sexta-feira, 2 de março de 2012

Esses estranhos da minha família - III (o pai)

Eu já considerei meu pai como a pessoa que eu queria ser. Mas hoje, penso que ele é muito mais o exemplo do que eu NÃO sonho ser que uma inspiração para qualquer coisa... O pior é que eu sou muito parecido com ele, fisicamente. Só fui admitir isso aos 22 anos, vendo um álbum de fotos antigas. Nunca gostei dessa ideia de ser "a cara do pai". Eu nunca quis ser meu pai outra vez: eu queria ser melhor que meu pai sempre foi.

Muitos motivos me estimulavam a seguir essa meta. A começar: meu pai tem a característica que eu mais desprezo nas pessoas, que é a falsidade. Ele é capaz de sorrir para o seu pior inimigo, recebe-lo em sua casa e, quando a pessoa vai embora ele tem a coragem de dizer que o cara é um filho da puta e que nunca mais entra na casa dele. Mas se o cara for lá no dia seguinte, ele o receberá com o mesmo sorriso e proferirá, na sua saída, o mesmo palavrão.

Ele é umas das pessoas mais acomodadas que eu conheço. É capaz de sofrer por anos a fio por algo e não ser capaz de tomar uma atitude que o faça sair de sua zona de conforto. Muito por essa acomodação dele é que minha família viveu (e ainda vive) anos e anos imersa em problemas financeiros que ele não teve a ousadia de tentar resolver. Até hoje ele joga a responsabilidade para nós, os filhos dele, de "ajudá-lo" a sair do buraco. Mas, pelas atitudes dele, está claro pra mim que ele não quer ajuda: ele quer alguém que faça para ele o que tem que ser feito e o salve de si mesmo. Ele apresenta a mim a meu irmão para outras pessoas, não como seus filhos, mas como os "herdeiros da dívida".

Só pra vocês entenderem o que eu digo sobre ser acomodado: ele trabalha como gráfico. Tem uma máquina de impressão offset bem antiga e uma outra de corte num cômodo nos fundos lá de casa. Depois de muito custo (e muitos anos de sacrifício), EU comprei um computador com um dos meus primeiros salários pra ele poder fazer as artes finais do próprio serviço e não ter que terceirizar (reduzindo custos do processo). Isso foi em 2001. Até hoje, ele só sabe ligar o PC, jogar paciência ou damas na internet (ficou anos só jogando paciência, mas agora descobriu as damas e só joga isso) e, depois de jogar horas seguidas, desligar o computador. Ele queria que eu, trabalhando e estudando pra ser um Biólogo, fizesse o serviço de arte finalista para ele. Como eu me recusei (e a falta de tempo foi meu melhor argumento), minha mãe é quem teve que assumir a bagaça. Enquanto isso ele fica lá, esperando receber tudo na mão pra poder continuar o processo da impressão e não move uma palha.

E nessa zona de conforto, faz promessas há anos que nunca cumpriu. Ele fuma desde garoto e vive dizendo que vai parar. Mas todo dia, em todos os anos, lá está ele fumando um maço de cigarro (hoje Hollywood, mas já foi Belmont, quando ainda fabricavam tal marca), religiosamente.

Também, religiosamente, meu pai vive bebendo em qualquer boteco copo sujo do bairro. Em algumas épocas, bebe em mais dias na semana, em outras menos dias. Só para vocês terem uma ideia, desde que me entendo por gente sei que ele sai para beber pelo menos uma vez por semana (e já chegou no nível de ir 6 dias da semana, no ápice da coisa). Normalmente, fica na média de ir ao bar três vezes na semana. No bar, bebe relativamente pouco: só umas 2 ou 3 garrafas de cervejas e uma dose (ou duas) de pinga. Lá, ele fica jogando conversa fora com os donos dos bares e outros frequentadores também e por isso demora eternidades pra beber suas cervejas e pingas! Um efeito colateral disto é que, talvez, meu pai tenha mais "amigos de copo" que qualquer outra pessoa do bairro!

