terça-feira, 10 de abril de 2012

Castigat ridendo mores

A expressão latina do título desta postagem, que não sei a quem é atribuída a autoria, quer dizer: “é rindo que se castigam os costumes”. Eu acredito que é a expressão que mais desvela o poder crítico que uma piada aparentemente inocente contém. Existem três teorias muito tradicionais para explicar o motivo do riso e eu particularmente acredito que o riso pode surgir de qualquer uma das três propostas (ou seja, acredito que o riso seria "multifatorial"). Evidentemente, a teoria que mais se encaixa com a frase do título é a teoria da superioridade. E esse é meu ponto de partida.

Se em algumas situações rimos porque nos sentimos superiores (nos sentimos capazes de rir de situações consideradas erradas, estúpidas ou, até mesmo, a partir do azar de outra pessoa - beijos Lobo!), estamos num limite muito tênue entre a agressão (o desrespeito) e a brincadeira. Afinal, rir do outro pode ser engraçado para quem está de fora, mas não para o outro que está recebendo a "crítica". E creio que todo já sentiu a força devastadora de uma crítica negativa num momento de fragilidade. É o que  chamamos de violência psicológica/simbólica (não sei qual das duas exatamente porque sou leigo, beijos!).

E essa coisa do respeito é algo tão difícil! Porque nunca vivemos numa sociedade que tentou viver verdadeiramente o respeito. Sempre estivemos em contexto que a repressão era tanta que não havia como o indivíduo desrespeitar um superior e os indivíduos oprimidos nem mesmo tinham completa noção do desrespeito a que estavam submetidos (ou não tinham voz para exigir mais respeito). Hoje em dia, ensaiamos para viver num contexto em que a liberdade é maior que a repressão e daí muita gente confunde "liberdade" com "fazer tudo o que eu quero".

Isso é especialmente sintomático nessa geração atual que foi criada por pessoas que querem viver a liberdade, mas que não sabem ao certo o que significa fazer isso. Daí esta geração escolhe como ícones da mídia (colocando-os indiretamente como exemplos a serem seguidos) pessoas que tem o seu "humor" baseado em opiniões/situações que são na verdade agressões (tudo em nome de uma liberdade de expressão deturpada). Hoje em dia, é muito claro que chamar um negro de "king kong" não é algo nada engraçado, mas sim racista. Contudo, outras discriminações como a que acontece contra orientações sexuais não hegemônicas (homossexuais e bissexuais) e aquelas que ofendem a liberdade de crença (voltada para religiões em específico) ficam nebulosas e menos frequentemente percebidas.

Nesse contexto surge a ideia de politicamente correto como norteador da convivência em sociedade. Muitos criticam o politicamente correto atribuindo-lhe a característica de censura. Como o Foxx bem disse nesse post em sua coluna no Mundo Bafão, a liberdade tem limites e o limite em si é algo bom. E, como o Gato Van de Kamp bem exemplificou com esse post, é possível fazer humor, ser crítico e não ser ofensivo.

Não acredito também que é preciso tornar o mundo um lugar onde todos sejam amigos, se deem as mãos e só se diga coisas belas e que todo mundo aplauda. Acredito que existe um meio termo entre o sem sal e enfadonho humor que "as vítimas do patrulhamento do politicamente correto" dizem que os outros querem implantar e "o humor ácido e politicamente incorreto, doa a quem doer". Mas isso exige competência e reconhecimento dos erros quando for o caso.

Quem está na pele (o alvo da piada) percebe com mais clareza se é agressão ou não mas, às vezes, tem dificuldades de fazer o mesmo quando a piada é outra (é preciso se colocar no lugar do outro). Por isso, não vou ficar teorizando se o vídeo do concurso de "G-zuis gostosão" daquele post foi ofensivo ou não. Se é bobagem ou não a crença de que a sexualização de uma imagem sagrada não é algo que pretendo descobrir, porque essa resposta é pessoal demais. Prefiro reconhecer a minha incapacidade pra me colocar no lugar de quem uma crença diferente da minha (e tem valores e visões de mundo diferentes da minha), dizer que não houve a intenção de agredir e pedir desculpas sim. Não me sinto menor em fazer isso. Muito pelo contrário. Me sinto em harmonia com o que penso e prezo porque, do contrário, me sentiria tão incoerente como aquelas pessoas daquele outro post do "rabo do macaco" se eu cismasse de exigir respeito de religiosos que fizessem um vídeo com, como disse o Cesinha, "cores pesadas" sobre os homossexuais.

