração o máximo de fatores possíveis e que não podemos ser simplistas. Meus pais não tem culpa de terem sido bifóbicos comigo: eles apenas não tinham consciência da bifobia que cometiam. Eles, tanto quanto eu, têm que se dedicar a desconstruir isso dentro da cabeça deles e no convívio familiar (e social).

Seria ótimo haver formas simples de resolver problemas complexos, mas não há. A solução para o simplismo da "culpabilização da vítima x" não pode ser o simplismo do "grupo x é sempre vítima de y". Precisamos ir além disso e, mesmo não tendo culpa (ou todos a tendo), nos livrar dessa herança maldita. O baralho já está com as cartas marcadas e não dá pra simplesmente começar um novo jogo: precisamos trocar o baralho e começar tudo de novo...

segunda-feira, 9 de março de 2015

A vítima não tem culpa!

Não importa se a notícia é um estupro, se é uma agressão à uma pessoa LGBT que andava desacompanhada pela rua, se é sobre um furto, um acidente de carro, um golpe de estelionato: tem sempre alguém pra fazer o agressor dividir parte da culpa com a vítima. E olhe só: não basta vc ter sofrido uma violência, pq vc ainda vai ser culpada por sofrer aquilo! Ou seja; a agressão vem em dobro! A culpabilização vem em frases como:

"Ah, mas a mulher tava andando num lugar que não é muito movimentado. Daí, virou alvo fácil pro estuprador!""Mas também o viado tava se arriscando demais andando na rua dando essa pinta toda. O nosso mundo é homofóbico, gente! A bicha tem que disfarçar melhor!"
"Gente, mas carnaval é cheio de pessoas e o cidadão vacila deixando a carteira no bolso de trás? É claro que iria ser roubado!"

Na boa: que mundo é esse onde ser inocente ou ingênuo é algo digno de culpa? Seguindo esse raciocínio, daqui a pouco todos os tipos de criminosos andarão livres e a gente será culpado sempre que "dar a bobeira de sair de casa". Teremos que dar razão também a argumentos como: "Mas a culpa foi dele também porque tava viajando no carnaval. Todo mundo sabe que muita gente dirige bêbado nessa época do ano. É lógico que ele iria sofrer acidente na estrada! Tinha mais é que ficar trabalhando no feriado e não se arriscar viajando..."

Nas entrelinhas, quando alguém culpa a vítima por não ter sido "esperta o suficiente" pra se precaver, a gente tá dizendo que o agressor tinha o direito de fazer aquilo com alguém que fosse ingênuo e/ou mais frágil. A gente está concordando parcialmente com a existência desse ato, quando a gente não o repudia totalmente e não põe a culpa 100% no agressor. Esse discurso é repetido e serve como "alívio moral" pro agressor que pensa: "a vítima mereceu, pq deu bobeira". Quem repete esse discurso de culpabilização tem que pensar que é essa a mensagem que se passa quando atribui parte da culpa pra vítima. E cada um é agente de transformação desse mundo!

O mundo só vai parar de ter estupro quando pararmos de ensinar mulheres a não serem estupradas e ensinarmos aos homens a não estuprar. Só não haverá mais golpes de estelionato quando ensinarmos que não se deve cometer esse crime e não que devemos evitar de sermos vítimas dele. Só haverá fim da violência quando ensinarmos a não violentar e pararmos de ir pela estratégia ineficaz de ensinar a não ser um "alvo fácil". Temos que nos inspirar na reação dessa mãe ao descobrir que seu filho publicou um vídeo íntimo de sua namorada na internet:


E nem adianta tentar comparar a culpabilização da vítima com atitudes de prevenção, como quando se quer evitar uma doença. A prevenção de uma doença não é um paralelo válido porque o agente etiológico não escolhe intencional e conscientemente seu hospedeiro com intuito de lhe fazer mal. Uma pessoa que escolhe ser o agressor o faz conscientemente e é isso que deve ser combatido. Ela não pode ter nenhuma escusa! Só faremos a transição desse mundo real, inseguro e assustador para um mundo mais justo quando a gente colocar nossas energias 100% voltadas para quem agride e não ficar relativizando sobre "a parte da culpa da vítima".

Vítimas do meu Brasil, alegrai-vos: eu vos declaro inocentes!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Não é preconceito: é só meu gosto!

Tenho em meus círculos sociais um cara, que chamarei aqui de Narcisista Iludido, que reclama de estar solteiro e que as pessoas o procuram somente para sexo. Contudo ele é um cara daqueles que faz academia, utiliza anabolizantes e posta foto sem camisa no Instagram/Facebook com mensagens de reflexão na legenda da foto. Obviamente, o povo curte não a mensagem, mas a foto e o que ele consegue com essa postura é mais convites para sexo do que necessariamente alguém interessado em namorá-lo. Mas, para piorar, quando ele recebe uma interação que demonstre um interesse em um relacionamento mais duradouro, o Narcisista Iludido repete aquele discurso tão difundido de "não sou e não curto efeminados". Se alguém o acusa de preconceito, ele se defende dizendo que não sente tesão por pessoas efeminadas e que um relacionamento sem tesão não daria certo. E que, portanto, é uma questão só de gosto e não de preconceito!

