quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sobre o que se diz

Cada palavra é carregada de significado. Cada uma traz em seu bojo ideias, revela ideologias, e é por isso que sempre dizemos mais do que pensamos. Tudo porque a escolha de cada palavra não é tão casual quanto poderia parecer.

Algumas palavras me irritam. "União estável homoafetiva" é legal pra ressaltar que casais compostos por pares de mesmo sexo agora já podem formalizar tal contrato entre si. Também pode ser interessante pra contabilizar quantos casais registraram tal situação a fim de se obter estatísticas que sirvam de base para políticas públicas que favoreçam a comunidade LGBT. Mas outro dia, uma amigo me perguntou: "E quando vc vai formalizar sua 'união estável homoafetiva' com o Maridão?". Deu vontade de responder: "No fim do ano, assim que eu tiver dinheiro, meu querido amigo HETERO!". Afinal, uniões estáveis não são iguais entre casais do mesmo sexo e casais de sexo diferente? Por que ressaltar a diferença inexistente?

Pior que isso só quando perguntam pelo "meu companheiro"!!! Eu devolvo com outra pergunta: "Qual companheiro? Você está falando do meu NAMORADO (e as vezes falo "NAMORIDO")?" É super hiper mega "meia boca" a palavra "companheiro", não acham? Um cara que senta do meu lado num ônibus é meu "companheiro de viagem" e eu posso passar todo meu trajeto sem ao menos trocar uma palavra com ele que nada mudará o fato dele ser meu "companheiro". Já "namorado" denota o amor que realmente existe (ou deveria existir) entre as partes. Por que as pessoas tem medo de perguntar pelo meu "namorado" e preferem o termo genérico, impessoal e que se esquiva de uma realidade? Eu sinto que desqualifica o que eu sinto.

Parece que na cabeça dessas pessoas, ter um namorado é apenas direito de mulheres heterossexuais e aos homens gays ou bissexuais cabe apenas esse relacionamento de segunda classe com um "companheiro". Relacionamento esse que, muitas vezes, não é descrito como "namoro", ficando com a descrição genérica "relacionamento" mesmo ou, como é um costume principalmente entre gays de uma geração mais velha, a denominação "um caso".

Ok. Por que estou escrevendo tudo isso? Porque outro dia me deparei com um post no Muque de Peão cujo título dizia "Meça suas palavras". Em seu texto, ele segue a linha de raciocínio de que, usando as palavras "certas", somos mais bem "aceitos" pelos heteros (usar "casamento gay" seria valer-se uma expressão que resulta em menor simpatia que a alternativa "igualdade no casamento", por exemplo).

Particularmente, penso que algumas escolhas de palavras "mais simpáticas" podem inclusive gerar mais dúvidas que esclarecimentos (afinal "Igualdade no casamento" pode soar como igualdade de direitos da mulher em relação aos direitos do homem num casamento heterossexual. Usar essa expressão é uma forma de confundir o que se propõe...).

Desta maneira, eu não concordo em criar toda uma gama de expressões "mais palatáveis" para quem ouve. Porque enquanto tivermos que nos camuflar, inclusive nas palavras, seremos sempre relegados a usar adjetivos de segunda classe, teremos direitos de segunda classe e estaremos camuflados dentro de um armário simbólico, ao invés de ocupar o mesmo lugar na sociedade a que todos têm direito. E, se os outros engolem mais fácil a realidade com tais expressões, a mim essas alternativas tem o efeito de me deixar com algo entalado na garganta: a vontade de dizer que não me considero menor pela minha condição. Meu amor não é um amor menos valioso que o de nenhum heterossexual apenas pelo fato do alvo de meu afeto ser alguém do mesmo sexo.

Quando não houver mais razão de existir duas palavras para a mesma coisa, apenas para ressaltar uma diferença ao invés de admitir que ela não importa em termos práticos, talvez tenham chegado tempos melhores.



"Palavras que se diz,
se diz e não se pensa"

8 comentários:

  1. concordo plenamente, vamos ser grossos e dizer tudo na kra deles.

    ResponderExcluir
  2. * Foxx, meu bem! Não precisa ser grosso. Apenas sincero... Hehehe

    ResponderExcluir
  3. isso foi ironia??? q seja...

    Voltando ao post, são dois meios para um objetivo, sutil e político contra sincero e agressivo, pra mim para mudar a cabeça das massas gerações tem que morrer...

    Para obter um resultado mais digamos rapido, e necessario se utilizar de meios não muito honrosos, então se é para ser rapido nesse caso tem que ser da maneira suja mesmo, por mais que incomode...

    ResponderExcluir
  4. É verdade, mas acho que isso faz parte de um processo de maturação. Por exemplo, era impensável a uns 10 anos atrás se falar de familia, casamento numa relação hetero, assim como bem antes, não se admitia a idéia de família fora do casamento. Hoje, os tempos são outros, mais arejados, mas não sem seus dilemas. Afinal, como afirmar o direito o igualdade sem negar as diferenças entre os sujeitos.

    Vamos caminhando...

    ResponderExcluir
  5. Eu penso que todos os meios para se alcançar algo tem que ser lançados mão. Se usar outras palavras facilitar o nosso caminho, porque não?

    ResponderExcluir
  6. * DMalk, entendo sua lógica, mas sei lá se isso funciona a longo prazo, sabe? E esse tipo de estratégia poderia fornecer argumentos para opositores nos desqualificar. Então é medir custo e benefício, na minha opinião.

    Abraços!!


    * Mr Gayrrisson, concordo contigo. É tudo uma questão de maturação de conceito. Vamos caminhando...

    Abraços!!


    * Lobo, não disse que não devemos lançar mão de meios que possam nos ajudar. Só não acho que e gente precisa de usar táticas que mais confundem do que esclarecem cabeças que ainda não se propuseram a perceber com outro olhar.

    A ambiguidade gera desentendimentos e isso não leva a nada. Aliás, como eu já comentei acima, só é fonte de argumentos para nossos opositores nos desqualificarem.

    No fim, alguns meios não nos levam efetivamente aos resultados que queremos.

    Abraços!!

    ResponderExcluir
  7. Papai Urso do Interior14 de novembro de 2011 20:52

    Não gosto do termo "casamento gay" por uma questão mais simples que 1+1=2, casamento pressupõe dois seres distintos/diferentes/diversos e no caso o desejo gay é justamente o contrário, é a união entre dois iguais, então fico sempre com o termo união apesar de ser criticado, isso de falar união estável já acho meio sacal demais. União e ponto.

    ResponderExcluir
  8. * Papai Urso do Interior, até entendo o que vc disse, mas não é só porque são dois homens ou duas mulheres que eles sejam iguais. Mesmo nesse caso, eu consigo ver "dois seres distintos/diferentes/diversos" se unindo para formar uma família.

    Whatever, não vou brigar por detalhes... rs

    Abraços!!

    ResponderExcluir

Related Posts with Thumbnails