Dentre amigos, talvez eu me arriscaria a fazer uma piada mais ousada ou um comentário mais ácido porque os amigos me conhecem e têm a capacidade de perceber que minha atenção não foi ser agressivo. Mas num ambiente público, como um blog na internet, a história diferente. Existe o risco de minhas palavras atingirem pessoas desconhecidas. E eu sou do partido de que, na dúvida, não faça! Ou, ao menos, reconheça que você não pensou com o carinho devido que a questão demandava...


P.S.: Fica um vídeo que mostra que é possível fazer humor com temas "delicados" sem ser ofensivo:


P.S. 2: Se você não entendeu nada, veja esse post e esse outro.

27 comentários:

  1. Se vc começar a escrever se preocupando se o seu humor ofende ou não algum leitor, tenha certeza que blogar começa a virar uma prática estressante. Talvez por isso exclui inicialmente o pontocom. E volto procurando não me estressar ou nem me levar a sério demais a ponto de achar que tô ofendendo alguém.

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    1. Ah, não sei se posso me dar ao luxo de não me preocupar com o que eu escrevo num meio de comunicação público, não é?

      Beijos!

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  2. bem, a minha crítica aquele post foi sobre a relação religiosa com o corpo. a critica da maioria dos religiosos sobre aquele concurso é considerar uma ofensa se corporificar Cristo porque o corpo é a origem de todo pecado, sobretudo três pecados que estavam sendo expostos ali: a vaidade, a luxúria e a sodomia. a critica dos religiosos é se colocar a imagem de Jesus associada a esses pecados, mais ai vai minha critica: um, aquela não é a imagem de Jesus, aquela é uma imagem inventada por alguém na Idade Média que disse que Jesus usava aquele cabelo, aquela barba e aquelas roupas... nenhum daqueles é Jesus. o outro ponto, é que no concurso de Miss Universo as mulheres são expostas a exatamente o mesmo tipo de concurso, e porque lá os mesmos pecados não são expostos?

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    1. Foxx, mais uma vez: não tenho intuito de julgar a crença alheia. Eu entendo que vc está comparando concursos diferentes que vc considera como igual, mas um religioso, por exemplo, poderia apenas se ofender pelo uso do "seu santo nome em vão" e isso um concurso de Miss não faz...

      Whatever, reitero o que disse: não escrevi tudo isso pelos outros, mas pelo que acredito e pelo que me faz bem.

      Beijos!

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  3. O Louis CK não é lá um grande exemplo de politicamente correto, rsrs. Concordo com o que você diz mas tb com o AD. Se alguém que não te conheça se sentir ofendido - ou mesmo quem te conheça - peça desculpas pontualmente. Ou coloca um "disclaimer" no blog. :-)

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    1. eu sei que o Louis não é o melhor exemplo, mas nesse vídeo em questão, eu achei bacana a forma como ele conduziu um assunto que poderia ter sido desastroso na mão de outros menos competentes...

      Sobre o "disclaimer" no blog, ele já tem um, mas resolvi fazer um adendo nesses posts, mais pra mostrar o que eu penso que para necessariamente me desculpar com alguém...

      Abraços!!

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  4. Bem... Eu gosto muito da sua postura, acho humilde sem ser bonzinho ou medíocre.. Há nobreza e generosidade no seu gesto, só que foi aquilo que eu disse, sempre vai ter alguém pra tá se ofendendo com qq coisa e ai realmente fica difícil a gente tá agradando a todos.