E ele não está sozinho! "Não é preconceito: é só meu gosto!" é uma das frases mais usadas por quem diz que "não é nem curte efeminados", quando são confrontados por alguém que diz que seu gosto reflete um preconceito e uma discriminação.

O problema é que pessoas que dizem isso nunca questionaram a grande "coincidência" desse ser um tipo de gosto tão comum no universo gay em que vivemos. Tomo por base as ocasiões em que eu afirmo me sentir atraído fortemente por homens efeminados: em geral, a simples revelação do meu gosto pessoal choca o ouvinte que, geralmente, discorda de mim e acha "muito feio" ou "esquisito" essa galera efeminada linda do meu Brasil. Por que existe uma esmagadora maioria com gosto semelhante e apenas alguns "divergentes" da norma? Por que a fala de alguém que aprecia efeminados gera uma reação de choque na maioria dos ouvintes? Eu só consigo ver uma explicação: um preconceito chamado de homofobia!

Mais uma vez, eu gostaria de quebrar essa associação maluca que as pessoas têm de que uma pessoa homofóbica, racista ou que tenha qualquer outro tipo de preconceito discriminatório é uma pessoa má, que faz aquilo de forma consciente. Não! A vida prática é diferente das novelas e uma pessoa nunca é só boa ou só má. Nós somos mais complexos que isso! Na maioria dos casos, a pessoa está tão imersa na nossa cultura racista/machista/homofóbica/whatever que não consegue ver que ela reproduz um absurdo (tanto que aquilo lhe soa como algo "natural").

É preciso que a gente entenda: o tal do gosto é uma mistura da nossa individualidade, da nossa trajetória pessoal e de uma bagagem cultural que recebemos. E a cultura influencia MUITO em nossos gostos pessoais! Não acredita? Bem, talvez seja interessante pensar em como os padrões de beleza se alteraram ao longo da história acompanhando as mudanças culturais de cada época. Ou pensar nos padrões de beleza em culturas diferentes da nossa e perceber que os nossos modelos de beleza seriam considerados feios em tais culturas.

Outra coisa: por que a necessidade de se afirmar "não efeminado"? Qual a raiz disso? Homofobia internalizada, óbvio! O Narcisista Iludido é desses que fica preocupado se está "rebolando demais", se está "agindo de forma muito efeminada"... Uma neurose sem fim! Se afastar do modelo de feminino e se aproximar do modelo de masculino, na maioria das vezes, reflete a homofobia internalizada e nada mais que isso. É tão claro isso que não sei como deixar mais óbvio!

Porém, mesmo tendo uma ligeira noção de que padrões de beleza são moldados por ideologias sociais vigentes, ainda tem muita gente que continua a repetir a frase "não sou, nem curto efeminados" como um mantra a ser perpetuado, afinal é só gosto! Não, galera! Não é só gosto! Um gosto nunca é "só gosto". Se não fosse a nossa sociedade machista/racista/homofóbica ditando um padrão do que é ser um "homem" e o que é ser uma "mulher", talvez o nosso padrão de homem atraente (e até mesmo o de mulher atraente) fosse bem diferente do que é hoje...

Na prática, esse tipo de discriminação preconceituosa é ruim para ambos os lados. Os alvos da discriminação (efeminados) perdem com um diminuto número de pretendentes a ter qualquer tipo de relação amorosa/sexual. Mas também perde quem discrimina, pois o seu preconceito limita suas possibilidades de conhecer alguém interessante e que se tenha uma afinidade/compatibilidade para qualquer tipo de relação amorosa/sexual.

Mas, o que fazer se alguém percebe que o próprio preconceito o limita? Bom, assumir o próprio preconceito já é um importante passo. Reconhecendo a existência dele em si mesmo permite que a gente lide melhor com a situação, na medida em que gera a possibilidade de escolha entre combater o próprio preconceito internalizado ou aceitar as consequências de ter uma vida limitada pelo próprio preconceito.

Quem escolhe a primeira opção, além de ter a chance de fazer um grande bem para si, demonstra grande solidariedade ao combater um preconceito que é muito mais danoso ao outro que a si mesmo. Quem escolhe a segunda opção, além de amargar a perda de novas possibilidades, deve, no mínimo, se policiar para impedir a externalização daquele preconceito (o que geraria mais uma fonte de um modelo discriminatório/homofóbico que tanto mal faz aos outros - e a si mesmo também).

Combater a possibilidade única imposta pela sociedade é respeitar outras pessoas e expandir o nosso próprio universo.


Homem atraente (= tatuagem no rosto) na cultura da tribo dos maoris (Nova Zelândia - Oceania)
Mulher atraente (= pescoço longo) na cultura da tribo dos karenis (Mianmar - Ásia)




Homem atraente (= lábios alongados por um disco) na cultura da tribo dos botocudos (Brasil - América)


Mulher atraente (= ter cicatrizes) na cultura da tribo dos karo (Etiópia - África)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ainda na resistência

Esses dias não foram fáceis pra mim. Eu já falei isso aqui no blog (em mais de uma ocasião, mas não vou linkar todas... :P ), mas luto contra uma depressão que insiste em me acompanhar faz algum tempo. E, às vezes, tenho uns episódios em que ela vem com mais força ou que a medicação não aguenta o tranco...

