sexta-feira, 6 de julho de 2012

No espelho retrovisor, um Leão - II





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O filho do desejo


Eu nasci em 1983, três anos depois do casamento dos meus pais. E nem foi porque meus pais queriam curtir o casamento: minha mãe tem uma deformação no útero que a faz ter dificuldades para engravidar. Eu fui fruto de muita persistência e desejo. Meu irmão estava "programado" para nascer uns dois anos depois de mim, mas a dificuldade da minha mãe para engravidar fez com que ele nascesse 7 anos depois.

Quando eu tinha 5 anos, meus pais estavam quase desistindo de ter mais um filho, mas eu queria muito ter um irmão. E, por causa dos meus insistentes pedidos, eles decidiram continuar tentando, até que meu irmão foi concebido.

Eu, nitidamente, era o filho que recebeu mais atenção e investimento dos meus pais. Eu era "o" filho deles, fruto do desejo deles. Meu irmão era apenas o meu irmão, fruto do meu desejo e necessidade de ter um irmão.

Fui uma criança mimada, mas sem luxos. Meus pais nunca foram ricos e moravamos a dois quarteirões de uma das maiores favelas da cidade. A molecada da região teve uma certa resistência comigo num primeiro momento porque eu era mais branco que eles, mais rico que eles (porque, na percepção deles, eu almoçava todos os dias...), tinha pai e mãe morando comigo e não tinha que dividir meu quarto com mais dois ou três irmãos (afinal, naquela época, eu era filho único). Aos olhos deles, eu era um playboyzinho. O primeiro precoceito que sofri foi racial/social, mas eu não entendia o que estava acontecendo. Pra mim, eles sempre foram iguais a mim. Não entendia porque eu nem sempre era bem-vindo.

Bem perto do meu bairro, havia fazendas nas quais a meninada brincava e um campo de futebol de terra, locais em que brincar era garantia de voltar pra casa imundo. Quando começaram as obras para canalização do esgoto do bairro, os buracos das obras e as manilhas se tornaram outro reduto que era a alegria da criançada (que se divertia) e o terror das mães (que lavavam a roupa). Ao me verem entrando nas mesmas brincadeiras que eles e não me importando de me sujar na lama, na terra, de me molhar na chuva ou torrar no sol, meus pequenos vizinhos começaram a me ver como igual, e foram se tornando meus camaradas.

Nessa época, eu devia ter uns 9 anos. Quase todos os colegas de então morreram anos mais tarde, vítimas da violência da disputa pelo controle tráfico de drogas na região. Alguns que ainda estão vivos são ladrões conhecidos na região, mas que me tratam com um respeito enorme. Uns poucos viraram homens trabalhadores ou se mudaram de lá, de forma que eu não sei o que lhes aconteceu.

Um desses que se mudou enquanto nós ainda éramos crianças me falou uma frase que me marcou à época, mas que hoje me dói muito: "Achei estranho o dia em que ouvi sua mãe, Cara Comum, dizer que, antes de você nascer, ela queria muito ter um filho. Minha mãe, toda vez que está brava comigo, diz que não queria que eu tivesse nascido...".

Acho que foi a primeira vez que me senti intensamente diferente de alguém. Eu era o fruto do desejo, com todas as vantagens e desvantagens disso. O meu amigo não. Até hoje não sei explicar o que eu senti naquele momento. Só sei que não foi bom...

26 comentários:

  1. Não foi bom porque vc sentiu a dor de seu amigo. Uma empatia que vc já desenvolvia em criança. Sentir a dor/amor/alegria/tristeza de outrem e raro... e deve ser cultivado... É sinal de um bom e solidário coração.
    Felizes os que são frutos do desejo... felizes.
    Beijos CC... apareça...rsrs

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    1. Bom, pode ser empatia ou pode ser uma percepção precoce de que não existe o amor que dizem que os pais sentem naturalmente...

      Beijos!

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  2. Poxa que interessante, me remeteu a minha infância e ao mesmo tempo me chocou um pouco, como sempre morei no interior, eu nunca tinha ouvido falar numa infância compartilhada com moradores menos favorecidos. Talvez pq eu era o menos favorecido e meus amigos eram como vc...

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    1. Gente, eu não era tão mais favorecido que eles...

      Mas desde pequeno eu me senti muito próximo dessa galera aí!

      Abração, querido!

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  3. q história rica eim meu caro? isto, com certeza, te ajudará e muito em sua vida presente e futura ...

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  4. se vc pivete se sentiu comovido pelo que o amiguinho disse, me desculpe, mas você não pode ser chamar mais de "Cara comum". linda história, aprece um pouco com a minha.
    bjao

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  5. O tom da sua atual narrativa me chama a atenção: está diferente de outros posts seus sobre sua família. Talvez por você estar escrevendo sem angústia, pode ser. Cada detalhe um significado... muito bom.

    Beijos.

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    1. Sim, tem muito menos angustia aqui. A parte mais dolorosa vem na próxima parte...

      Beijos!

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  6. Não é apenas um texto bonito, nem é apenas um caso de pena!
    Tem um nome simples chamado COMPAIXÃO!
    Quem realmente sente "isso" , como é o seu caso pode entender a própria dor, de onde ela vem e sabendo dela, saber de onde vem a dor do outro!

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    1. Que lindo, Cores! inspirador o que vc escreveu. Não tinha visto por esse lado!! ^^

      Obrigado pelo presente!

      Beijos!

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  7. Levaram em conta seu pedido de quando vc tinha 2 anos? Eu nunca quis irmãos... rs

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    1. Pois é, eu queria ter um irmão e, o pior, meus pais me ouviram... rs

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  8. de verdade? posso ser bem sincero né?
    esse texto vai muito de encontro a tudo que vc conta sobre a sua família, amigo.

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    1. Eu sei, foxx. A próxima parte vai fazer vc entender melhor o que eu digo hoje...

      Beijos!

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  9. Essa sessão é só pra gente se apaixonar mais por vc...

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    1. Nem é. Essa sessão é catarse pura, vc vai ver...

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  10. Cara, que história de infância hein? *olhos marejados por conta do penúltimo parágrafo*

    Também tive essa de ficar pedindo irmão pros meus pais. Só que no meu caso foram 5 anos de insistência e 5 anos depois veio a minha irmã. Aí a diferença já era muito grande e eu não queria mais, XP

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  11. Nossa, pelo pouco que li no teu blog, nunca pensei que sua história seria assim... nunca.

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    1. Sério, Otávio?? E pensou que fosse como?? rs

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  12. Eu li a primeira parte e somente agora vi que vc havia publicado a segunda... Deu um salto, né?
    V é e tem sido um guerreiro, né Cara? Deve sentir um puta orgulho de si.
    E o seu irmão? Por que frisou tanto que ele não foi objeto de desejo dos seus pais (ou menos desejado que vc)? Hoje em dia ele sente isso?
    Bjaum.

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    1. Junnior, vc vai entender essa do meu irmão no terceiro post dessa série. Tá difícil de sair, mas uma hora eu consigo fechar um texto que faça a conclusão disso a que me propus!

      Beijos!

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  13. Voltei pq fiquei incomodado com o 'objeto' de desejo. Foi mal.. Nenhum filho, nenhum ser humano pode ser chamado de objeto.
    Então, leia-se (como vc mesmo escreveu): 'fruto de desejo', ok?
    Bjaum.

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    1. Pode falar objeto do desejo que eu acho que nesse caso em específico não faz muita diferença....

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