    Dia desses mesmo vi a entrevista do Rafinha Bastos, achei que sinceramente ele foi todo cagado nessa postura dele com relação as piadas de péssimo gosto, mas entendi sua argumentação... E a verdade é que sob os seus critérios não houve o erro, era possível, na sua opinião, fazer humor daquilo e enqto ele não for convencido do contrário não vai se desculpar por algo que não acredita.. É uma postura meio complicada, mas não sei até que ponto eu faria muito diferente se tivesse no lugar dele... Peço desculpas qdo de fato acho que é razoável pedir, mas não faria isso se não acreditasse....

    Sempre digo que a gente não é obrigado andar no passo da malukisse dos outros, muita gente deve se sentir agredida com o simples fato de vc botar na sua página de FB que é caso com um homem, mas paciência... Não da pra agradar a todo mundo mesmo.

    Neste caso,acredito que sob os seus critérios, vc mesmo achou escroto o gesto e se desculpou por isso.. Ok, tah feio, mas tb não precisa fazer disso no fim do mundo. Acho que a sinceridade do seu arrependimento é tão grande que certamente se o Deus cristão existe, ele mesmo, o principal envolvido, já te perdoou... E isso não foi uma piada.

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    1. aaahhhh...
      Caldo é qdo alguém te afoga, menino..
      Te da um caldo... Agarra sua cabeça e te afunda....

      Da aula de praia pros mineiros...

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    2. gato, meu querido! A desculpa ficou no outro post! agora eu só tô falando sobre o respeito e o politicamente correto. Claro que o post da desculpa foi o gatilho para esse, mas são coisas diferentes... E concordo com vc: não dá pra adotar o critério alheio como o critério para definir ofensa. É preciso encontrar um meio termo que resolva a situação de todos, né??

      Beijos!!

      PS: Pra mim, meus pais me ensinaram que alguém pode te dar um caldo, mas uma onda também pode te dar um caldo quando ela faz o que vc falou que se chama caixote... Coisa de pais que vivem numa terra sem litoral, né??

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  5. O riso sempre foi uma questão bem complicada, toma-se como base a ironia. Muitos não conseguem perceber quando uma ironia é feita. Imagina quando essa ironia é algo risível?! Aliais, muitas situações risíveis na literatura, na sua essência, são dolorosas, embora o grande público não as perceba.

    Eu recomendo, infelizmente não tive a chance de tê-lo em mãos, mas professores já comentaram a teoria, o livro "O Riso" de Henri Bergson. Ele teoriza o riso e suas possíveis causas X efeitos. É brilhante.

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    1. Carlos, meu querido! Obrigado pela indicação! Vou procurar, com toda a curiosidade do mundo!

      Abraços!!

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  6. Eu por mim continuo com meu ponto de vista! Acho q este patrulhamento moral já deu o q tinha q dar ... qdo vc diz q uma mesma coisa dita pode ofender e pode não ofender é corretíssimo, cabe a forma, a entonação, o momento, a circunstância, etc etc etc ... Bratz! seu viado! Pode ser uma brincadeira e eu nem estou aí mas tb pode ser sério e eu saio nas porradas mesmo ... existe aí uma diferença enorme ... Já tive problemas com leitores do Enfim e nem por isto mudei e tb não ligo ... quer ler? quer seguir? ótimo ... não quer? não leia ... Seu post estava evidente sua não intensão ofensiva ... portanto aplaudi ...
    Outro dia li algo sobre uma mãe q ofereceu ao filho um terço para ele pendurar no carro novo e ele rejeitou e explicou q não ia colocar pq não acreditava nisto ... a mãe insistiu e ele propôs a ela ... ok eu coloco o terço no carro mas vc deixa eu colocar um imã na geladeira dizendo q eu sou ateu ... nossa ki horror ... me poupe né? ele é obrigado a respeitar o q a mãe queria ... afinal coitada é mãe ... ela não precisava respeitar o q ele queria ... coitada ela é mãe ...

    Para registrar: Aplausos para o AD ... não é atoa q admiro este cara ...

    Rapha! relaxa!!! rs

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    1. Bratz, mas eu não mudei nada pra agradar (ou não ofender) ninguém: os posts anteriores continuam lá, com as mesmas palavras. Eu só fico preocupado com a minha coerência, porque ela me gera harmonia com o que eu acredito...