Nas semanas retrasada/passada, eu fiquei treze dias afastado do trabalho por conta de um desses episódios. Ele me fez reavaliar um monte de coisas. A primeira delas foi: preciso cuidar mais de mim! Essa descoberta não é propriamente uma novidade, mas me fez repensar o quanto de força eu tenho e o quanto eu acho que eu tenho pra encarar meus problemas de frente. De vez em quando, o melhor mesmo é não querer resolver a situação, mas apenas lidar com ela... Acho que esta é a grande lição!

Por conta do desgaste mental, da minha necessidade de repouso e também pela baixa reação por parte dos leitores desse blog, decidi não concluir a minha série de postagens sobre as eleições de 2014. Acredito que o que já foi dito já serviu a mim (como uma forma de compartilhar o que penso) e a quem poderia se interessar pelo tema. O restante seria também muito importante, mas não posso me comprometer a fazer algo que não conseguirei fazer em tempo hábil e que não trará um ganho que faça valer a pena o esforço de tentar.

Mudo também alguns hábitos alimentares (em parte, inspirado pelo Homem, Homossexual e Pai - rumo ao veganismo) e a rotina diária. Larguei o segundo emprego e que se fodam as dívidas já feitas: já sobrevivi a complicações financeiras maiores do que essa antes e não vai ser dessa vez que morro por falta de grana...

O gatilho para a ocorrência desse meu período de "baixa", talvez, tenha sido o cansaço. Ou os ajustes na dosagem da medicação. Ou as pequenas frustrações que carrego comigo (todas muito pequenas, mas que, somadas, fazem um barulho grande, como uma nuvem de insetos quaisquer). Pouco importa o motivo. O que importa é que eu estou seguindo em frente com um aprendizado depois dessa queda.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A-deus

E daí que meus caminhos pela vida me fizeram seguir aquela coisa do REM de perder a minha fé. Não só perder minha fé na existência de algum deus, mas a fé na humanidade como um todo.

O raciocínio lógico, de que é muito pouco provável haver alguma divindade, me trouxe uma paz que eu não esperava alcançar com essa descoberta. Hoje, eu não coloco o que a mim sucede na conta de um ser invisível, nem conto com forças externas para vencer os desafios da minha vida. E isso é muito bom para eu aprender a me virar com minhas próprias forças porque, no mundo em que vivemos, raramente virá alguém em nosso auxílio - e esta é uma realidade que temos que encarar. Se não for através do nosso próprio esforço e do desenvolvimento da nossa força (seja ela interior ou exterior), infelizmente a gente não sai do lugar.

É libertador descobrir isso. Não ficar achando que haverá um milagre que vai nos salvar, nem que haverá uma interferência externa em nossas vidas. Sem príncipe encantado, sem filho do homem para nos salvar. A vida é dura e injusta. Temos que verter todo o nosso suor para avançar alguns milímetros. Mas temos o poder em nossas mãos.

"Consider this:
the slip that brought me
to my knees failed.
What if all these fantasies
come flailing around?
Now I've said too much...

I thought that I heard you laughing.
I thought that I heard you sing.
I think I thought I saw you try.

But that was just a dream.
Try! Cry! Why, try?
That was just a dream.
Just a dream, just a dream, dream..."

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O preço pago pelo que não queremos comprar

Essa semana me peguei pensando no quanto é difícil se reconstruir psicologicamente, depois que se é ferido durante grande parte da vida por um mundo que te faz acreditar que você é um ser inferior, indigno de felicidade. Estou falando de eliminar a homofobia internalizada e todo o sofrimento que vem junto com ela.

Os agressores, quando muito, acham que as desculpas bastam e que poucas palavras irão apagar o que fizeram. Contudo, quem segue durante muito tempo tentando lidar com a dor enraizada e arcando com todos os custos (financeiros, emocionais, sociais, etc.) somos nós, as vítimas da agressão.

Daí, eu acho um absurdo escutar um amigo que, nessa semana, me diz a seguinte frase: "ah, mas isso que você passou serviu para você se tornar uma pessoa melhor". Entendo o que ele quis dizer e porque disse essa frase. Ele queria me fazer enxergar um lado positivo em toda a agressão sofrida.

Contudo, eu não quero ser uma pessoa melhor. Eu só quero existir, sem ter que ser agredido pelo que eu sou. Seria pedir demais?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O bom, o mau e o homofóbico

Tenho dois amigos que tem a cabeça muito aberta pra maioria das coisas,  mas são muito reacionários para outras questões. Eles são o Amigo Urso Panda (que foi "coadjuvante" neste post) e a Amiga Gênia.

Falando assim, não parece nada digno de nota, já que isso poderia ser dito para a maioria das pessoas (afinal, todos nós temos nossos preconceitos, infelizmente...). Mas esses dois amigos vão além da média: eles fazem campanha ardente e apaixonada para defender suas posições "equivocadas", mas quando estão "perdendo" uma discussão, eles param de discutir, alegando que, se expressarem seu ponto de vista, serão taxados injustamente de "homofóbicos/racistas/whatever" e apedrejados em praça pública. E não é raro essa esquiva surgir no meio de uma conversa amena, sem o indício de que o clima iria esquentar... Por esse tipo de reação e por outras atitudes,  eu acredito que eles sejam sim "homofóbicos/racistas/mimimi-para-tudo-que-for-diferente-de-mim" e só não conseguem admitir isso para si.