Nada contra ele beber! O problema é que quando ele está bêbado, torna-se um chato! Fica todo sentimentalóide, vira o "do contra", quer ter "conversas sérias" com todos sobre tudo, nas quais somente ele fala desatinando numa análise filosófica sobre o sentido da vida (sempre as mesmas frases, sempre as mesmas "conversas", iguais a da última vez em que ele bebeu) e fazendo afirmações moralistas, que ele mesmo não vivencia. Mas é só passar o pileque e ele volta a ser alguém muito impessoal que forja uma intimidade que, para quem o conhece verdadeiramente, sabe que não existe de verdade. Ao menos, é um perfil menos desagradável...

Hoje em dia, ele é um homem muito religioso. Até canta no coral da igreja (católica) que ele e minha mãe frequentam! As carolas o adoram! Em casa, ele fica o dia inteiro escutando um repertório que vai a música gospel aos hits populares do momento (mas com ênfase na música católica). Lê a bíblia quase todo dia.

Isso em si não seria problema se ele não usasse todo o seu conhecimento religioso pra engrossar o caldo do seu discurso moralista (que nem ele mesmo consegue cumprir). Normalmente, é ele quem puxa fofoca com a minha mãe sobre a vida dos vizinhos, o povo do trabalho da minha mãe e o pessoal da igreja, fazendo um julgamento moral nada imparcial de tudo e de todos. Mas nunca olha para o próprio umbigo!

Ele é o cara mais carismático que eu conheço, contudo. Tanto que é uma das pessoas mais benquistas do bairro (já deixei de ser assaltado por um grupo de malacos por que um dos caras reconheceu que eu era "o filho do meu pai").

Também não posso reclamar dele não ter sido um pai carinhoso na infância. Carinho nunca faltou, pelo menos até ele descobrir sobre minha sexualidade. Na adolescência, ele me batia algumas vezes, mas isso nem é o que mais dói. O que mais doia era eu mesmo ter que lavar a minha roupa suja com o meu próprio sangue, sob a ameaça dele de me bater mais, caso eu não fizesse aquilo antes da minha mãe chegar. Hoje fico com raiva de eu mesmo destruir as provas que o incriminariam.

Ele me ensinou a gostar, desde a infância de Secos e Molhados, Chico Buarque, Raul Seixas, Elvis Presley, Música Clássica, Pena Branca e Xavantinho, The Beatles, cantores de bolero e tango como o Carlos Gardel, Roberto Carlos, Pepino di Capri, e o restante de uma salada muito louca de um gosto musical bem diverso.

Acima de tudo ele é um homem extremamente honesto. Devolve troco que vem para mais, nunca o vi fazendo nada desonesto. Prefere ter prejuízo que prejudicar alguém. Talvez isso seja fruto do esforço que ele faz pra agir de acordo com os princípios que ele acredita. Uma pena que ele não dá conta completamente dessa missão impossível que ele escolheu para si...

28 comentários:

  1. Sabe, eu li com muito cuidado, linha por linha... vou ser sincero: pra mim duas coisas importam, o carinho que ele te deu (nem interessa como e em que época, mas que tenha existido!) e essa herança musical. Essas duas coisas já valeram a vida dele, é o que eu penso.

    Beijão.

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  2. pois é, acho q aquele meu texto sobre meu pai se refletiu em vc bem profundamente né? temos pais dificeis, fato! o jeito é olhar pra frente, já que não podemos muda-los.

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    1. Estou fazendo uma introdução pra falar da minha família em breve. Falta o post sobre minha vó...

      Beijos!

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  3. Lendo, esse texto, Ou o Do Foxx como ele acaba de citar, tenho a sensação, de que não saberia descrever ao certo meu pai, e minha atual relação com ele...

    acho que não saberia expor isso... um exercício e um desafio pra mim, quem sabe eu consiga desenvolver isto.. quem sabe...

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    1. Eu tb não soube descrevê-lo. Fiquei quase um mês om uma linha só, mas depois fiz uns 4 parágrafos numa tacada só. O texto não ficou como eu gostaria, mas resolvi publicar mesmo assim...

      Abraços!!

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  4. Sem ironia, isso é a última coisa que eu quero na vida, ser irônico com você, mas, se meu pai fosse vivo e você quisesse trocar com o seu... Eu penso que, independente de qualquer coisa, essa relação pai/filho é por demais complicada. Muitas vezes eu penso, e se eu tivesse/tiver (nunca desisto!) um filho? Será que tudo seria como um conto de fadas? Acredito que não.

    Abraços.

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    1. Não quero trocar de pai não. Gosto do jeito que (não) me relaciono com o meu atualmente...

