terça-feira, 20 de agosto de 2013

Reconstruindo o pai - 1 (parte final)

(Para ler a parte anterior desta história, clique aqui)

Desci do ônibus, caminhei um pouco e finalmente cheguei. Foi meu pai quem abriu o portão pra mim. Ficou surpreso com minha presença, mas de uma forma contida. Aliás, faz muito tempo que ele age comigo de forma contida. Me deu uns tapinhas nas costas e foi entrando, dizendo que estava cozinhando. Tive que pará-lo pra lhe entregar o presente e lhe dizer: "Queria ter vindo ontem, mas não consegui". Ele, olhando apenas para o presente, respondeu: "Que bom que você veio. Deixa eu olhar as panelas. Sua mãe está lá no fundo, fazendo umas coisas pra igreja."

Fui então cumprimentar minha mãe, que ficou muito surpresa e feliz em me ver. Ela estava fazendo uma faixa para ser usada num evento da igreja que ocorreria ainda naquele dia, onde se lia a frase: "Ensinando e ampliando a fé cristã na família". Alguns segundo depois, meu pai foi ao nosso encontro, pedindo ajuda para tirar a fita adesiva do papel de presente, dizendo que estava com dó de rasgá-lo. Minha mãe, então,  pediu para meu pai ajudá-la a fazer a faixa, enquanto eu, prevendo que seria o próximo a receber tal intimação, saí de perto com a desculpa de que iria beber água. Não me importaria em ajudar, se não fosse algo para a Igreja Católica que ostenta uma frase dessas...

Em pouco tempo, minha mãe saiu para ir ao tal evento na igreja e eu fiquei sozinho em casa com meu pai. Tentamos estabelecer uma conversa sobre amenidades, com muita dificuldade, momentos de silêncio e um clima tenso.

Na hora em que eu pretendia ir embora, meu pai me disse: "Acho que vou gostar muito do livro. Este autor é muito bom. Mas está faltando uma coisa no meu presente! Você não escreveu uma dedicatória no livro que deu pra mim. Mas ainda dá tempo de fazer..."

É claro que eu não havia escrito nada ainda. Já havia sido um esforço enorme ter ido ao encontro de meu pai e presenteá-lo. Eu simplesmente não havia conseguido escrever nada para entregar junto com o presente: nem dedicatória, nem mesmo um cartão desejando feliz Dia dos Pais atrasado.

Peguei então o livro e uma caneta e saí de perto do meu pai para escrever, usando a desculpa de que eu preferia me apoiar na mesa da sala, que era mais iluminada. Tentei acalmar meu coração com uma respiração profunda e medi cada palavra que eu estava usando. O que saiu desse meu esforço foi:

"Pai,
você se lembra da primeira vez que eu andei? Pois é! O tempo passou e hoje eu sou senhor dos meus passos.
Contudo, esse livro e essa visita são, para mim, um novo primeiro passo. Um passo em direção a você. Um filho em direção ao pai. Um homem que vai de encontro a outro. Duas pessoas, dois mundos.
Imagino que você esteja tão perdido quanto eu, tateando, pisando com cuidado neste novo terreno. Mas peço sua ajuda: me acompanhe, com carinho, com cuidado...
Vamos juntos ser felizes e nos apaixonarmos pela vida.
Fique bem!"

Entreguei para ele o livro e saí de perto dele pra que ele pudesse ler sem a minha presença e ficasse mais a vontade para reagir como quisesse.

Aprontei-me para ir embora. Quando cheguei perto dele para me despedir, meu Pai disse: "Gostei muito da dedicatória..." Na sequência, avisei pra ele que eu precisava ir embora, pois trabalharia cedo no outro dia e ele me perguntou se meu ônibus demoraria naquele horário. Disse que não, mas que precisava ir imediatamente. Ele me abraçou e me disse: "Eu te amo." Não consegui responder nada. Apenas fiquei mudo e paralisado naquele abraço. Depois de alguns instantes em silêncio disse que eu precisava ir. Ele agradeceu a visita e disse pra eu voltar assim que pudesse.

Na rua, a vontade de chorar que eu estava mantendo sob controle dentro daquela casa crescia a cada passo. Tentei deixar o choro sair, mas não consegui. Parecia que havia um mundo entalado na minha garganta. Cheguei em casa exausto e dormi, sem saber direito  se eu queria ou não acordar no outro dia.

10 comentários:

  1. Acorde CC e viva outra vez, a emoção de se ter pai na vida. Ele também o quer. Isso ficou implícito no "eu te amo".
    Se ainda não fez isso...chore! Te fará bem e ajudará a liberar lugar em seu peito para novos sentimentos e emoções.

    Beijos meu lindo, beijos!

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    1. Com,o diria minha avó: com calma com o andor que o santo é de barro... Ainda não consegui chorar, mas juro que já tentei, viu?

      Beijos!

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  2. Apesar de não ter dito com todas as letras, acredito que seu pai, assim como você, também deseja essa reaproximação. Esse foi um primeiro passo, e pelo que pude ver, com saldo positivo. Parabéns pela sua coragem de vencer a barreira que separava você do seu pai. Espero que algum dia vocês possam conseguir se apaixonar pela vida juntos.
    Abraços!

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    1. É... Eu tb estou achando isso! Obrigado pelos bons desejos! :)

      Abraços!

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  3. Devia ter chorado. Devia.
    Eu discordo da Margot quando ela diz que algo ficou implícito no Eu te amo. Não tem nada de implícito. Tá claro que seu pai também quer uma reaproximação ou ele simplesmente não teria dito nada. Somente agradecido. Eu fico muito feliz em te ver agindo desse jeito, em ter se colocado nessa situação, fico mesmo! Não que uma presença paterna seja necessária para alguém, mas sei que essa ferida que existe dentro de vc precisa disso para se curar e eu quero vc bem.
    Só tenho uma reclamação: Da próxima vez que estiver se sentindo assim, querendo chorar, vc sabe meu telefone. LIGUE!!!

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    1. Gente... Eu tentei chorar, mas o choro não saía. Eu não consegui, não foi por falta de tentar não... E, assim... Eu precisava assimilar primeiro tudo o que aconteceu, antes de conversar com alguém. Esse encontro com meu pai me deixou "speechless"... rs

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  4. Que fofinho, adoro essas cenas emocionantes de família :)

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  5. Papai Urso do Interior1 de dezembro de 2013 02:55

    Que coisa linda, fosse eu tinha desabado e chorado. Me conheço bem, tem coisas que sei conter outras fogem do meu alcance. Vc é um cara do bem, sinto isso. Tb tenho pai e mãe católicos, sei bem como é tratar de homossexualidade neste contexto familiar. Mas, no fundo, acredite no que digo: eles nos amam. Depois que fui pai, entendi muitas coisas que antes pareciam nebulosas, as tais 'razões do coração'.

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    1. Não duvido do amor torto dos meus pais. Mas não consegui escapar de me machucar com a forma com que eles lidam com esse amor... Agora é reconstruir a relação com calma, né?? Parece que vai valer a pena...

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