Eles já me fizeram pensar um monte de vezes numa tendência que as pessoas têm de tornar tudo uma caricatura grosseira da realidade. Como se quem fosse homofóbico fosse uma pessoa extremamente má, tipo um vilão de novela mexicana. Parece que as pessoas em geral só conseguem encarar os extremos "bem/mal" e não conseguem enxergar que existe muito mais no meio desse caminho. No mesmo barco, podemos incluir pessoas que combatem ferrenhamente quem elas consideram como homofóbicos. Afinal, essas pessoal enxergam a pessoa que pratica atos permeados de homofobia como um "monstro que deve ser exterminado".

Querem saber de uma novidade? Vivemos numa cultura que é racista, machista, homofóbica, transfobica e que tem outras qualidades do tipo. Então, mesmo que seja em pequeno grau, todos nós aprendemos com a cultura em que fomos criados a ter essas características. Então, não tem jeito: todo mundo é homofóbico!

"Ah, mas então, se todo mundo é homofóbico, não tem problema eu continuar a agir do jeito que eu sempre ajo..." Nananinanão!!! O que vc é pouco importa para os outros, mas o que você faz sim! E você pode escolher não ter atitudes homofóbicas! Pode odiar quem você quiser, mas fica com esse ódio só pra você! Você pode também lutar, não contra pessoas homofóbicas, mas contra atitudes homofóbicas! Ao invés de dizer o óbvio "você é preconceituoso" (como se alguém fosse isento de o ser), por que não dizer "sua atitude x foi preconceituosa"? É mais eficiente para esclarecer as pessoas. E esclarecer é o melhor caminho para que, um dia, nossa cultura não seja mais "[insira aqui o nosso preconceito e aversão patológica pelo 'diferente']".

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Um perfil para mim

Já falei sobre meu amplo gosto relacionado a mulheres e homens, mas foquei no aspecto físico. Hoje, arrisco-me a falar sobre um perfil psicológico que me atrai. Sim, isso mesmo: eu disse um perfil. Somente um. O único que tem uma força de conquista mais avassaladora sobre mim. Perto dele, os outros perfis que me atraem são meros coadjuvantes...

Concluí que, inconscientemente, gosto do estilo "pessoa brilhante, mas com um probleminha"... (Meu masoquismo mandou beijos agora!)

Falo de gente que parece forte e bem resolvida, aquelas pessoas que se destacam, mas quando se conhece com mais atenção, são complicadas e problemáticas. Cheguei a essa conclusão analisando as semelhanças entre meus ex-namorados e minhas ex-namoradas.

Todos eles eram líderes natos, carismáticos, marcantes, muito falantes, inteligentes e articulados. Mas, percebendo-os num exame mais cuidadoso, são pessoas com inúmeras questões mal resolvidas, frágeis emocionalmente, porém com um ego prestes a explodir.

Essa é uma imagem que descreve meus (e minhas) "ex's", grande parte dos meus amigos, meus pais e praticamente todas as pessoas a quem eu tive ou tenho algum apreço. Em última análise, essa é uma imagem que me descreve também.

Ou seja, inconscientemente, eu procuro para conviver gente extremamente complicada como eu! Pra que simplificar a vida, não é? Dá pra entender, Brasil?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Resumo da Ópera

Estive pensando que seria importante contar o que mudou durante a minha ausência por aqui. Ainda não sei como fazê-lo e depois de muito pensar sem chegar a uma decisão, resolvi apenas escrever, sem compromisso de nada. Vou me deixar guiar até o final deste texto e ver o que sai. Muita coisa realmente se modificou em mim e na minha vida, enquanto outras apenas confirmaram que o melhor é ser como são.

Continuo casado com o Maridão, e nisso não sinto que há nada a se modificar. Continuo a descobrir que o amor é construído no dia-a-dia e em cada ação (ou omissão). Maridão não é perfeito, obviamente, nem eu o sou. E não tenho com ele uma pretensão de viver um amor eterno, que isso não existe. Eu apenas concordo com Lô Borges quando diz que "eu só preciso ter você por mais um dia". Acho que é por isso que todo dia eu digo a ele que quero continuar esse casamento. Desta maneira, nada a se alterar nesse aspecto.

Com relação a minha família, talvez aqui eu tenha feito a maior mudança. Eu guardei um rancor e uma mágoa muito grande de cada um deles e, não nego, foi algo muito importante. Sem a força desse ódio, eu nunca sairia do lugar, da minha depressão. Mas não tenho mais a necessidade de cultivar isso em mim. Esses são, agora, sentimentos que só me fazem mal, porque me prendem a uma dor e não me acrescentam nada de positivo. Agora eu consigo ver que, apesar de todo mal que meus pais e meu irmão me fizeram, eu os amo. E o amor deles é algo caro para mim, mesmo que de uma forma torta e equivocada. Não estou dizendo que eles podem voltar a fazer o mal que me faziam ou que eu vou simplesmente esquecer o que eles me fizeram. Estou num processo de perdão, onde quero esquecer a dor que me corrói ainda. Creio que quem mais precisa de perdão nessa história não é ninguém da minha família: sou eu. Eu nunca me perdoei por deixar minha família me machucar. Hoje quero aprender a ter deles o afeto que eu preciso, sem deixar que eles me machuquem. Estou tentando descobrir como fazer isso.