      Abraços!!

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  5. Caraca, qta complexidade eim? Definitivamente uma relação difícil ... Ele um cara cheio de defeitos mas tb cheio de virtudes ... no fundo me ficou a imagem de um cara bom mas perdido em si mesmo ... qto a vc, dizer o que né? Vc vivenciou o lado amargo dele e isto dói e muito, mas não o impede de visualizar e compartilhar aqui o lado bom dele. Bacana isto ...

    Eu convivi muito pouco com meu pai. O perdi aos 23 anos mas hoje, penso q se ele estivesse aqui seria o meu maior amigo, o meu confidente mesmo ...

    Como diz o Foxx o q cabe aqui é vc tocar sua vida e não se permitir sofrer mais com tudo isto.

    bjão

    ps: hoje fui lá procurar o Sérgio: My God! quase dois metros a sustentar uma negritude que cobre uma massa estonteante ... como diria o Lobinho ... #morrinasneves ... rs

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    1. Meu pai é sim um cara perdido em si mesmo, vc tem absoluta razão... Agora é tocar pra frente!

      Só não entendi seu PS: Sérgio? Oi?

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  6. Vontade de dar um abraço no seu pai depois desse texto... Me parece mais uma vitima da historia do que o vilão dela!!!!

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    1. Pois é. A história da minha família é um amontoado de vítimas...

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  7. Leãozinho: Será q fomos criados pelo msmo pai e não sabemos?
    Ou pelo menos em partes.

    Meu pai tb tem essa questão com o aspecto financeiro e vive sonhando q só um prêmio da Loto é capaz de resolver tudo. Acredita?
    Tirando a questão religiosa e a prática musical rica.

    Ah! E o meu me batia na frente da minha mãe msmo.

    Só falta vc me dizer q sua mãe só faz falar dele o DIA TODO, mas é incapaz de tentar mudar o disco ou sua vida, msmo depois de 30 e poucos anos de casamento.

    Querido, teu post me deixou triste, mas tb contente... Pq no fim vc já é melhor q ele.
    Quanta coisa vivida, né?
    =/
    Triste, porém real.

    No fim, nossos pais não são nada mais q tristes personagens de um conto de Pirandello, né?
    Um bjo e um abraço carinhoso e repleto de partilha.
    =/

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    1. Obrigado pelo carinho, meu querido! Beijos!

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  8. Meu pai tb é acomodado. Rezo pra não ficar igual a ele !!!

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  9. Caraca... ao terminar de ler teu post, me lembrei de um filme que vi alguns anos atrás... Feriados em Família, acho que era o nome, e nele tinha uma frase que me marcou. Eram duas irmãs e um irmão gay, e lá depois de uma briga homérica, um deles vira e diz... a gente não precisa se gostar, nós somos família! kkk
    Não sei porque isso me veio agora...

    De qualquer forma, relações familiares são sempre muito complicadas, no fundo, fiquei com a sensação de que "apesar de tudo"... vocês ainda são uma família e se importam uns com os outros... isso é bacana! Nada justifica a falta de respeito, por exemplo dele agredi-lo... mas acho que também não posso apontar um dedo para ele...

    Afinal, se ele foi capaz de criar o homem que você é hoje, que é até capaz de olhar para trás e fazer uma análise tão centrada... ele também deve ter seus acertos...

    Mais que um belo texto, acho que vale o agradecimento por tê-lo compartilhado com a gente que te lê... Abração!

    (em tempo... tô voltando...kkk)

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    1. Olha Latinha, valeu pelo carinho sim! Mas uma coisa precisa ficar clara: Não. Nós não somos uma família que se importa uns com os outros...

      E que bom que vc está voltando!!

      Abraços!!

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  10. Te batia até sair sangue?Tenso...Era por besteiras, ou você fazia muita merda?Não que justifique é só curiosidade.

    Bom não posso tecer comentários muito profundos sobre assunto já que meu pai nunca foi ruim, mas foi ausente.Não sei se é melhor ter pais que sejam um pouco ruins mas presentes, do que ausentes.

    Talvez eu não estivesse no limbo em que estou se não fossem, mas de nada adianta reclamar disso agora já que apenas eu posso fazer algo por mim neste momento.