      Beijos!

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  7. Que aula de psicologia, que texto enorme! (RISOS)

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    1. hahahahaha

      Vou tentar ser mais sucinto nos próximos, ok, FER??

      Abraços!!

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  8. O texto foi grande, mas envolvente. Pra mim, passou aquela sensação de que traduz o que penso sobre o tema (tive que prestar atenção ao título, pois ao ler rapidamente enxerguei o título dessa forma: "Castidade Rendendo Amores").
    Por outro lado, como já dissera, continuo achando que não houve desrespeito.

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    1. Junnior, seu fofo! Morri com vc falando do título "Castidade Rendendo Amores"... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      Beijos!

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  9. Caraca.... eu viajo um pouquinho e quando volto toda essa discussão!

    Olha, vou ser sincero... eu não vi o fatídico post. Até estive aqui, olhei e aparentemente não me despertou interesse e fui "estrada a fora". Complicado essa questão de "se ofender"... e sinceramente, se eu tivesse que escrever pensando se alguém ia ficar ofendido por algum comentário, preferia não fazer.

    Não vi desrespeito por sua parte, pelo contrário... Gosto duvidoso?! Até podia ser, mas é aquela velha história, você não é humorista, não está escrevendo profissionalmente... Para além da sua responsabilidade civil, não sei porque você tenha que se preocupar... não gostou, não comenta e pula para outro blogue ué. Eu já pisei inumeras vezes na bola, achei que ia fazer um passarinho e fiz um mega urubu, faz parte do jogo... mas sei lá...

    Enfim... estou contigo! Seu bloguinho é sumpimpa e não há pelo o que se desculpar!

    Abração

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    1. Latinha, obrigado por ser meu advogado, mesmo sem ter acompanhado a história toda! rs

      Beijos!

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  10. Ei CC... a ofensa assim como a feiura, a beleza e muitas vezes o amor está nos olhos de quem vê, ou no caso, lê. Esquece isso rapaz.... águas passadas não movem moinhos. É cliché eu sei...mas verdadeiro. Vambora que a fila anda. Beijos, beijos e beijos...vc sabe onde. kkkkkk Até mais.

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    1. Ai, querida! Vc e esses seus beijos... rs

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  11. Amigo, incrível... Se todas as pessoas tivessem essa consciência ética que você tem com certeza viveríamos em um mundo bem melhor! Você sabe que não foi desrespeitoso e mesmo assim enche-se de cautelas, de atenções. No seu post do “rabo do macaco” eu disse que me esforçava para tentar ser sempre melhor. Lendo esse post de agora me dá mais vontade de duplicar os meus esforços.

    Beijos

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    1. Cesinha, tem que ser assim, né?? Não dá pra nivelar por baixo do tipo "se ninguém faz, não vou fazer"...

      Beijos!

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  12. Sabe que que eu acho? Que o que você postou não tem absolutamente nada demais. Eles lá, do concurso, não o fizeram de uma forma bem-humorada? Pois essa intenção é a que vale. Cristãos fazem piadas nada engraçadas e nada inocentes contra gays e outras "tribos" e fica por isso mesmo... Qual o problema de você mostrar isso no blog que é seu? Nenhum. Até porque você só mostrou. Quem ORGANIZOU o concurso e filmou isso que DEVERIA ter, mas mesmo assim, não tem porque cada um tem o direito de falar, fazer, pensar e postar o que quiser! Isso é livre arbítrio garantido pelas leis humanas de divinas! rs

    Abração

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    1. Como eu disse acima, não estou assumindo a culpa pra mim. Só não quero nivelar por baixo e dizer: "se eles fazem, eu posso fazer também". Pra mim, respeito sempre e ponto final!

      Abração!

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  13. CC...cadê você? Sumiu.... estamos sentindo sua falta. Volte logo. Abraços.

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    1. Ei, mocinha! Eu não disse que era bom nisso de sumir?? Mas estou de volta!! ^^

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