No trabalho mudaram algumas coisas. Continuo trabalhando com Educação, mas muito em breve estarei atuando também na área da Saúde. Decidi que quero mesmo muito ter filhos e que, se for preciso me matar de trabalhar para isso, que assim seja. tudo tem seu preço e sempre preferi pagar caro por algo que quero muito que ser infeliz com uma pechincha.

Durante esse tempo em que estive ausente, me envolvi em atividades de militância numa ONG de defesa dos direitos LGBTs. Foi uma experiência muito bacana. Conheci muita gente e entendi melhor o cenário político/social brasileiro. E uma coisa triste foi ver que pouca gente se dispõe a se envolver. Saí da ONG porque não dava pra conciliar meus planos de vida imediatos com o trabalho voluntário. Além disso, confesso que me senti enormemente angustiado de ver tanta coisa a ser feita e tão poucas pessoas dispostas a ajudar. Infelizmente eu não consigo conviver com essa angústia de forma saudável.

Bom, acho que é isso! É tão difícil fazer uma síntese dos últimos meses, mas creio que consegui. Ainda estou meio "enferrujado" para a escrita, mas daqui a pouco eu retomo jeito. Assim espero!

domingo, 30 de setembro de 2012

Me revelando pra mim

Uma vez no ensino médio, minha professora de filosofia fez uma dinâmica que me trouxe um resultado curioso. A atividade consistia em afixar nas costas de cada aluno uma folha de papel A4 em branco presa por um pedaço de fita crepe. Todos os outros colegas deveriam escrever nesta folha uma opinião sobre a pessoa que, obviamente, não via o que estava sendo escrito em suas costas. Isso dava a oportunidade de cada um ser o mais sincero possível ao relatar o que pensava sobre o colega porque, ao final, já não dava mais pra saber quem havia escrito o que. A minha folha terminou essa experiência recheada de opiniões contraditórias do tipo "transmite muita alegria", "é uma pessoa muito triste", "muito maduro pra própria idade", "um eterno moleque"...

Lembrei disso porque eu estava lendo o texto do Gato Van de Kamp no qual ele reflete sobre a construção de um dos aspectos de sua identidade e fiquei pensando que fazer o mesmo pra mim é sempre uma missão complexa. O fato é que, sempre que eu tento me definir numa identidade, esbarro na questão de que talvez o que me defina seja a mudança, uma busca.

Eu sou um processo e um filme me retrataria melhor que uma foto. Minha identidade é extremamente dinâmica. A começar pela bissexualidade: quem me conheceu em uma determinada época da vida e me viu namorando uma mulher talvez não imaginaria me ver hoje casado com um homem. E o contrário também já aconteceu. Sou alguém que se entrega de corpo e alma ao momento e, por isso, posso passar uma impressão tão marcante em momentos tão opostos como de uma pessoa símbolo da tristeza ou da alegria.

Essa fluidez confunde um pouco as pessoas, já que eu me permito transitar por caminhos amplos sendo, ainda sim, coerente comigo mesmo e com o que eu sinto e acredito. Quem não acompanha a minha jornada pode não entender quando foi que a história mudou de rumo... Porém, plagiando um mestre, eu não vim pra explicar, eu vim pra confundir!

Outra explicação possível seria a herança do que eu aprendi com meu pai que, como diria Raul Seixas, sempre foi uma metamorfose ambulante. Eu seria, assim, herdeiro de uma busca por si mesmo. Aprendi com ele a tentar me encontrar e percebi, vendo que ele nunca se encontrou, que eu nunca me procurei onde eu sempre estive: dentro de mim. Na verdade, talvez eu nem soubesse o que eu tanto procurava e por isso me afeiçoei tanto por ser um mosaico que me dilui em mim mesmo. Mas creio que isso não se sustentaria nessa fase na qual me sinto tão eu mesmo, tão senhor de mim.

Minha única certeza quando olho a construção da minha identidade é que hoje me enxergo como nunca e sei que sou apenas um cara comum, que gosta de ser comum. Eu sou aquele trilha os próprios passos, querendo aproveitar cada gosto e cada cor de cada momento que se revela. Eu sou aquele que se permite se deixar levar pelo vento, não porque não tem a firmeza de ser o que é, mas porque se sabe pluma e está consciente de que a própria beleza está na liberdade de plainar solto pelo ar, mas sem deixar de exibir as cores que lhes são próprias. Sou um filhote de leão que veio ser rei de si mesmo. Sou um sujeito de sorte, vivendo minhas venturas e desventuras. Sou, hoje, minha própria estrela e minha própria luz.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Libertando...