    Mas quanto a frase do comentário acima "somos uma família, não precisamos nos gostar" não sei se concordo muito.Gostaria de poder não conviver coma minha família muitas das vezes, ou de gostar dela em outras.Conviver não gostando por mais que seja a norma não me apetece.

    Eu vejo a família como o porto seguro das pessoas na sociedade.Pelo fato de as pessoas terem a "obrigação moral" de apoiar, ajudar ou simplesmente não abandonar a própria família cria-se um rede de segurança com que podemos (teoricamente) contar.

    E as pessoas ainda são muito apegadas as famílias mesmo quando não existem laços afetivos porque diferente dos filmes encontrar aquele grupo de amigos que serve como uma família não é tão fácil.

    E mesmo quando se encontra, cada um tem sua própria família e muitos deles terão relações familiares melhores que a sua, ou também terão medo de abandonar a sua "rede de segurança" para depositar toda sua confiança em um amigo que provavelmente terá outras pessoas como prioridade na sua vida (família).Pode não ser assim para todos, mas acho que é assim para maioria.

    Em um mundo ideal os pais criariam os filhos para o mundo e estes depois escolheriam sua própria rede familiar, os amigos.Em um mundo mais perfeito ainda os pais não só criariam os filhos para o mundo mas com atenção e amor o suficiente para que esses filhos queiram manter os laços por vontade e não por obrigação ou dependência e as redes familiar e de amigos se integrassem.

    Mas o mundo está longe da perfeição...

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    1. Meu pai me batia por coisas banais. Eu era um moleque super comportado. Virei o capeta depois da adolescência mesmo! rs

      Sobre a tal frase, concordo com vc. Mas sobre amigos vs família... sou 100000000000000000000000000 de vezes mais amigos que família.

      Abraços!!

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  11. Super obrigado pelo post no comentário sobre os problemas de família, adorei e entao, já procurei ajuda.. fui em psicologos já e até encarei uma vez ir em psiquiatra... Super obrigado por se colocar disponível!!!!

    Concordo com o Cesinha, mas eu ainda diria que apesar de tudo a honestidade também é provavelmente o mais importante.

    Blogville é fantástica mesmo, podemos comparar as coisas e vemos que as coisas que aconteceram com a gente não foi tão ruim e que se foi, sempre poderia ser pior.

    Acho que o negócio é aprender um pouquinho com cada um aqui!!

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    1. Foi malz! Eu falo (e comento) demais, né?

      E, vc vem reforçar minha hipótese de que Blogsville pode funcionar como uma terapia de grupo das boas... hehehe

      "Tamos junto, brodi!!!"

      Abraços!!

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  12. Meu pai é o contrário de acomodado. Mas ele também tem esse lance da falsidade que me irrita profundamente. É o que disparado me dá mais raiva nele, até a questão da educação militar perde.

    Mas enfim, sobrevivemos né?

    Beijo doido!

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    1. Lobo, coisa linda!

      Sempre sobrevivemos...

      Beijos, doido!

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  13. Eu acho - apesar de não ter que achar nada - que tu tem muito do teu pai. Melhor dizendo: tu tem muito do melhor do teu pai! Hugzzzzz!

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    1. Ai, Fred! Eu muito do melhor e do pior do meu pai (e da minha mãe)... Assumir isso pra mim foi difícil, mas me permite fazer algo a respeito...

      Hugzzzzzz

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  14. Uma íntima e contundente descrição do seu pai, Cara Comum.
    Em certo momento fiquei assustado, comigo!
    Acabei me encontrando em algumas características que vc descreveu do seu pai.
    "Ele é capaz de sofrer por anos a fio por algo e não ser capaz de tomar uma atitude que o faça sair de sua zona de conforto".
    Me sinto assim muitas vezes.
    E é um problema sério! Porque por mais que desejemos mudar algo, não conseguimos, ou não nos esforçamos pra conseguir, esperamos cair do céu.
    É complicado!
    Quanto a ele te bater e esconder da sua mãe foi cruel.
    A gente nunca sabe o que se esconde no passado de uma criança gay.
    Abraço, amigão!!

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  15. Gay Incomum, eu respeito que a pessoa faça essa escolha de ficar esperando a solução cair do céu, mas o problema é quando ela escolhe isso e a sua escolha reflete na vida dos outros, né? Aí sim é tenso!

    Isso de me bater eu não consigo dizer se é cruel ou não. Eu fico bravo é com a minha submissão...

    Abração!

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