Um dia, ao sair do trabalho, esperava o ônibus pra casa quando vieram em minha direção 3 homens trajando uma espécie de uniforme verde. As pessoas que estavam no ponto de ônibus comigo subitamente desistiram de esperar e foram embora. Eu demorei um pouco mais pra entender o que estava acontecendo.

O caso é que eu trabalho relativamente próximo a um presídio e aquele trio de verde ganhava novamente a liberdade após cumprir a pena. Os uniformes parecem com aqueles usados por trabalhadores de uma empresa famosa daqui de BH e, se não fosse pelos papos, quem ainda não conhece o uniforme não perceberia que o trio era formado por ex-presidiários.

Num primeiro momento, quando me dei conta da origem do trio, tive muito medo (mas já não dava pra fugir). Depois, eles puxaram papo comigo e pude percebe-los de outra forma.

Relataram o preconceito que receberam quando o ponto de ônibus esvaziou e fizeram questão de afirmar que não fariam nenhum mal a quem estava na luta, a quem era tão pobres quanto eles e que não tinha demonstrado tal discriminação...

Depois pude notar a euforia de cada um deles pela liberdade recém (re)conquistada. Pareciam meninos pequenos a quem se dá um presente. Ouvi alguns dos planos deles: um era de Sampa e havia ganhado uma passagem que o deixaria numa cidade que faz divisa entre Minas e São Paulo. O plano era voltar para casa. O outro iria visitar o filho, pegar o carro e dar umas voltas pelo morro onde ele morava pra rever os amigos. O terceiro iria até o centro de BH num prostíbulo qualquer e depois disse que beberia bastante...

A alegria deles era realmente contagiante. Dentro do ônibus, pareciam moleques em excursão escolar...

Eu desci no mesmo ponto que eles desceram. Eles estavam levando o "paulista" para a Rodoviária de Belo Horizonte mas, no caminho, pararam pra comprar algo que lhes foi oferecido por um homem que disse que não podia vender ali no meio da rua. Eu segui meu caminho e não mais os vi.

Tudo isso me deixou pensando, pensando, pensando...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Somos todos vítimas



Assista o vídeo acima. Ele traz uma fábula que conta uma história que nos ajuda a entender como surgem os paradigmas. E a vida está cheia deles.

Mas por que estou falando disso? No meu post em que eu apresentava meu pai para Blogsville, um comentário do Gato Van de Kamp me fez dar uma resposta curtinha que para o momento servia. A frase foi: "A história da minha família é um amontoado de vítimas".

A questão é que eu não duvido de que, na minha família, sejamos todos vítimas de um contexto. Acontece que algumas vítimas escolheram para si o sofrimento e outras foram, por várias vezes, forçadas pelo bando a nele permanecer como os macacos do experimento.

E é por isso que eu tenho orgulho do meu rancor. Ele é um mal necessário para que eu quebre o círculo vicioso que ainda existe na minha mente de permanecer sob uma ordem doente e sem nenhuma razão lógica de existir. Ele é minha chave para sair dessa gaiola.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Um tiro pela culatra (ou O julgamento moral que revela a falta de moral de quem o faz)




"Esses gays querem respeito, mas eles mesmos não se dão ao respeito". Essa é uma frase odiosa (no sentido de ser cheia de ódio), muito dita por heteros e (o mais triste) por gays, lésbicas, bissexuais e afins que se colocam numa posição superior aos outros "imorais". Porém, se a gente analisa-la, veremos que não existe lógica nela: apenas preconceito.

O primeiro ponto que pode ser dito sobre tal frase é que ela se baseia no pressuposto falso de que os gays não são respeitados porque são imorais. Mas acontece que o gay monogâmico, recatado, trabalhador, estudioso, honesto e "limpinho" é muito mais discriminado que o hetero que trai a esposa descaradamente, que é "malandro" quanto aos estudos e trabalho e que sempre dá um "jeitinho" para "se dar bem". O primeiro continua sendo "o viadinho", enquanto o segundo é o "garanhão" e "esperto". A pergunta é: por que eu devo ser "perfeito" para merecer um respeito (e que, mesmo assim, não é garantido que eu o receberei) que o hetero do meu exemplo anterior recebe sem nenhum esforço ou sacrifício? Ao meu ver, a pessoa que exige perfeição (segundo os próprios critérios) para dedicar respeito ao outro obviamente não respeita a ninguém, já que ninguém se encaixará no ideal de perfeição dela.

O segundo ponto é que essa frase se baseia num julgamento moral que, como tal, não pode ser mais subjetivo. O que é imoral para o outro pode não ser para mim. Com quantas pessoas é preciso que o outro se relacione para ele cruzar a fronteira do "aceitável" para o "imoral" ou "promiscuo", por exemplo? Aliás, qual é o real problema em ser promiscuo? Acho que aqui cabe um recadinho especial para os cidadãos LGBT que dizem frases assim: pra muita gente por aí, só o fato de você não ser heterossexual já é algo imoral. Então, se você acha que é preciso não ser imoral pra receber respeito, você só tem uma opção: deixar de ser alguém que não é heterossexual (ou seja, se matar).

O último ponto que aqui discutirei é que o respeito não é uma moeda de troca. Fazer algo em troca de respeito é uma grande ilusão, já que nesta relação não há respeito de fato e sim manutenção de interesses. Basta a pessoa deixar de agradar o outro para que o desrespeito volte à cena. Querer ser um gay comportado para ser digno de receber o respeito dos heterossexuais é, além de se sujeitar a não receber o verdadeiro respeito, é se colocar numa posição subordinada de quem pede permissão para ser o que se é, fazendo de tudo para agradar o outro.

Bom, gente, é isso. Só peço um pequeno favor: não venha distorcer o que eu afirmei, dizendo que este texto prega que todos devem ser promiscuos e/ou imorais. Sou da filosofia de que, desde que o que se faça não seja crime e nem vá prejudicar a ninguém, é melhor que se deixe que cada um haja conforme escolher. É mais simples e saudável pra todo mundo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Concurso Cultural Rugido de Leão

Conversando com algumas pessoas e durante a minha terapia, pude perceber que ou eu não entendo o conceito de perdão ou ele realmente é uma furada.

Alguém pode me explicar qual é a grande vantagem de, no caso de alguém do nada me dar um soco no nariz, por exemplo, eu me esforçar para compreender a mim mesmo, a pessoa e a situação e tornar esse fato sem importância dentro de mim, quando eu posso, ao invés disso, usar de uma vingança socialmente aceita, mas dolorosa o suficiente para satisfazer a minha sede por sangue?

Envie sua resposta num comentário desta postagem. A melhor resposta ganha uma lambida no cotovelo (previamente higienizado, claro). Mas atenção para as regras: não valem respostas que contenham "a bíblia diz" ou similares...

Valendo!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A ilusão de se ter escolha

Outro dia, conversando com o Foxx, eu contava para ele sobre uma das minhas principais angústias: a falta de dinheiro somada à correria contra o tempo.

Eu não almejo dinheiro para ficar rico, ou para ter coisas supérfulas. Eu gostaria de ter dinheiro para poder adotar e criar meus filhos. Meu medo maior nem é faltar dinheiro pra criação dos meus rebentos (porque pra isso dá-se um jeito), mas sim o fato de, numa análise financeira para a adoção, ter o pedido negado (porque pra um casal gay perder o pedido de adoção pra um casal hetero por precoceito - com o aval de uma alegação de falta de "condições financeiras"- não seria uma situação das mais impossíveis de acontecer). Dinheiro não traz felicidade, eu sei. Mas facilitaria tanta coisa em minha vida...

E à falta dele soma-se o fato de que o homem que eu estou casado é mais velho que eu. E, se eu demorar muito a adotar, corre o risco dele não querer mais me acompanhar nessa ideia por achar que não tem mais tanta energia/disposição pra cuidar de uma criança. E pode acontecer ainda que eu acabe numa situação em que eu não sei se daria conta: criar sozinho filhos e ainda de quebra cuidar do Marido...

O Foxx me falou que parte dessa situação era "culpa das minhas escolhas profissionais e amorosas" e isso me fez refletir sobre o que é realmente escolha.

Ter escolhas para mim é ir a uma loja, encontrar camisas do meu tamanho de cores variadas e poder escolher qual é a que mais me agrada. É ir a um restaurante self-service com muita variedade e decidir, dentre opções igualmente atraentes, quais as que eu colocarei em meu prato.

Bem diferente de ter que optar por exercer uma profissão que me renderia muito mais dinheiro mas me faria infeliz ou aquela que me realizaria profissionalmente e me deixa com o orçamento apertado no fim do mês. Diferente também de ter que decidir se eu realizo um grande sonho ou se vivo um relacionamento que me faz extremamente feliz. Isso para mim é não ser masoquista, decidindo entre o menor dos sofrimentos. Não há escolha de verdade, já que a minha sanidade me obriga a tomar apenas uma determinada decisão...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Carta aberta a quem possa interessar

Oi. Você aí! É você mesmo que me reduz ao rótulo que você resolveu dar a mim...

Bom, eu não fui consultado nessa sua empreitada, não é? Não pedi pra você colocar uma etiqueta em mim, não foi? Então espero que saiba que essa é uma questão sua. Dar a mim uma classificação não é uma coisa ruim em si, porque a gente precisa mesmo de referências. Mas são as referências que você criou pra você e que vieram das suas observações sobre mim. Nesse trabalho, eu sou apenas um objeto! Não me responsabilize por isso! Não julgue com isso que quero fugir de nenhuma culpa. Quero, antes, alertar para o fato de que, se eu sou o modelo observado, quem escolhe o foco e a luz que vai iluminar a foto final é você. Você pode ter o melhor de mim, se quiser e se souber como conquistar.

E mais: eu não estou me preocupando com o fato de você se limitar a me ver apenas pelos óculos que você criou com essa etiqueta. Minhas noites sem sono são pelos MEUS problemas, não por você. A única pessoa que perde em querer me enxergar de uma forma simplificada é você! Você perde de se aventurar no meu universo inteiro e, como diz o Moska, "Eu me ofereço inteiro/E você se satisfaz com metade".

Se cada um ficar com a sua responsabilidade, a gente cresce junto e evita muito desgaste, ok?

Fique na paz!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Castigat ridendo mores

A expressão latina do título desta postagem, que não sei a quem é atribuída a autoria, quer dizer: “é rindo que se castigam os costumes”. Eu acredito que é a expressão que mais desvela o poder crítico que uma piada aparentemente inocente contém. Existem três teorias muito tradicionais para explicar o motivo do riso e eu particularmente acredito que o riso pode surgir de qualquer uma das três propostas (ou seja, acredito que o riso seria "multifatorial"). Evidentemente, a teoria que mais se encaixa com a frase do título é a teoria da superioridade. E esse é meu ponto de partida.

Se em algumas situações rimos porque nos sentimos superiores (nos sentimos capazes de rir de situações consideradas erradas, estúpidas ou, até mesmo, a partir do azar de outra pessoa - beijos Lobo!), estamos num limite muito tênue entre a agressão (o desrespeito) e a brincadeira. Afinal, rir do outro pode ser engraçado para quem está de fora, mas não para o outro que está recebendo a "crítica". E creio que todo já sentiu a força devastadora de uma crítica negativa num momento de fragilidade. É o que  chamamos de violência psicológica/simbólica (não sei qual das duas exatamente porque sou leigo, beijos!).

E essa coisa do respeito é algo tão difícil! Porque nunca vivemos numa sociedade que tentou viver verdadeiramente o respeito. Sempre estivemos em contexto que a repressão era tanta que não havia como o indivíduo desrespeitar um superior e os indivíduos oprimidos nem mesmo tinham completa noção do desrespeito a que estavam submetidos (ou não tinham voz para exigir mais respeito). Hoje em dia, ensaiamos para viver num contexto em que a liberdade é maior que a repressão e daí muita gente confunde "liberdade" com "fazer tudo o que eu quero".

Isso é especialmente sintomático nessa geração atual que foi criada por pessoas que querem viver a liberdade, mas que não sabem ao certo o que significa fazer isso. Daí esta geração escolhe como ícones da mídia (colocando-os indiretamente como exemplos a serem seguidos) pessoas que tem o seu "humor" baseado em opiniões/situações que são na verdade agressões (tudo em nome de uma liberdade de expressão deturpada). Hoje em dia, é muito claro que chamar um negro de "king kong" não é algo nada engraçado, mas sim racista. Contudo, outras discriminações como a que acontece contra orientações sexuais não hegemônicas (homossexuais e bissexuais) e aquelas que ofendem a liberdade de crença (voltada para religiões em específico) ficam nebulosas e menos frequentemente percebidas.

Nesse contexto surge a ideia de politicamente correto como norteador da convivência em sociedade. Muitos criticam o politicamente correto atribuindo-lhe a característica de censura. Como o Foxx bem disse nesse post em sua coluna no Mundo Bafão, a liberdade tem limites e o limite em si é algo bom. E, como o Gato Van de Kamp bem exemplificou com esse post, é possível fazer humor, ser crítico e não ser ofensivo.

Não acredito também que é preciso tornar o mundo um lugar onde todos sejam amigos, se deem as mãos e só se diga coisas belas e que todo mundo aplauda. Acredito que existe um meio termo entre o sem sal e enfadonho humor que "as vítimas do patrulhamento do politicamente correto" dizem que os outros querem implantar e "o humor ácido e politicamente incorreto, doa a quem doer". Mas isso exige competência e reconhecimento dos erros quando for o caso.

Quem está na pele (o alvo da piada) percebe com mais clareza se é agressão ou não mas, às vezes, tem dificuldades de fazer o mesmo quando a piada é outra (é preciso se colocar no lugar do outro). Por isso, não vou ficar teorizando se o vídeo do concurso de "G-zuis gostosão" daquele post foi ofensivo ou não. Se é bobagem ou não a crença de que a sexualização de uma imagem sagrada não é algo que pretendo descobrir, porque essa resposta é pessoal demais. Prefiro reconhecer a minha incapacidade pra me colocar no lugar de quem uma crença diferente da minha (e tem valores e visões de mundo diferentes da minha), dizer que não houve a intenção de agredir e pedir desculpas sim. Não me sinto menor em fazer isso. Muito pelo contrário. Me sinto em harmonia com o que penso e prezo porque, do contrário, me sentiria tão incoerente como aquelas pessoas daquele outro post do "rabo do macaco" se eu cismasse de exigir respeito de religiosos que fizessem um vídeo com, como disse o Cesinha, "cores pesadas" sobre os homossexuais.

Dentre amigos, talvez eu me arriscaria a fazer uma piada mais ousada ou um comentário mais ácido porque os amigos me conhecem e têm a capacidade de perceber que minha atenção não foi ser agressivo. Mas num ambiente público, como um blog na internet, a história diferente. Existe o risco de minhas palavras atingirem pessoas desconhecidas. E eu sou do partido de que, na dúvida, não faça! Ou, ao menos, reconheça que você não pensou com o carinho devido que a questão demandava...


P.S.: Fica um vídeo que mostra que é possível fazer humor com temas "delicados" sem ser ofensivo:


P.S. 2: Se você não entendeu nada, veja esse post e esse outro.
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